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Família do barulhoNeto e filho de aventureiros,
Bertrand
Para o suíço Bertrand Piccard a aventura é mais do que uma opção pessoal. Trata-se quase de uma fatalidade genética. Depois que seu avô Auguste Piccard se tornou o primeiro ser humano a passear na estratosfera em 1931, e seu pai, Jacques, o pioneiro a mergulhar nas profundezas do oceano em 1960, só restava a Bertrand abraçar o mundo. Foi o que ele fez. Em companhia do inglês Brian Jones, Piccard embarcou na gôndola pressurizada de um balão de hélio na Suíça no dia 1º de março. Vinte dias e 46.000 quilômetros depois a dupla pousou com a nave de 55 metros de altura no deserto do Egito. Haviam completado uma façanha perseguida com tenacidade por um punhado de concorrentes nas últimas duas décadas: dar a volta ao mundo em balão. A dificuldade dessa proeza está no fato de, apesar de todas as tecnologias disponíveis, o balão depender sempre do vento e das condições atmosféricas para cumprir sua rota. Antes de Jones e Piccard, dezesseis tentativas fracassaram desde 1981. "Estou no meio dos anjos e completamente feliz", disse Piccard na manhã de sábado, quando o balão cruzou a linha de chegada, sobre o território da Mauritânia. Bertrand Piccard, um psiquiatra de 41 anos, casado e pai de três filhas, era a pessoa certa para realizar a que é considerada a última grande aventura aeronáutica do século. Ele nasceu e foi educado na aventura. Aos 10 anos foi levado pelo pai a Cabo Canaveral, a base de lançamento dos vôos espaciais dos Estados Unidos. Aos 16 era campeão de acrobacias aéreas com paraglider. Aos 20 descobriu os vôos de balão. "O desconhecido é uma das coisas mais fascinantes da vida", filosofa, referindo-se às rotas erráticas dos balões. "Em minha experiência de balonista e em meus estudos de médico aprendi que a aventura é aceitar o desconhecido." Estratosfera – O avô de Bertrand, Auguste Piccard, era um professor de física com mania de inventor. Em 1931, junto com o irmão gêmeo Jean, Auguste construiu uma gôndola blindada, que podia conservar as condições de pressão atmosférica mesmo quando elevada a grandes altitudes. Foi a primeira cabine pressurizada do mundo. Pendurou-a num balão e subiu até superar os 15000 metros, atingindo pela primeira vez a estratosfera terrestre. "A estratosfera será a superavenida do transporte intercontinental do futuro", especulou. Embora seu neto tenha alcançado altitudes mais elevadas em sua viagem de balão ao redor do mundo, os jatos comerciais costumam voar a 10 000 metros, dentro da atmosfera. Mas usam cabines pressurizadas, aproveitando o invento de Auguste. Seu filho Jacques, o pai de Bertrand, anos mais tarde iria aplicar os conhecimentos do velho Auguste na construção de outra máquina reforçada para suportar altas pressões. Era o batiscafo, um submarino capaz de descer a grandes profundidades. Com o Trieste, seu submarino, Jacques mergulhou 10.900 metros nas Fossas Marianas, no Pacífico, na zona mais profunda do planeta. Estudiosos da Universidade de Minnesota que mais perto chegaram de estabelecer a influência da genética no comportamento humano deram atenção à questão. O pesquisador David Lykken, cujo objeto de estudo são gêmeos idênticos separados no berço e criados em famílias diferentes, sugere que o espírito de aventura é um traço influenciado mais pelo ambiente em que a pessoa se cria do que pela genética. "A herança nesse caso parece ser menos preponderante do que o ambiente doméstico", disse Lykken. Ele encontrou a mesma correlação entre ganhadores do Prêmio Nobel cujos pais também foram agraciados com a honraria. Não é só entre os Piccard que o gosto pela exploração do desconhecido e o pioneirismo são transmitidos de pai para filho. Em janeiro deste ano, o neozelandês Peter Hillary realizou uma façanha ao percorrer de esqui 1.400 quilômetros através da superfície gelada da Antártica até atingir o Pólo Sul. Peter é o filho mais velho de Edmund Hillary, o primeiro homem a escalar os 8 848 metros do Monte Everest, o ponto mais alto da superfície terrestre, em 1953. O explorador inglês Percy Fawcett também transmitiu o vírus da aventura
ao filho. Disposto a encontrar uma cidade encantada de uma civilização
perdida no interior da Floresta Amazônica, Fawcett embrenhou-se no mato
com o filho Jack e um amigo. Levou o filho convencido por um pajé que
dizia que ele seria aprisionado pelos índios e libertado pelo filho. Os
Fawcett jamais voltaram de sua expedição e nunca mais foram vistos. O
caso mais recente de espírito de aventura geneticamente transmitido é
o da família Cousteau. O velho Jacques Cousteau, morto há quase dois anos,
levou para suas aventuras oceânicas os dois filhos, Philippe e Jean-Michel.
Philippe, seu maior colaborador, morreu em um acidente com um hidroavião
no Rio Tejo em 1979. Jean-Michel seguiu os passos do pai, tornou-se produtor
dos filmes das expedições da família, mas acabou entrando em conflito
com o Cousteau original. Em vez de ecologia, Jean-Michel visava mais ao
lucro financeiro e despertou a ira do velho ao usar o nome da família
para batizar um empreendimento turístico nas Ilhas Fiji.
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