Meu rico português

Mais de 6 bilhões de dólares lusitanos
desembarcaram no Brasil em 1998 e
os investimentos continuam a crescer

Franco Iacomini

 
 


A pouco mais de um ano das comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, os portugueses estão repetindo o feito histórico. Desta vez, em vez das caravelas, o que está atravessando o Atlântico são dólares. Os grandes grupos empresariais portugueses estão redescobrindo o Brasil. Só no ano passado, empresas de Portugal despejaram 6 bilhões de dólares no mercado brasileiro. Tornaram-se donas de redes de supermercados, bancos, fábricas de cimento e companhias telefônicas. Depois dos americanos e dos espanhóis, os portugueses foram os mais ávidos compradores de estatais brasileiras nos leilões de privatização.

Qual a origem do rico dinheiro português investido no Brasil? Desde 1986, quando entrou para a Comunidade Econômica Européia, Portugal transformou-se. O produto interno bruto, PIB, que corresponde à soma de todas as riquezas geradas no país, simplesmente triplicou. Em 1986, o PIB era de 33,8 bilhões de dólares e a renda per capita era pouco menor que a do Brasil. Hoje o PIB é de 100 bilhões de dólares, o que dá a cada habitante uma renda per capita de 10.500 dólares, o dobro da brasileira. Os investimentos estrangeiros também triplicaram e o desemprego, de 7%, é um dos menores da União Européia. Portugal vendeu empresas estatais, colocou as finanças nacionais em ordem e preparou-se para adotar a moeda européia única. O governo estabeleceu áreas em que o país poderia ser competitivo no mundo globalizado, e muitas empresas foram beneficiadas por fundos criados pela União Européia para modernizar setores econômicos atrasados. Portugal é hoje o maior fabricante mundial de peças plásticas para automóveis. A combinação de qualidade e preço torna seus produtos imbatíveis no mercado internacional.

Antes do eldorado da União Européia, Portugal era terra proibida para os investidores internacionais. Tinha um perfil mais parecido com suas antigas colônias africanas do que com as nações européias. Nos anos 70, o governo português estatizou bancos e indústrias. O país encolheu e mergulhou numa crise que só terminou na década seguinte, com a adesão aos tratados de livre comércio. Desde 1988, mais de 100 empresas foram privatizadas. Algumas, como a Portugal Telecom, estão sendo vendidas em várias etapas. Fenômeno semelhante aconteceu na Espanha, que, até se juntar ao clube europeu, era a própria imagem da instabilidade na política e na economia. "A União Européia significou uma garantia adicional para quem pensava em investir nesses países", afirma o economista-chefe do Banco Bilbao Vizcaya Brasil, Octavio de Barros. "Antes da União Européia, Portugal e Espanha recebiam dos investidores internacionais o mesmo tratamento que hoje recebem os países emergentes. Em bloco, tornaram-se mais sólidos."

A abertura econômica desempenhou em Portugal um papel semelhante ao que teve no Brasil mas os resultados foram mais consistentes. Livres da rigidez econômica dos anos 70, as empresas locais passaram a conviver com concorrentes de outros países europeus e aprenderam em pouco tempo a ser eficientes e produtivas. De um problema, o fato de que as empresas portuguesas não tinham mais para onde crescer na própria terra, surgiu a opção preferencial pelo Brasil. O país é pequeno e a população está estacionada na casa dos 10 milhões de pessoas praticamente a mesma da cidade de São Paulo. São poucos consumidores para companhias cada vez mais fortes. "Não restava outra saída para os empresários de Portugal senão crescer para além de suas fronteiras", explica Fernando Prado Ferreira, presidente da Câmara Portuguesa de Comércio no Brasil.

A expansão começou pelas antigas colônias da África e por Macau, um enclave português na costa da China. Na África, as guerras civis em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau impediram o crescimento projetado. As atenções dos portugueses se concentraram então nos vizinhos Espanha e Marrocos. Finalmente, o foco recaiu sobre o Brasil. Até então, as exportações portuguesas para o Brasil eram limitadas ao chamado "mercado da saudade", formado pelas famílias de imigrantes. Azeite, bacalhau e vinho lideravam as vendas. Hoje, Portugal exporta capital. Nos últimos quatro anos, as aquisições de grupos portugueses no Brasil somaram 11 bilhões de dólares. "Portugal está se voltando ainda mais para o exterior, e a prioridade número 1, a partir de agora, é o Brasil", diz o conselheiro comercial da embaixada portuguesa em Brasília, Jacinto Rego de Almeida.

