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Meu rico portuguêsMais de 6 bilhões de dólares
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Antes do eldorado da União Européia, Portugal era terra proibida para os investidores internacionais. Tinha um perfil mais parecido com suas antigas colônias africanas do que com as nações européias. Nos anos 70, o governo português estatizou bancos e indústrias. O país encolheu e mergulhou numa crise que só terminou na década seguinte, com a adesão aos tratados de livre comércio. Desde 1988, mais de 100 empresas foram privatizadas. Algumas, como a Portugal Telecom, estão sendo vendidas em várias etapas. Fenômeno semelhante aconteceu na Espanha, que, até se juntar ao clube europeu, era a própria imagem da instabilidade na política e na economia. "A União Européia significou uma garantia adicional para quem pensava em investir nesses países", afirma o economista-chefe do Banco Bilbao Vizcaya Brasil, Octavio de Barros. "Antes da União Européia, Portugal e Espanha recebiam dos investidores internacionais o mesmo tratamento que hoje recebem os países emergentes. Em bloco, tornaram-se mais sólidos." A abertura econômica desempenhou em Portugal um papel semelhante ao que teve no Brasil – mas os resultados foram mais consistentes. Livres da rigidez econômica dos anos 70, as empresas locais passaram a conviver com concorrentes de outros países europeus e aprenderam em pouco tempo a ser eficientes e produtivas. De um problema, o fato de que as empresas portuguesas não tinham mais para onde crescer na própria terra, surgiu a opção preferencial pelo Brasil. O país é pequeno e a população está estacionada na casa dos 10 milhões de pessoas – praticamente a mesma da cidade de São Paulo. São poucos consumidores para companhias cada vez mais fortes. "Não restava outra saída para os empresários de Portugal senão crescer para além de suas fronteiras", explica Fernando Prado Ferreira, presidente da Câmara Portuguesa de Comércio no Brasil. A expansão começou pelas antigas colônias da África e por Macau, um enclave português na costa da China. Na África, as guerras civis em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau impediram o crescimento projetado. As atenções dos portugueses se concentraram então nos vizinhos Espanha e Marrocos. Finalmente, o foco recaiu sobre o Brasil. Até então, as exportações portuguesas para o Brasil eram limitadas ao chamado "mercado da saudade", formado pelas famílias de imigrantes. Azeite, bacalhau e vinho lideravam as vendas. Hoje, Portugal exporta capital. Nos últimos quatro anos, as aquisições de grupos portugueses no Brasil somaram 11 bilhões de dólares. "Portugal está se voltando ainda mais para o exterior, e a prioridade número 1, a partir de agora, é o Brasil", diz o conselheiro comercial da embaixada portuguesa em Brasília, Jacinto Rego de Almeida. O melhor exemplo da sede dos portugueses pelos negócios brasileiros é a Portugal Telecom. Antes de chegar ao Brasil, a empresa esgotou o circuito tradicional das companhias portuguesas que se aventuram no ultramar. Explora serviços de telecomunicação em todos os países africanos de língua portuguesa e participa de uma companhia telefônica em Macau. A expansão na África inclui ainda a exploração da telefonia celular em Botsuana, no sul do continente, a publicação de listas telefônicas em Uganda e no Quênia e a participação em uma concorrência no Marrocos. No ano passado, a Portugal Telecom arrematou por 3,6 bilhões de dólares a Telesp Celular e uma parcela da Telesp fixa. Foi o maior investimento já feito por uma empresa portuguesa no exterior. Há três semanas, quando divulgou o balanço de 1998, a companhia anunciou que a nova aquisição respondia por 13% do faturamento do grupo. Em Portugal, a empresa administra 1,4 milhão de linhas celulares. No Estado de São Paulo, área de atuação da Telesp, há 1,8 milhão de linhas sob sua responsabilidade. A companhia é sócia na CRT, ex-estatal que atua no Rio Grande do Sul e opera 1,5 milhão de linhas de telefonia fixa. "Penso que em quatro anos o faturamento do Brasil poderá superar o da matriz", prevê José Roque de Pinho, presidente da Portugal Telecom do Brasil. Em Portugal, o aumento da receita acontece com a prestação de novos serviços a antigos clientes. No Brasil, há uma perspectiva imediata de aumento da clientela. A Electricidade de Portugal, EDP, é outra companhia que pretende dar um salto com suas operações brasileiras. No ano passado, ela comprou a Empresa Bandeirante de Energia e a Companhia de Eletricidade do Rio de Janeiro. Só a Bandeirante distribui um volume de energia que seria suficiente para abastecer 80% de todo o território português. A estimativa é de que, em alguns anos, a EDP consiga no Brasil uma receita três ou quatro vezes superior à de seu país de origem. A maior parte dos investimentos feitos no Brasil vem das empresas portuguesas em processo de venda ou privatizadas recentemente. No primeiro caso estão a própria Portugal Telecom, cujo controle deve ser transferido à iniciativa privada neste ano, e a Caixa Geral de Depósitos, que comprou no ano passado o Banco Bandeirantes e detém 8% do capital votante do Banco Itaú. Entre as já privatizadas estão a EDP e a Cimentos de Portugal, que adquiriu recentemente as cimenteiras brasileiras Serrana e Cisafra. Um outro grupo de empresas dispostas a redescobrir o Brasil é formado por companhias de médio porte. Nesse segmento há empreendimentos de todos os tipos. A Porcelanas Vista Alegre comprou por 2 milhões de dólares a fábrica de louças da Renner, no Rio Grande do Sul. A Cervejaria Cintra também já está abastecendo os bebedores brasileiros com o produto de suas fábricas no interior paulista e no Rio de Janeiro. A Lusomar, criadora comercial de camarões na Bahia, também faz parte desses pequenos e notáveis grupos de investidores portugueses. Os espanhóis também andam se lançando ao mar. As primeiras compras foram em países de língua espanhola, como Chile, México, Argentina e Peru. Nos últimos dois anos as empresas espanholas chegaram ao Brasil. Seus dois maiores bancos, Santander e Bilbao Vizcaya, já estão no país. A Telefónica de España, operadora de telefonia, comprou a maior fatia da Telesp fixa e já é uma das mais importantes do Brasil no setor. Costuma-se dizer que as afinidades de cultura e idioma facilitaram a chegada dessas empresas. Essa é apenas uma parte da verdade. "Na América Latina estão os melhores negócios disponíveis hoje em dia", diz Octavio de Barros. "Não importa a origem étnica ou cultural do investidor." É curioso observar que, há cinco anos, a situação era outra. Os países
ibéricos estavam saindo de uma recessão e a euforia européia ainda não
tinha tomado conta da península. Muitas empresas brasileiras enxergaram
nessa situação uma oportunidade de fincar o pé no apetitoso mercado da
Europa unificada. Na maior parte das vezes o sonho foi abandonado ou adiado.
