Edição 1 651 -31/5/2000

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Ministro e médium

Um dos mais poderosos nomes do governo FHC,
o general Cardoso conta como incorpora
espíritos e promove curas

Thaís Oyama

A logística militar, somada à doutrina espírita e à farta leitura de filosofia oriental, forjou o que é hoje o general Alberto Mendes Cardoso, 59 anos. Ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, o general é homem de muitas atribuições: comanda o serviço de informações, articula a política de segurança pública, cuida do combate ao narcotráfico, assessora o presidente da República em assuntos militares e é responsável por sua segurança pessoal. Não bastasse tudo isso, até o mês passado visitava semanalmente uma casa na cidade-satélite do Guará (no Distrito Federal), onde, trajando roupas invariavelmente claras, incorporava o espírito de um certo doutor Amaro. Afirma-se, e ele não nega, que teria promovido a cura de muitos doentes. Militar de carreira brilhante, abriu mão da farda e dos galões para transformar-se em um dos mais poderosos ministros do governo FHC – um ministro que crê em extraterrestres, considera a música Imagine, de John Lennon, "um hino para a humanidade" e faz questão de passar as próprias camisas. A VEJA, ele falou sobre poder, vaidade, espíritos e fé.

Veja – Por mais de quarenta anos o senhor conviveu em ambiente militar. A adaptação ao mundo da política tem sido difícil?
General Alberto Cardoso
– Não, não é difícil. Digo sempre aos meus subordinados que existe uma receita para se sair bem aqui na Presidência da República. A receita que eu dou é a seguinte: sejam vocês mesmos, não mudem nada, sejam coerentes com aquilo em que vocês acreditam. Isso eu digo e pratico desde o primeiro minuto em que cheguei aqui até hoje. Sempre fiz questão de ser eu mesmo. Mas também tive de passar por algumas adaptações.

Veja – Por exemplo?
General Cardoso
– Por exemplo: nós, militares, temos uma hipersensibilidade na questão da honra. Os sensores que acusam que nossa honra está sendo atingida são muito extensos. Então, se eu mantivesse essa hipersensibilidade num cargo como este aqui, viveria me aborrecendo.

Veja – O que o aborrecia antes e agora não aborrece mais?
General Cardoso
– Ter minha competência questionada, por exemplo. Porque, nessa hipersensibilidade, entendemos como ponto de honra também o fato de os outros nos considerarem competentes. Para nós, militares, a avaliação da nossa competência é muito importante. No início, quando me sentia atingido nesse aspecto, eu respondia, contestava, me aborrecia. Chegou um ponto em que eu pensei: "Meu Deus, eu vou morrer doente do fígado". Então, para evitar esse permanente desgaste íntimo, você tem de estabelecer uma espécie de "núcleo duro" da sua honra, uma parte de você que será sempre inatingível, e, a partir daí, deixar para lá. Você tem de endurecer o couro. Hoje, eu tenho o couro duro.

Veja – E o que ainda o aborrece?
General Cardoso
– Pouca coisa. Pouca coisa mesmo. Mas quer me ver disposto a reagir? Reagir com veemência? Insinue que eu esteja mentindo. Isso está lá, no núcleo duro.

Veja – O senhor já declarou que a camaradagem nas Forças Armadas é uma coisa que preza muito e que a deslealdade o incomoda. Desde que o senhor entrou para o governo, tem lidado muito com a deslealdade?
General Cardoso
– Não quis dizer com isso que agora tenho mais exemplos de deslealdade do que tinha antes. Disse que uma das coisas que eu mais estimo na profissão militar é a camaradagem, que é um sentimento muito mais forte que a amizade até. A camaradagem é uma característica do ambiente militar, é um compromisso de pessoas que comungam dos mesmos valores. E camaradagem pressupõe lealdade. Mas também nas Forças Armadas existem probleminhas de vez em quando, como aqui. De fato, uma das coisas que mais me incomodam é a deslealdade. Mas eu criei, talvez até como mecanismo de defesa, uma sabedoria pessoal que me faz detectar com mais rapidez as ameaças.

Veja – Como é esse mecanismo?
General Cardoso
– De tanto lidar com as pessoas, aprendi a detectar pelo olhar quem está mentindo. Quando percebo que pode vir de lá uma deslealdade, não assumo compromissos.

Veja – Uma tática instintiva?
General Cardoso
– Eu diria intuitiva.

