Ministro e médium
Um dos mais poderosos nomes do governo
FHC,
o general Cardoso conta como incorpora
espíritos e promove curas
Thaís Oyama
A logística militar, somada à doutrina espírita
e à farta leitura de filosofia oriental, forjou o
que é hoje o general Alberto Mendes Cardoso, 59 anos.
Ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional,
o general é homem de muitas atribuições:
comanda o serviço de informações, articula
a política de segurança pública, cuida
do combate ao narcotráfico, assessora o presidente
da República em assuntos militares e é responsável
por sua segurança pessoal. Não bastasse tudo
isso, até o mês passado visitava semanalmente
uma casa na cidade-satélite do Guará (no Distrito
Federal), onde, trajando roupas invariavelmente claras,
incorporava o espírito de um certo doutor Amaro.
Afirma-se, e ele não nega, que teria promovido a
cura de muitos doentes. Militar de carreira brilhante, abriu
mão da farda e dos galões para transformar-se
em um dos mais poderosos ministros do governo FHC um
ministro que crê em extraterrestres, considera a música
Imagine, de John Lennon, "um hino para a humanidade"
e faz questão de passar as próprias camisas.
A VEJA, ele falou sobre poder, vaidade, espíritos
e fé.
Veja Por mais de quarenta anos o senhor conviveu
em ambiente militar. A adaptação ao mundo
da política tem sido difícil?
General Alberto Cardoso Não, não
é difícil. Digo sempre aos meus subordinados
que existe uma receita para se sair bem aqui na Presidência
da República. A receita que eu dou é a seguinte:
sejam vocês mesmos, não mudem nada, sejam coerentes
com aquilo em que vocês acreditam. Isso eu digo e
pratico desde o primeiro minuto em que cheguei aqui até
hoje. Sempre fiz questão de ser eu mesmo. Mas também
tive de passar por algumas adaptações.
Veja Por exemplo?
General Cardoso Por exemplo: nós, militares,
temos uma hipersensibilidade na questão da honra.
Os sensores que acusam que nossa honra está sendo
atingida são muito extensos. Então, se eu
mantivesse essa hipersensibilidade num cargo como este aqui,
viveria me aborrecendo.
Veja O que o aborrecia antes e agora não
aborrece mais?
General Cardoso Ter minha competência questionada,
por exemplo. Porque, nessa hipersensibilidade, entendemos
como ponto de honra também o fato de os outros nos
considerarem competentes. Para nós, militares, a
avaliação da nossa competência é
muito importante. No início, quando me sentia atingido
nesse aspecto, eu respondia, contestava, me aborrecia. Chegou
um ponto em que eu pensei: "Meu Deus, eu vou morrer doente
do fígado". Então, para evitar esse permanente
desgaste íntimo, você tem de estabelecer uma
espécie de "núcleo duro" da sua honra, uma
parte de você que será sempre inatingível,
e, a partir daí, deixar para lá. Você
tem de endurecer o couro. Hoje, eu tenho o couro duro.
Veja E o que ainda o aborrece?
General Cardoso Pouca coisa. Pouca coisa mesmo.
Mas quer me ver disposto a reagir? Reagir com veemência?
Insinue que eu esteja mentindo. Isso está lá,
no núcleo duro.
Veja O senhor já declarou que a camaradagem
nas Forças Armadas é uma coisa que preza muito
e que a deslealdade o incomoda. Desde que o senhor entrou
para o governo, tem lidado muito com a deslealdade?
General Cardoso Não quis dizer com isso
que agora tenho mais exemplos de deslealdade do que tinha
antes. Disse que uma das coisas que eu mais estimo na profissão
militar é a camaradagem, que é um sentimento
muito mais forte que a amizade até. A camaradagem
é uma característica do ambiente militar,
é um compromisso de pessoas que comungam dos mesmos
valores. E camaradagem pressupõe lealdade. Mas também
nas Forças Armadas existem probleminhas de vez em
quando, como aqui. De fato, uma das coisas que mais me incomodam
é a deslealdade. Mas eu criei, talvez até
como mecanismo de defesa, uma sabedoria pessoal que me faz
detectar com mais rapidez as ameaças.
Veja Como é esse mecanismo?
General Cardoso De tanto lidar com as pessoas,
aprendi a detectar pelo olhar quem está mentindo.
Quando percebo que pode vir de lá uma deslealdade,
não assumo compromissos.
Veja Uma tática instintiva?
General Cardoso Eu diria intuitiva.
Veja Qual a sua crença, general?
General Cardoso Essa é uma questão
que pode até suscitar algumas reações...
Mas vamos lá: minha crença é essencialmente
kardecista, com algumas interpretações pessoais
que, em alguns momentos, fogem ao rigor do evangelho kardecista.
