Fim da fumaça

A era do petróleo pode acabar
antes que as reservas do
combustível se esgotem

A virada do milênio é uma época propícia para previsões. Uma delas tem ganho cada vez mais adeptos: a de que, finalmente, o petróleo vai acabar. Vai mesmo? Matematicamente, é inevitável, uma vez que a demanda é ilimitada, enquanto as reservas são finitas. Os fatos, por enquanto, apontam na direção contrária. Na segunda-feira passada, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, Opep, decidiu mais uma vez reduzir a produção mundial para forçar a alta do barril (veja quadro), cujo preço chegara a valores pré-crise do petróleo no começo dos anos 70. Ou seja, o mercado está sinalizando que o petróleo é abundante. Numa outra frente, a alemã Daimler Chrysler, em parceria com a empresa canadense Ballard, anunciou no dia 17 o lançamento do Necar 4, um carro totalmente movido a hidrogênio líquido que libera como resíduo água, pura água. Para provar, os promotores do carro a beberam. Esses eventos mostram que, pelo menos teoricamente, a era do petróleo pode acabar antes que as reservas do combustível fóssil se esgotem.

Pela primeira vez, os técnicos garantem que resolveram todas as questões de engenharia envolvidas num carro elétrico. "O desafio agora é reduzir o preço", afirma o diretor de desenvolvimento da Daimler Chrysler, Ferdinand Panik. No mercado hoje, o Necar 4 custaria 30.000 dólares. Uma pilha colocada sob os bancos recebe hidrogênio líquido de um lado e ar do outro. A célula energética faz com que o oxigênio do ar interaja com os átomos de hidrogênio gerando uma corrente elétrica para o funcionamento do motor. O carro é totalmente silencioso, não tem as trepidações comuns à aceleração e é classificado como zero de poluição. Outra novidade em relação a suas três versões anteriores é a autonomia de 450 quilômetros.

Metade já foi "O Necar 4 é um marco da revolução que vem por aí", diz Panik. Todas as grandes montadoras do mundo estão desenvolvendo carros com formas alternativas de combustível ao petróleo, para ser lançados nos próximos cinco anos. A GM já vende seu EV-1, um automóvel totalmente elétrico, na Califórnia e no Arizona. No fim do ano passado a Toyota lançou o Prius, um carro híbrido que alterna o uso de dois motores, um movido a gasolina e outro a eletricidade. Essa corrida por combustíveis não poluentes e de fontes renováveis preocupa a indústria energética. Mike Bowlin, presidente da companhia americana de petróleo Arco, afirmou recentemente que o mundo está entrando "nos últimos dias da era do petróleo. A demanda global por energia limpa vai crescer mais rápido do que todas as outras demandas por energia, incluindo petróleo e carvão".

O petróleo responde hoje por 40% da demanda mundial de energia, bem à frente do segundo colocado, o gás natural, com 23%. Apesar dos usos variados, foi por meio do automóvel que o petróleo ajudou a moldar o perfil da economia mundial neste século. Apenas nesta década, apesar de todos os esforços em contrário, o consumo de petróleo, em todo o mundo, cresceu 14%. A demanda aumentou mais nos países em crescimento. No Brasil, por exemplo, a elevação foi de 25%; na China, 60%. Essas explosões fazem tremer os que temem pelo término das reservas. Estima-se que já tenham sido extraídos 800 bilhões de barris e que ainda reste pouco mais de 1 trilhão de barris a ser explorados, ou seja, quase metade da disponibilidade já foi usada. Mantendo-se os níveis atuais de consumo, os geólogos calculam que os estoques terminem em oitenta anos. Por essa razão é que a corrida por energia limpa está se acelerando.

Foguetes De todas as possibilidades já imaginadas e testadas, a fonte alternativa de energia com mais chances de substituir a gasolina é o hidrogênio. A fonte é inesgotável: ele é o elemento químico mais simples e mais abundante na natureza. Também produz muita energia, quase três vezes mais do que a gasolina ou o gás natural. Tanta energia, no entanto, foi um dos desafios que a tecnologia precisou vencer para conseguir armazená-lo com segurança. A solução de torná-lo líquido trouxe outra dificuldade, só vencida com muita pesquisa (o hidrogênio se liquefaz a 253 graus Celsius negativos). Atualmente, o hidrogênio já é usado para movimentar foguetes e ônibus espaciais. "Estamos vivendo uma época de transição energética, e o hidrogênio terá um papel dominante no próximo século", diz o americano Seth Dunn, do Instituto Worldwatch, especialista no estudo de sistemas de energia.


A escassez artificial

Preocupados com a queda constante no preço do produto, os onze membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e quatro outros exportadores reeditaram a política de gerar escassez para levantar a cotação do petróleo. Num acordo assinado em Viena, na semana passada, os países se comprometem a reduzir a produção mundial em 3%, o equivalente a 2,1 milhões de barris por dia, até abril do ano que vem. "Vários chefes de Estado participaram diretamente das negociações por telefone", afirmou Ali Naimi, ministro do Petróleo da Arábia Saudita. Entre os articuladores do pacto estavam o príncipe saudita Abdullah e o presidente iraniano Mohammed Khatami.

O acordo é uma reação ao preço, que atingiu o nível mais baixo em dezembro do ano passado, quando o barril estava cotado a 10 dólares. A decisão já trouxe resultados. Nos últimos meses, apenas diante da perspectiva do acordo, a cotação pulou para 15 dólares na Bolsa de Mercadorias de Nova York. A expectativa da Opep é chegar a 18 dólares. Agora, o maior desafio da organização, que responde por 40% da produção mundial, é fazer cumprir o que está no papel. Várias tentativas anteriores foram frustradas por alguns países-membros que cederam à tentação e ultrapassaram as cotas de exportação. Analistas internacionais acreditam que, se a adesão chegar a 75%, o preço do petróleo vai subir mais.




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