O caso da perfumaria O Boticário revela mais ou menos o que se passou
com outros empreendimentos brasileiros lá fora. A empresa foi para Portugal
em 1986 e hoje tem 68 lojas. O crescimento foi estrondoso, mas não sem
tropeços. Um exemplo: quando lançou sua campanha com o mote "O Boticário,
natureza em frascos", a empresa estranhou a má recepção do consumidor
português. Demorou algum tempo para os executivos brasileiros descobrirem
o motivo. Para os portugueses, frasco é uma palavra da gíria para definir
uma mulher feia. Em outros casos, foram problemas internos que afastaram
os brasileiros de Portugal. A rede de supermercados Pão de Açúcar abriu
mão de sua operação portuguesa no início desta década. O negócio era rentável,
mas a mudança foi necessária para a reestruturação do grupo no Brasil.
Os portugueses parecem estar mais bem preparados para a aventura além-mar.
Um penetra está arrombando a porta do clube fechado das redes bilionárias de supermercados. Dois anos atrás, o grupo português Sonae era apenas o sócio minoritário da rede gaúcha Real. Em meados de 1997 assumiu o controle e a partir daí não parou mais de crescer. Em um ano e meio, os portugueses subiram da nona para a terceira colocação no ranking nacional. Desde o início de 1998, cinco concorrentes foram devorados pelo Sonae. Dois deles – a Nacional Central de Distribuição, do Rio Grande do Sul, e os Supermercados Coletão, do Paraná – foram comprados neste mês. A expectativa é de que a receita dos supermercados pertencentes ao Sonae alcance 3 bilhões de reais neste ano. A história do avanço do Sonae no Brasil repete a de outras empresas portuguesas. Com uma possibilidade de crescimento limitada em seu país de origem, o grupo saiu em busca de bons negócios no exterior e resolveu concentrar-se por aqui. É fácil saber por quê. No ano passado, o Brasil foi responsável por 24% do lucro do gigante francês Carrefour, cuja atuação está espalhada por 22 países. Nos cinco anos de estabilidade proporcionados pelo Plano Real, vendia-se de tudo no Brasil e em quantidades até então inéditas. "Ninguém quer ficar fora de um mercado como esse", diz Marcelo Kayath, diretor de análise de varejo para a América Latina do banco de investimentos CSFB Garantia. Entre os estrangeiros que se instalaram recentemente no país estão o holandês Royal Ahold, sócio da rede pernambucana Bompreço, e os americanos da Wal-Mart, que preferiram abrir suas próprias lojas em vez de se associar a parceiros locais. No caso do Sonae, à sedução brasileira se juntou o gosto por empreitadas ousadas de Belmiro de Azevedo, controlador da empresa. Azevedo é o maior empresário português. Sob seu comando desde 1985, o Sonae diversificou-se e transformou-se em uma das principais forças da economia lusitana. Azevedo buscou parcerias com grupos estrangeiros para melhorar o desempenho de suas empresas. No caso dos supermercados, o sócio escolhido foi o grupo francês Promodès. Hoje, seus negócios estão espalhados por setores como varejo de alimentos, eletrodomésticos, roupas e material de escritório, telefonia móvel, bancos e emissoras de televisão. No ano passado, uma pesquisa entre analistas de empresas publicada pela revista portuguesa Exame o escolheu como número 1 entre os administradores do país. No Brasil, Azevedo investe nos supermercados e em madeira. Em fevereiro, inaugurou no interior do Paraná a fábrica de derivados de madeira Tafisa.
No caso dos Supermercados Coletão, o grupo Sonae não precisou nem negociar os valores. "O preço foi o mesmo que eu pedi no início das negociações, em dezembro", diz Edmundo Coleto, presidente da empresa. O valor não deve ser revelado pelo menos até a divulgação oficial do negócio, aguardada para os próximos trinta dias. Analistas estimam o preço em torno de 50 milhões de reais. Como em outras aquisições, o Sonae comprou a marca e o estoque do Coletão. Os imóveis continuam pertencendo ao antigo dono, que vai alugá-los ao grupo português. "Vou deixar o ramo de supermercados para ganhar a vida com imóveis", resume Coleto. "Dá menos dor de cabeça."
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