O melhor exemplo da sede dos portugueses pelos negócios brasileiros é a Portugal Telecom. Antes de chegar ao Brasil, a empresa esgotou o circuito tradicional das companhias portuguesas que se aventuram no ultramar. Explora serviços de telecomunicação em todos os países africanos de língua portuguesa e participa de uma companhia telefônica em Macau. A expansão na África inclui ainda a exploração da telefonia celular em Botsuana, no sul do continente, a publicação de listas telefônicas em Uganda e no Quênia e a participação em uma concorrência no Marrocos. No ano passado, a Portugal Telecom arrematou por 3,6 bilhões de dólares a Telesp Celular e uma parcela da Telesp fixa. Foi o maior investimento já feito por uma empresa portuguesa no exterior.

Há três semanas, quando divulgou o balanço de 1998, a companhia anunciou que a nova aquisição respondia por 13% do faturamento do grupo. Em Portugal, a empresa administra 1,4 milhão de linhas celulares. No Estado de São Paulo, área de atuação da Telesp, há 1,8 milhão de linhas sob sua responsabilidade. A companhia é sócia na CRT, ex-estatal que atua no Rio Grande do Sul e opera 1,5 milhão de linhas de telefonia fixa. "Penso que em quatro anos o faturamento do Brasil poderá superar o da matriz", prevê José Roque de Pinho, presidente da Portugal Telecom do Brasil. Em Portugal, o aumento da receita acontece com a prestação de novos serviços a antigos clientes. No Brasil, há uma perspectiva imediata de aumento da clientela. A Electricidade de Portugal, EDP, é outra companhia que pretende dar um salto com suas operações brasileiras. No ano passado, ela comprou a Empresa Bandeirante de Energia e a Companhia de Eletricidade do Rio de Janeiro. Só a Bandeirante distribui um volume de energia que seria suficiente para abastecer 80% de todo o território português. A estimativa é de que, em alguns anos, a EDP consiga no Brasil uma receita três ou quatro vezes superior à de seu país de origem.

A maior parte dos investimentos feitos no Brasil vem das empresas portuguesas em processo de venda ou privatizadas recentemente. No primeiro caso estão a própria Portugal Telecom, cujo controle deve ser transferido à iniciativa privada neste ano, e a Caixa Geral de Depósitos, que comprou no ano passado o Banco Bandeirantes e detém 8% do capital votante do Banco Itaú. Entre as já privatizadas estão a EDP e a Cimentos de Portugal, que adquiriu recentemente as cimenteiras brasileiras Serrana e Cisafra. Um outro grupo de empresas dispostas a redescobrir o Brasil é formado por companhias de médio porte. Nesse segmento há empreendimentos de todos os tipos. A Porcelanas Vista Alegre comprou por 2 milhões de dólares a fábrica de louças da Renner, no Rio Grande do Sul. A Cervejaria Cintra também já está abastecendo os bebedores brasileiros com o produto de suas fábricas no interior paulista e no Rio de Janeiro. A Lusomar, criadora comercial de camarões na Bahia, também faz parte desses pequenos e notáveis grupos de investidores portugueses.

Os espanhóis também andam se lançando ao mar. As primeiras compras foram em países de língua espanhola, como Chile, México, Argentina e Peru. Nos últimos dois anos as empresas espanholas chegaram ao Brasil. Seus dois maiores bancos, Santander e Bilbao Vizcaya, já estão no país. A Telefónica de España, operadora de telefonia, comprou a maior fatia da Telesp fixa e já é uma das mais importantes do Brasil no setor. Costuma-se dizer que as afinidades de cultura e idioma facilitaram a chegada dessas empresas. Essa é apenas uma parte da verdade. "Na América Latina estão os melhores negócios disponíveis hoje em dia", diz Octavio de Barros. "Não importa a origem étnica ou cultural do investidor."

É curioso observar que, há cinco anos, a situação era outra. Os países ibéricos estavam saindo de uma recessão e a euforia européia ainda não tinha tomado conta da península. Muitas empresas brasileiras enxergaram nessa situação uma oportunidade de fincar o pé no apetitoso mercado da Europa unificada. Na maior parte das vezes o sonho foi abandonado ou adiado. O caso da perfumaria O Boticário revela mais ou menos o que se passou com outros empreendimentos brasileiros lá fora. A empresa foi para Portugal em 1986 e hoje tem 68 lojas. O crescimento foi estrondoso, mas não sem tropeços. Um exemplo: quando lançou sua campanha com o mote "O Boticário, natureza em frascos", a empresa estranhou a má recepção do consumidor português. Demorou algum tempo para os executivos brasileiros descobrirem o motivo. Para os portugueses, frasco é uma palavra da gíria para definir uma mulher feia. Em outros casos, foram problemas internos que afastaram os brasileiros de Portugal. A rede de supermercados Pão de Açúcar abriu mão de sua operação portuguesa no início desta década. O negócio era rentável, mas a mudança foi necessária para a reestruturação do grupo no Brasil. Os portugueses parecem estar mais bem preparados para a aventura além-mar.