Veja – Qual a sua crença, general?
General Cardoso
– Essa é uma questão que pode até suscitar algumas reações... Mas vamos lá: minha crença é essencialmente kardecista, com algumas interpretações pessoais que, em alguns momentos, fogem ao rigor do evangelho kardecista. Basicamente, minha maneira de interpretar a vida passa por dois pontos. Primeiro: há vida depois da morte física. Segundo: depois da morte física, a energia vital de cada pessoa se desprende dela. Desprende-se e leva junto toda uma base de dados formada pelos conhecimentos e pelas experiências que essa pessoa acumulou durante a vida.

Veja – E essa energia vai para onde?
General Cardoso
– Ela se aproxima e se junta a outras energias vitais que foram desprendidas por outras pessoas. Normalmente, essas outras energias pertencem a pessoas que foram seus amigos, seus parentes, pessoas com as quais ela teve afinidades. Afinidades que, depois da morte física, se tornam simpatias vibratórias. Quando essas energias se juntam, formam espécies de colônias de energia que podem influir no campo físico.

Veja – De que maneira?
General Cardoso
– Eu vejo a pessoa encarnada como se fosse uma antena permanentemente bombardeada por intuições, energias. Essas energias podem passar despercebidas ou ser captadas, conforme você ajusta a sintonia do seu receptor. E o seu receptor é a sua mente. Cabe a nós estar alertas para ajudar essas energias a nos ajudar. Elas estão por aí, querendo que nós evitemos os erros que elas cometeram na vida encarnada.

Veja – E são sempre positivas essas energias?
General Cardoso
– A preponderância de boas ou más experiências que as pessoas tiveram durante a vida é que vai definir se aquela colônia, aquela soma de energias vitais agrupadas, é boa ou má. Basicamente, minha filosofia consiste em sintonizar as boas colônias e rejeitar as ruins.

Veja – O senhor chegou a atuar como médium. Depois que a atividade foi divulgada, o senhor a abandonou. Sente falta dela?
General Cardoso
– A gente sempre sente falta das atividades que nos dão prazer e, por algum motivo, suspendemos. E realmente me agrada muito, por meio dessa mediunidade que surgiu, ajudar as pessoas.

Veja – E como é essa sua mediunidade, que, segundo se diz, chegou a promover curas?
General Cardoso
– Não é mágica, não é milagre, é um fenômeno físico: uma concentração da energia que uso intuitivamente e por meio da aplicação de mãos nas pessoas. Várias delas se curam. Essa atividade me dava muito prazer. Era um trabalho que começava às 8 e meia da noite e varava a madrugada – ia até atendermos a última pessoa que estava precisando. Às vezes, chegava em casa sabendo que dali a poucas horas estaria começando a trabalhar de novo. Mas é tão grande a satisfação de ajudar as pessoas que nem cansaço você sente.

Veja – Por que o senhor suspendeu a atividade?
General Cardoso
– Suspendi porque, depois que o endereço da família que nos cedia a casa foi divulgado, essa família perdeu totalmente a privacidade. Ficaram marcados, coitados. Tiveram a casa cercada por curiosos e foram obrigados a mudar o número do telefone.

Veja – Como ministro de Estado, o senhor não se preocupou com a própria imagem?
General Cardoso
– Com a minha própria imagem, não. Mas, tendo em vista o meu cargo, preocupei-me com a possibilidade de esse trabalho despertar uma certa curiosidade, algum preconceito – ou mesmo uma tendência cínica de tratar o assunto jocosamente. Preocupei-me com a possibilidade de trazer, digamos, um anedotário para a Presidência da República.

Veja – E como o presidente encara esse trabalho?
General Cardoso
– No meu primeiro dia aqui, eu disse a ele: "Olhe, presidente, fazemos esses trabalhos, eu sou espírita, há reuniões de cura... Isso pode ser um ponto até de desqualificação para o cargo". Ele respondeu: "Não, general, nada disso". O presidente absolutamente não se incomoda, não se choca. Isso é a minha missa semanal, e eu vou reiniciar esse trabalho. Estou apenas à procura de um novo lugar. Além de me dar satisfação, há outra justificativa mais importante para isso que é o fato de existirem pessoas que estão procurando esse socorro. Elas vão lá na casa antiga e batem com a cara na porta. Chegam com dor e saem com dor.

Veja – Quando foi que essa capacidade mediúnica se manifestou?
General Cardoso
– Foi há muito tempo, em 1990, quando eu ainda era coronel aqui em Brasília. Uma pessoa pediu que eu a acompanhasse a um centro espírita e uma entidade manifestada num médium se aproximou. Disse que eu tinha em torno de mim diversas entidades de cura que estavam só esperando que eu me abrisse para ajudá-las a praticar as curas. Procurei prestar atenção em certas intuições que vinha tendo e vi que aquele alerta tinha de ser seguido. Foi uma responsabilidade, uma missão que se abriu para mim.