Basicamente, minha maneira de interpretar a vida passa por
dois pontos. Primeiro: há vida depois da morte física.
Segundo: depois da morte física, a energia vital
de cada pessoa se desprende dela. Desprende-se e leva junto
toda uma base de dados formada pelos conhecimentos e pelas
experiências que essa pessoa acumulou durante a vida.
Veja E essa energia vai para onde?
General Cardoso Ela se aproxima e se junta a
outras energias vitais que foram desprendidas por outras
pessoas. Normalmente, essas outras energias pertencem a
pessoas que foram seus amigos, seus parentes, pessoas com
as quais ela teve afinidades. Afinidades que, depois da
morte física, se tornam simpatias vibratórias.
Quando essas energias se juntam, formam espécies
de colônias de energia que podem influir no campo
físico.
Veja De que maneira?
General Cardoso Eu vejo a pessoa encarnada como
se fosse uma antena permanentemente bombardeada por intuições,
energias. Essas energias podem passar despercebidas ou ser
captadas, conforme você ajusta a sintonia do seu receptor.
E o seu receptor é a sua mente. Cabe a nós
estar alertas para ajudar essas energias a nos ajudar. Elas
estão por aí, querendo que nós evitemos
os erros que elas cometeram na vida encarnada.
Veja E são sempre positivas essas energias?
General Cardoso A preponderância de boas
ou más experiências que as pessoas tiveram
durante a vida é que vai definir se aquela colônia,
aquela soma de energias vitais agrupadas, é boa ou
má. Basicamente, minha filosofia consiste em sintonizar
as boas colônias e rejeitar as ruins.
Veja O senhor chegou a atuar como médium.
Depois que a atividade foi divulgada, o senhor a abandonou.
Sente falta dela?
General Cardoso A gente sempre sente falta das
atividades que nos dão prazer e, por algum motivo,
suspendemos. E realmente me agrada muito, por meio dessa
mediunidade que surgiu, ajudar as pessoas.
Veja E como é essa sua mediunidade,
que, segundo se diz, chegou a promover curas?
General Cardoso Não é mágica,
não é milagre, é um fenômeno
físico: uma concentração da energia
que uso intuitivamente e por meio da aplicação
de mãos nas pessoas. Várias delas se curam.
Essa atividade me dava muito prazer. Era um trabalho que
começava às 8 e meia da noite e varava a madrugada
ia até atendermos a última pessoa que
estava precisando. Às vezes, chegava em casa sabendo
que dali a poucas horas estaria começando a trabalhar
de novo. Mas é tão grande a satisfação
de ajudar as pessoas que nem cansaço você sente.
Veja Por que o senhor suspendeu a atividade?
General Cardoso Suspendi porque, depois que o
endereço da família que nos cedia a casa foi
divulgado, essa família perdeu totalmente a privacidade.
Ficaram marcados, coitados. Tiveram a casa cercada por curiosos
e foram obrigados a mudar o número do telefone.
Veja Como ministro de Estado, o senhor não
se preocupou com a própria imagem?
General Cardoso Com a minha própria imagem,
não. Mas, tendo em vista o meu cargo, preocupei-me
com a possibilidade de esse trabalho despertar uma certa
curiosidade, algum preconceito ou mesmo uma tendência
cínica de tratar o assunto jocosamente. Preocupei-me
com a possibilidade de trazer, digamos, um anedotário
para a Presidência da República.
Veja E como o presidente encara esse trabalho?
General Cardoso No meu primeiro dia aqui, eu
disse a ele: "Olhe, presidente, fazemos esses trabalhos,
eu sou espírita, há reuniões de cura...
Isso pode ser um ponto até de desqualificação
para o cargo". Ele respondeu: "Não, general, nada
disso". O presidente absolutamente não se incomoda,
não se choca. Isso é a minha missa semanal,
e eu vou reiniciar esse trabalho. Estou apenas à
procura de um novo lugar. Além de me dar satisfação,
há outra justificativa mais importante para isso
que é o fato de existirem pessoas que estão
procurando esse socorro. Elas vão lá na casa
antiga e batem com a cara na porta. Chegam com dor e saem
com dor.
Veja Quando foi que essa capacidade mediúnica
se manifestou?
General Cardoso Foi há muito tempo, em
1990, quando eu ainda era coronel aqui em Brasília.
Uma pessoa pediu que eu a acompanhasse a um centro espírita
e uma entidade manifestada num médium se aproximou.
