O Planalto diz não
Governo nega aumento aos grevistas e sugere
aos insatisfeitos que procurem outro emprego
Alexandre Secco
Ichiro Guerra/Folha Imagem
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Manifestação
diante do Palácio do Planalto: o reajuste não
vai sair
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A folha de pessoal sempre foi um item do Orçamento
público tratado com descuido em todos os níveis
de governo. Pela necessidade que os governantes demonstram
de ficar com boa imagem perante o funcionalismo, a despesa
com o salário do servidor público sempre cresceu
ao sabor de greves ou da proximidade das eleições.
É uma tradição brasileira, da mesma
forma que o empreguismo. Na semana passada, lá estavam
outra vez os funcionários na luta por aumento. Em
Brasília, na quarta-feira, cerca de 10.000
manifestantes empunhando cartazes e bandeiras pleiteavam
64% de reajuste em frente do Palácio do Planalto,
completando a segunda semana de greve do funcionalismo federal.
A resposta do governo surpreendeu pelo ineditismo. Foi firme.
Em nota oficial, anunciou que não concederá
aumento, descontará os dias parados, não negociará
com os grevistas e, para quem continuar insatisfeito, tem
a oferecer as soluções concentradas no Programa
de Demissão Voluntária. "O governo decidiu
dar mais uma oportunidade aos servidores que quiserem deixar
o serviço público em busca de outra atividade",
diz a nota.
Existem funcionários ganhando mal e o direito à
reivindicação é sagrado em qualquer
democracia. A novidade em torno dos protestos realizados
em Brasília na semana passada não estava nesse
ponto. O aspecto novo foi a clareza com que o governo analisou
a impossibilidade contábil de conceder aumentos e
a maneira simples e racional de explicar isso ao resto da
sociedade, que afinal seria chamada para pagar se os grevistas
tivessem sucesso no movimento que deflagraram. O governo
federal gasta atualmente 53,6 bilhões de reais por
ano com a folha de salários. Se o reajuste de 64%
fosse concedido, a despesa saltaria para 87,7 bilhões
de reais por ano. A diferença, 34,1 bilhões
de reais, equivale a todo o dinheiro previsto no Orçamento
de 2000 para novos investimentos. Como o Orçamento
é resultado da arrecadação de impostos
da sociedade, não há o que inventar. O Estado
não gera riqueza nem renda. Ou o governo arruma dinheiro
novo ou corta despesas. A primeira opção está
descartada. Para arrumar dinheiro novo, é preciso
aumentar os impostos. A carga tributária brasileira,
na casa dos 30% do produto interno bruto, já é
exagerada para o padrão de riqueza vigente no país.
Equivale mais ou menos à taxa na Alemanha, uma nação
de cidadãos abastados que podem entregar parte maior
de sua renda ao governo sem ser depenados no processo. Todas
as simulações mostram que, se o Brasil decidisse
aumentar os impostos ainda mais, cresceria junto a sonegação.
Cortar despesas, a segunda alternativa, também é
difícil, já que o Orçamento para este
ano é dos mais enxutos da História. Houve
um tempo em que era possível cortar as "gorduras"
da planilha orçamentária. Desta vez, porém,
não existem quase gorduras visíveis. Assim,
o governo preferiu negar o reajuste exigido pelos servidores
e explicar ao país por que razões tomara essa
atitude. "Na hipótese do corte das despesas ou na
da elevação dos impostos, quem paga a conta
é sempre a sociedade. O governo não pode fabricar
dinheiro", lembra o ministro Martus Tavares, do Planejamento,
Orçamento e Gestão. Conclusão: nada
de aumento.
Há uma insatisfação generalizada
com o salário por parte do funcionalismo e um renovado
impulso ao protesto em todo o país. Na semana passada,
em São Paulo, sob o incentivo de militantes de organizações
políticas, os professores fizeram uma passeata até
o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo Mário
Covas, na tentativa de arrancar do governador um reajuste
de 54,7%. Covas, que dias antes fora agredido com um pau
de bandeira por um professor numa manifestação
de rua, teve a mesma reação do presidente
Fernando Henrique Cardoso. Nem sequer aceitou receber os
grevistas para negociar. No Rio de Janeiro, cruzaram os
braços os servidores do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE) e, em Brasília, os da
Previdência Social. A cada semana se assiste à
repetição desses episódios por todo
o Brasil, às vezes com algum toque de pastelão,
como a ovada que um estudante petista aplicou dias atrás
no rosto do ministro José Serra, da Saúde,
durante encontro do PSDB na cidade de Sorocaba, interior
paulista. Por mais que se alegue que essas manifestações
são orquestradas por agremiações de
esquerda em período que antecede as eleições
municipais, ninguém reúne 10.000
ou 20.000 pessoas se não
houver também algum tipo de insatisfação
para motivar essas multidões ao protesto. Um professor
de ensino fundamental ganha 1350 reais por mês, por
uma jornada de quarenta horas, mesmo em São Paulo,
onde os salários são os mais altos do país.
