Fax para o além
Ilustração Pepe Casals
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Poucos dias atrás, o cardeal Giacomo Biffi, da cidade
italiana de Bolonha, proibiu os fiéis de falar com
os mortos. Aparentemente, era uma prática bastante
comum. Quem sofria a perda de um familiar, em geral de forma
trágica, consolava-se consultando um médium
e trocando mensagens com o defunto. Alguns desses médiuns
pertenciam à própria Igreja Católica.
Faziam a intermediação com os mortos de graça,
apenas para confortar seus parentes. Outros cobravam uma
taxa para executar a tarefa. Usavam os mais variados métodos
para entrar em contato com o além: vozes metálicas
gravadas numa fita, sons e imagens provenientes de um televisor
mal sintonizado, textos enviados por fax ou computador.
Agora nada disso é permitido. O cardeal Biffi liquidou
com essa onda de espiritismo new age, explicando que, apesar
de compreender a dor daqueles que perderam entes queridos,
"solicitar mensagens dos mortos significa desconfiar da
palavra de Deus".
Pode parecer incongruente que, na mesma semana em que
o cardeal Biffi condenava os médiuns de Bolonha,
o papa, em Fátima, beatificava duas crianças
que tiveram a oportunidade de conversar com Maria, morta
quase 2.000 anos antes. Mas o
cardeal tem razão. A Igreja não pode ignorar
esses fenômenos de misticismo exasperado. Precisa
enfrentá-los corajosamente. Caso contrário,
ela simplesmente desaparece. É necessário
denunciar com vigor os espertalhões que se aproveitam
dessas crendices populares. Tem muita gente que acredita
na possibilidade de falar com os mortos. Muito mais gente
do que se imagina. Andei fazendo umas sondagens. Nada de
científico: perguntei a parentes, amigos e parentes
de amigos o que eles achavam desse negócio. Concluí
que cerca de metade da humanidade acredita que os mortos
podem falar.
Há quem divida o mundo entre ricos ou pobres, brancos
ou negros, do norte ou do sul, de esquerda ou de direita.
Eu o divido entre quem acredita em fantasmas e quem não
acredita. É o único critério que uso
para discriminar as pessoas. Não quero ter nenhuma
relação com quem acredita em fantasmas. Também
evito as pessoas que acreditam em mau-olhado, em adivinhações,
em energia positiva, em milagres, em feng shui. Só
tenho um mínimo de simpatia por quem acredita em
marcianos, embora duvide que eles existam. Em Veneza, eu
moro grudado a uma casa que, segundo as tradições
locais, dá um azar danado. Todo mundo que morou nela
nos últimos 500 anos acabou sofrendo uma desgraça.
Os gondoleiros que passam diante dela afirmam que Woody
Allen queria comprá-la, mas desistiu ao saber de
sua fama agourenta. Por estar grudada a essa casa, dizem
que a minha também dá azar. Antes de mim,
moravam aqui dois homens de meia-idade e um cachorro chihuahua.
Em menos de dois anos, o primeiro homem morreu de ataque
cardíaco, o segundo de câncer e o chihuahua
de asma. Eles tinham posto um amuleto na janela que dava
para a casa agourenta. Como se vê, não funcionou.
A primeira coisa que fiz ao mudar para cá foi jogar
o amuleto fora. Desde então, tive uma série
de boas notícias. É o período mais
sortudo da minha vida. E, até agora, não ouvi
os latidos do chihuahua morto.