Disse que eu tinha em torno de mim diversas entidades de
cura que estavam só esperando que eu me abrisse para
ajudá-las a praticar as curas. Procurei prestar atenção
em certas intuições que vinha tendo e vi que
aquele alerta tinha de ser seguido. Foi uma responsabilidade,
uma missão que se abriu para mim.
Veja O kardecismo era uma corrente forte na
Academia Militar em Resende, onde o senhor estudou, não?
General Cardoso Em Resende, de fato. Mas o kardecismo
prosperou muito no Exército como um todo. Na Academia
Militar havia um núcleo muito forte de professores
antigos, oficiais que se reuniam para estudos evangélicos
e mediúnicos. E de fato, como você mencionou,
houve uma influência grande do antigo general Alfredo
Moacir de Mendonça Uchôa, que era um professor
da Academia e que depois veio para Brasília, teve
contato com extraterrestres...
Veja O senhor acredita neles?
General Cardoso Extraterrestres são essas
energias todas que se deslocam instantaneamente, que têm
essas facilidades que nós ainda não temos.
Mas, continuando, por meio do filho do general Uchôa,
que é também um general e grande amigo meu,
eu ouvia essas histórias, relatos de alguns fenômenos
que aconteciam nas sessões mediúnicas, e passei
a me interessar pela doutrina. Mas eu me tornei kardecista
no casamento, muito tempo depois. Minha mulher, a Sônia,
sempre teve muito interesse em se fixar numa filosofia de
vida, numa religião. Ela acabou nos estimulando em
casa ao estudo do evangelho, do espiritismo e, aí,
a família acabou se tornando kardecista.
Veja O senhor sempre diz que não é
um homem poderoso, mas cheio de atribuições.
O senhor tem reservas em relação ao poder?
General Cardoso Meu raciocínio é
o seguinte: o eleitor, ao votar, delega poder a quem ele
elege. E quem é eleito pelo voto não pode
subdelegar esse poder pode subdelegar autoridade,
distribuir atribuições. Eu tenho muitas atribuições
e julgo que sou até meio doente nesse sentido: gosto
de ter aumentadas as minhas responsabilidades. Quando o
presidente me convidou para participar do governo, aceitei
porque considerei que talvez pudesse ampliar minha capacidade
de servir o país e também porque me sinto
muito bem com muitas responsabilidades.
Veja Mas quem tem muitas responsabilidades
usufrui das mesmas benesses de quem tem poder. Ganha notoriedade,
por exemplo, admiração...
General Cardoso A notoriedade me incomoda. Outro
dia, ia receber o presidente na base aérea e, como
houve um atraso, fui a uma livraria do aeroporto. Escolhi
um livro, comprei um sorvete e me sentei num banco com o
sorvete na mão. Chegou um senhor, bateu no meu ombro
e disse: "General, o senhor não me conhece, mas eu
o conheço. Vá em frente, general". Eu pensei:
"Ai, meu Deus do céu, acabou".
Veja Acabou o quê?
General Cardoso Acabou parte da minha privacidade!
Incomoda-me o fato de deixar de ser anônimo. Não
me sinto bem, está dentro de mim, não gosto.
Já o fato de ser respeitado me empresta talvez mais
credibilidade para influenciar e ajudar. Ajudar o governo,
a Presidência, o país.
Veja O senhor se considera imune à
vaidade?
General Cardoso Estaria mentindo se negasse que
tenho um ego que às vezes se satisfaz com algumas
manifestações positivas em relação
ao meu trabalho. Mas, ao longo da vida, aprendi a policiar
essa vaidade. É um sentimento que pode ser muito
nocivo. Há pessoas que, em função da
vaidade, se deixam engabelar. Não existe nada que
deixe uma pessoa mais vulnerável do que a vaidade
exacerbada. Isso derruba um sujeito. Ele sempre cai.
Veja Seus amigos dizem que o senhor é
uma pessoa muito caseira, que ajuda nos trabalhos domésticos
e faz questão de passar as próprias camisas.
É verdade?
General Cardoso É verdade. É um
hábito muito antigo, que tenho desde o tempo em que
era tenente. Hoje, transformou-se numa espécie de
higiene mental. Não passo apenas as minhas camisas,
minha roupa toda eu passo. Tiro o amassado da calça,
dou uma ajeitada no colarinho. Faço isso depois do
café da manhã, me toma dez minutinhos só.
Enquanto estou ali passando, fico pensando no meu dia, como
vai ser, o que tenho de fazer.
Veja O senhor muitas vezes dá expedientes
de catorze horas ou mais. Como faz para relaxar?
General Cardoso Eu não sinto grande
necessidade de relaxar. Poucas vezes, pouquíssimas
mesmo, fico tenso ou estressado. Eu me permito dizer que
sou homem que tem um bom autocontrole.
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