Um soldado da PM fluminense, que arrisca a vida no confronto
com traficantes, tem soldo em torno de 670 reais. É
pouco quando se examinam as necessidades de cada um. Pode
não ser pouco em comparação com o que
ganham os outros trabalhadores na iniciativa privada.
Sergio Castro/AE
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Em São Paulo,
20 000 servidores foram às ruas para pedir
aumento
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No serviço público federal também há
distorções internas a considerar. Os servidores
dos escalões inferiores, entre eles porteiros, ascensoristas,
secretárias, escreventes ou motoristas, têm
salários bem maiores que seus correspondentes nas
empresas privadas. Além disso, levam a vantagem de
se aposentar com o mesmo salário que percebiam no
final da carreira. Enquanto isso, nos cargos de padrão
mais sofisticado, como de fiscal da Receita ou técnico
do Tesouro, os salários são inferiores aos
pagos pelo setor privado. O resultado é que os profissionais
mais capacitados não têm interesse em trabalhar
para o governo. Na greve da semana passada, em Brasília,
as lideranças do movimento eram justamente representantes
das carreiras de cúpula. O movimento é liderado
pela Associação dos Auditores da Receita Federal,
categoria em que o salário chega a 8 500 reais.
Os grevistas argumentam que estão sem receber aumento
há cinco anos. Não é verdade. Houve
um reajuste geral em torno de 12% e aumentos diferenciados
para 33 carreiras definidas como essenciais ao funcionamento
da máquina do Estado. Em 1994 os gastos com a folha
somavam 22,5 bilhões de reais. Mesmo sem novas contratações,
os dispêndios subiram para 53,6 bilhões de
reais neste ano, uma variação de 138%. Descontada
a inflação de 70%, ainda sobra um índice
positivo de 70%. Como os valores da folha do governo são
muito elevados, qualquer reajuste tem um impacto colossal
nas contas públicas. Segundo um cálculo do
Ministério do Planejamento, cada 1% de aumento equivale
a 536 milhões de reais. "É praticamente o
que se gastará com a manutenção da
malha rodoviária federal neste ano", diz a nota do
governo.
João Wainer/Folha Imagem
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Professores paulistas em greve:
viraram alvo da erosão salarial
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Há ainda o desafio da aposentadoria no setor público.
Quase metade do dinheiro relativo à folha de pagamento
é entregue aos servidores inativos. De acordo com
a lei, as pessoas não apenas se aposentam com o mesmo
salário da ativa como também terão
o direito, até o fim da vida, de receber todos os
reajustes dados aos que ainda trabalham. A aposentadoria
média do setor público é de 2.300
reais, contra 299 reais no mundo privado quase oito vezes
mais. É por isso que 1 milhão de aposentados
do serviço público federal consomem 30 bilhões
de reais por ano, enquanto 19 milhões de inativos
do setor privado ganham 60 bilhões de reais.
A assessoria do presidente Fernando Henrique Cardoso já
o avisou de que a greve poderá deixar seqüelas
políticas, detectáveis nas próximas
pesquisas de popularidade. O governo, que defendeu um salário
mínimo de 151 reais contra os 180 reais pretendidos
pelo PT e pelo PFL, agora nega aumento a funcionários
públicos. Com atitudes como essas, a União
revela que está levando a sério o equilíbrio
das contas públicas, sem o qual não se constrói
um país que pare de pé, mas é inevitável
que essa postura seja apresentada pelos partidos adversários
como falta de sensibilidade social. Por esperteza, os governadores
conseguem preservar-se um pouco mais nesse debate, embora
o problema em alguns lugares seja muito maior do que em
Brasília. O governo federal gasta 30% do Orçamento
com o pagamento de salários. Existem lugares onde
a folha ultrapassa 80% da receita.
Fácil de falar, difícil de fazer
Quando se discutia o novo salário mínimo,
o senador Antonio Carlos Magalhães foi o maior
defensor de um piso superior aos 151 reais, que acabou
aprovado. À frente de uma ala do PFL e ao lado
do PT, ACM queria um mínimo de 180 reais. Para
fazer pressão, dois governadores do PFL anunciaram
que o novo piso do funcionalismo de seus Estados seria
de 180 reais. A decisão serviria para provar
que aumento salarial é uma questão de
vontade política. Deu tudo errado nos dois
casos.
Na semana passada, o governador da Bahia, César
Borges, admitiu que o impacto do novo piso de 180
reais será maior do que ele havia previsto
inicialmente. Os primeiros cálculos apontavam
para um aumento da ordem de 1% sobre a folha de pagamento
num total de 2 bilhões de reais por ano
antes do novo piso. As projeções estavam
erradas.
O gasto com o novo piso vai ficar seis vezes mais
caro. Ninguém consegue explicar como um governo
pode errar tão feio. Borges demitiu pelo erro
o secretário da Administração,
Sérgio Moysés. Por pouco, a governadora
do Maranhão, Roseana Sarney, não fez
o mesmo. Depois de anunciar o novo piso de 180 reais,
Roseana mandou refazer duas vezes as contas que recebeu.
Descobriu que a sangria seria maior do que ela esperava
e não tocou mais no assunto. Vai que ninguém
percebe...
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