Veja – O kardecismo era uma corrente forte na Academia Militar em Resende, onde o senhor estudou, não?
General Cardoso
– Em Resende, de fato. Mas o kardecismo prosperou muito no Exército como um todo. Na Academia Militar havia um núcleo muito forte de professores antigos, oficiais que se reuniam para estudos evangélicos e mediúnicos. E de fato, como você mencionou, houve uma influência grande do antigo general Alfredo Moacir de Mendonça Uchôa, que era um professor da Academia e que depois veio para Brasília, teve contato com extraterrestres...

Veja – O senhor acredita neles?
General Cardoso
– Extraterrestres são essas energias todas que se deslocam instantaneamente, que têm essas facilidades que nós ainda não temos. Mas, continuando, por meio do filho do general Uchôa, que é também um general e grande amigo meu, eu ouvia essas histórias, relatos de alguns fenômenos que aconteciam nas sessões mediúnicas, e passei a me interessar pela doutrina. Mas eu me tornei kardecista no casamento, muito tempo depois. Minha mulher, a Sônia, sempre teve muito interesse em se fixar numa filosofia de vida, numa religião. Ela acabou nos estimulando em casa ao estudo do evangelho, do espiritismo e, aí, a família acabou se tornando kardecista.

Veja – O senhor sempre diz que não é um homem poderoso, mas cheio de atribuições. O senhor tem reservas em relação ao poder?
General Cardoso
– Meu raciocínio é o seguinte: o eleitor, ao votar, delega poder a quem ele elege. E quem é eleito pelo voto não pode subdelegar esse poder – pode subdelegar autoridade, distribuir atribuições. Eu tenho muitas atribuições e julgo que sou até meio doente nesse sentido: gosto de ter aumentadas as minhas responsabilidades. Quando o presidente me convidou para participar do governo, aceitei porque considerei que talvez pudesse ampliar minha capacidade de servir o país e também porque me sinto muito bem com muitas responsabilidades.

Veja – Mas quem tem muitas responsabilidades usufrui das mesmas benesses de quem tem poder. Ganha notoriedade, por exemplo, admiração...
General Cardoso
– A notoriedade me incomoda. Outro dia, ia receber o presidente na base aérea e, como houve um atraso, fui a uma livraria do aeroporto. Escolhi um livro, comprei um sorvete e me sentei num banco com o sorvete na mão. Chegou um senhor, bateu no meu ombro e disse: "General, o senhor não me conhece, mas eu o conheço. Vá em frente, general". Eu pensei: "Ai, meu Deus do céu, acabou".

Veja – Acabou o quê?
General Cardoso
– Acabou parte da minha privacidade! Incomoda-me o fato de deixar de ser anônimo. Não me sinto bem, está dentro de mim, não gosto. Já o fato de ser respeitado me empresta talvez mais credibilidade para influenciar e ajudar. Ajudar o governo, a Presidência, o país.

Veja – O senhor se considera imune à vaidade?
General Cardoso
– Estaria mentindo se negasse que tenho um ego que às vezes se satisfaz com algumas manifestações positivas em relação ao meu trabalho. Mas, ao longo da vida, aprendi a policiar essa vaidade. É um sentimento que pode ser muito nocivo. Há pessoas que, em função da vaidade, se deixam engabelar. Não existe nada que deixe uma pessoa mais vulnerável do que a vaidade exacerbada. Isso derruba um sujeito. Ele sempre cai.

Veja – Seus amigos dizem que o senhor é uma pessoa muito caseira, que ajuda nos trabalhos domésticos e faz questão de passar as próprias camisas. É verdade?
General Cardoso
– É verdade. É um hábito muito antigo, que tenho desde o tempo em que era tenente. Hoje, transformou-se numa espécie de higiene mental. Não passo apenas as minhas camisas, minha roupa toda eu passo. Tiro o amassado da calça, dou uma ajeitada no colarinho. Faço isso depois do café da manhã, me toma dez minutinhos só. Enquanto estou ali passando, fico pensando no meu dia, como vai ser, o que tenho de fazer.

Veja – O senhor muitas vezes dá expedientes de catorze horas ou mais. Como faz para relaxar?

General Cardoso – Eu não sinto grande necessidade de relaxar. Poucas vezes, pouquíssimas mesmo, fico tenso ou estressado. Eu me permito dizer que sou homem que tem um bom autocontrole.

 
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