O Sonae sobe no ranking

Foto: Antonio Milena

Hipermercado Cândia:
investida
portuguesa em SP

Um penetra está arrombando a porta do clube fechado das redes bilionárias de supermercados. Dois anos atrás, o grupo português Sonae era apenas o sócio minoritário da rede gaúcha Real. Em meados de 1997 assumiu o controle e a partir daí não parou mais de crescer. Em um ano e meio, os portugueses subiram da nona para a terceira colocação no ranking nacional. Desde o início de 1998, cinco concorrentes foram devorados pelo Sonae. Dois deles a Nacional Central de Distribuição, do Rio Grande do Sul, e os Supermercados Coletão, do Paraná foram comprados neste mês. A expectativa é de que a receita dos supermercados pertencentes ao Sonae alcance 3 bilhões de reais neste ano.

A história do avanço do Sonae no Brasil repete a de outras empresas portuguesas. Com uma possibilidade de crescimento limitada em seu país de origem, o grupo saiu em busca de bons negócios no exterior e resolveu concentrar-se por aqui. É fácil saber por quê. No ano passado, o Brasil foi responsável por 24% do lucro do gigante francês Carrefour, cuja atuação está espalhada por 22 países. Nos cinco anos de estabilidade proporcionados pelo Plano Real, vendia-se de tudo no Brasil e em quantidades até então inéditas. "Ninguém quer ficar fora de um mercado como esse", diz Marcelo Kayath, diretor de análise de varejo para a América Latina do banco de investimentos CSFB Garantia. Entre os estrangeiros que se instalaram recentemente no país estão o holandês Royal Ahold, sócio da rede pernambucana Bompreço, e os americanos da Wal-Mart, que preferiram abrir suas próprias lojas em vez de se associar a parceiros locais.

No caso do Sonae, à sedução brasileira se juntou o gosto por empreitadas ousadas de Belmiro de Azevedo, controlador da empresa. Azevedo é o maior empresário português. Sob seu comando desde 1985, o Sonae diversificou-se e transformou-se em uma das principais forças da economia lusitana. Azevedo buscou parcerias com grupos estrangeiros para melhorar o desempenho de suas empresas. No caso dos supermercados, o sócio escolhido foi o grupo francês Promodès. Hoje, seus negócios estão espalhados por setores como varejo de alimentos, eletrodomésticos, roupas e material de escritório, telefonia móvel, bancos e emissoras de televisão. No ano passado, uma pesquisa entre analistas de empresas publicada pela revista portuguesa Exame o escolheu como número 1 entre os administradores do país. No Brasil, Azevedo investe nos supermercados e em madeira. Em fevereiro, inaugurou no interior do Paraná a fábrica de derivados de madeira Tafisa.

No sul do Brasil, o Sonae já possui a maior rede de supermercados. Com exceção da compra dos quatro hipermercados paulistanos Cândia, no ano passado, todas as aquisições do grupo foram no Paraná e no Rio Grande do Sul. No Sul, os portugueses encontraram consumidores com bom poder aquisitivo em cidades onde a concorrência não era tão grande. "Entrar em São Paulo seria muito mais caro e os resultados talvez não fossem tão bons", avalia Daniela Bretthauer, analista de varejo do Banco Santander. Além da facilidade de abrir caminho em um mercado menor, os portugueses encontram no Brasil de hoje mais um aliado: a taxa de câmbio. "As empresas brasileiras estão muito baratas para o investidor estrangeiro. Com o mesmo orçamento do ano passado, hoje você pode fazer compras melhores", diz Daniela.

No caso dos Supermercados Coletão, o grupo Sonae não precisou nem negociar os valores. "O preço foi o mesmo que eu pedi no início das negociações, em dezembro", diz Edmundo Coleto, presidente da empresa. O valor não deve ser revelado pelo menos até a divulgação oficial do negócio, aguardada para os próximos trinta dias. Analistas estimam o preço em torno de 50 milhões de reais. Como em outras aquisições, o Sonae comprou a marca e o estoque do Coletão. Os imóveis continuam pertencendo ao antigo dono, que vai alugá-los ao grupo português. "Vou deixar o ramo de supermercados para ganhar a vida com imóveis", resume Coleto. "Dá menos dor de cabeça."






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