Edição 1 651 -31/5/2000

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De mal a menos mal

"Não falta inteligência aos analistas. Eles estão
infectados por um ódio ideológico ao governo
e por isso não se perguntam sequer se o que
imaginam resultar da cumplicidade entre ele
e o capital internacional é falso
ou verdadeiro"


Ilustração Ale Setti

O presidente Fernando Henrique, numa atitude rara entre presidentes, disse que o Brasil, na área social, vai de mal a menos mal. A sinceridade tem sido rara por aqui, entre presidentes e entre seus opositores. Outro dia vi na TV um seminário que reuniu importantes acadêmicos discutindo a sério se o colapso social do Brasil levará a um golpe de Estado ou a uma insurreição popular. Obviamente, nem a um nem a outra, simplesmente porque o país não está à beira do colapso social.

Não falta inteligência a esses analistas, nem são incapazes de ler e entender estatísticas sociais ou distinguir a impressão empirista do fenômeno real revelado pela boa análise. Estão infectados por um ódio ideológico ao governo e por isso não se perguntam sequer se o que imaginam resultar da cumplicidade entre ele e o capital internacional é falso ou verdadeiro. Não é o governo que está em questão, mas a apreensão adequada de nossos problemas para que possamos encaminhar soluções pertinentes. Que governo e oposição ofereçam soluções distintas é uma virtude da democracia, que dá aos cidadãos a possibilidade de escolher.

Dizer que vamos de mal a menos mal significa, primeiro, que a situação em que estamos não satisfaz, porque não é boa. Segundo, que ela tem melhorado. As duas afirmações são verdadeiras. Ainda temos desigualdades e pobreza demais. Mas a pobreza diminuiu 29% entre 1990 e 1998. O progresso da escolarização entre os mais jovens nos dá a esperança de que a desigualdade se reduza no futuro. O porcentual de crianças fora da escola declinou quase 80% nos últimos sete anos. Hoje, 4% das crianças estão nessa condição. E a taxa de analfabetismo caiu para 14%, chegando a 6% entre os jovens de 15 a 19 anos. É muito maior, 32%, para os que têm mais de 50 anos.

A desigualdade de renda, ao contrário, não tem melhorado, mas também não tem piorado. Ela é durável, pois tem raízes profundas, em nossa história escravista e machista. A melhoria na educação de 1º grau e a queda do analfabetismo entre jovens devem facilitar o acesso às oportunidades, e isso poderá levar a uma redução das desigualdades.

O Brasil incorporou à sociedade nacional os negros, os grupos resultantes da miscigenação e da imigração. Integração desigual, mas com direito a figurar na mesma estatística. A exceção são os 300.000 índios remanescentes, não integrados e contados à parte. Não alterariam as médias sociais. Nossas estatísticas dão mais transparência às desigualdades que as de muitos outros países. O México, por exemplo, deixa de fora grande parte de sua população indígena, que faz diferença. Na Etiópia, Amartya Sen mostrou que a má distribuição dos alimentos mata de fome centenas de milhares de pessoas, mesmo em época de fartura. A integração e a mobilidade ascendente no Brasil explicam por que o brasileiro parece mais tolerante com as desigualdades, a ponto de deixar alguns perplexos e outros escandalizados.

Políticas sociais atendem a necessidades sociais, não resolvem problemas sociais. Estes são, na maioria, problemas econômicos ou de múltiplas dimensões, como a desigualdade, que exige mudanças econômicas, culturais e políticas. A melhoria da educação aumenta as chances de redução da desigualdade. Mas todas as políticas têm de ser mais progressivas, os recursos, em todas as áreas, têm de ser alocados com base em uma avaliação de seu real impacto distributivo. As políticas governamentais no Brasil – sociais e não sociais – são na maioria regressivas, dão mais aos que têm mais. Beneficiam grupos do topo da pirâmide social em detrimento dos que têm menos ou nada têm. Temos os meios para fazer com que o Brasil vá de menos mal a melhor, nos anos 10 do novo século. Para isso, precisamos, em primeiro lugar, de um diagnóstico correto de nossa situação social. Em seguida, será preciso submeter toda ação estatal à prioridade distributiva, eliminando os privilégios para os mais ricos e as vantagens corporativistas, inclusive aquelas instituídas como se fossem para benefício do povo. Finalmente, o país precisará enfrentar a discriminação contra os negros e as mulheres.

 

Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)