Edição 1 651 -31/5/2000

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Fax para o além

Ilustração Pepe Casals


Poucos dias atrás, o cardeal Giacomo Biffi, da cidade italiana de Bolonha, proibiu os fiéis de falar com os mortos. Aparentemente, era uma prática bastante comum. Quem sofria a perda de um familiar, em geral de forma trágica, consolava-se consultando um médium e trocando mensagens com o defunto. Alguns desses médiuns pertenciam à própria Igreja Católica. Faziam a intermediação com os mortos de graça, apenas para confortar seus parentes. Outros cobravam uma taxa para executar a tarefa. Usavam os mais variados métodos para entrar em contato com o além: vozes metálicas gravadas numa fita, sons e imagens provenientes de um televisor mal sintonizado, textos enviados por fax ou computador. Agora nada disso é permitido. O cardeal Biffi liquidou com essa onda de espiritismo new age, explicando que, apesar de compreender a dor daqueles que perderam entes queridos, "solicitar mensagens dos mortos significa desconfiar da palavra de Deus".

Pode parecer incongruente que, na mesma semana em que o cardeal Biffi condenava os médiuns de Bolonha, o papa, em Fátima, beatificava duas crianças que tiveram a oportunidade de conversar com Maria, morta quase 2.000 anos antes. Mas o cardeal tem razão. A Igreja não pode ignorar esses fenômenos de misticismo exasperado. Precisa enfrentá-los corajosamente. Caso contrário, ela simplesmente desaparece. É necessário denunciar com vigor os espertalhões que se aproveitam dessas crendices populares. Tem muita gente que acredita na possibilidade de falar com os mortos. Muito mais gente do que se imagina. Andei fazendo umas sondagens. Nada de científico: perguntei a parentes, amigos e parentes de amigos o que eles achavam desse negócio. Concluí que cerca de metade da humanidade acredita que os mortos podem falar.

Há quem divida o mundo entre ricos ou pobres, brancos ou negros, do norte ou do sul, de esquerda ou de direita. Eu o divido entre quem acredita em fantasmas e quem não acredita. É o único critério que uso para discriminar as pessoas. Não quero ter nenhuma relação com quem acredita em fantasmas. Também evito as pessoas que acreditam em mau-olhado, em adivinhações, em energia positiva, em milagres, em feng shui. Só tenho um mínimo de simpatia por quem acredita em marcianos, embora duvide que eles existam. Em Veneza, eu moro grudado a uma casa que, segundo as tradições locais, dá um azar danado. Todo mundo que morou nela nos últimos 500 anos acabou sofrendo uma desgraça. Os gondoleiros que passam diante dela afirmam que Woody Allen queria comprá-la, mas desistiu ao saber de sua fama agourenta. Por estar grudada a essa casa, dizem que a minha também dá azar. Antes de mim, moravam aqui dois homens de meia-idade e um cachorro chihuahua. Em menos de dois anos, o primeiro homem morreu de ataque cardíaco, o segundo de câncer e o chihuahua de asma. Eles tinham posto um amuleto na janela que dava para a casa agourenta. Como se vê, não funcionou. A primeira coisa que fiz ao mudar para cá foi jogar o amuleto fora. Desde então, tive uma série de boas notícias. É o período mais sortudo da minha vida. E, até agora, não ouvi os latidos do chihuahua morto.