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Luis
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IGUAIS? A beleza em dobro das gêmeas do nado sincronizado: a genética não desfaz todos os mistérios |
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| • Trecho: A Longa Marcha dos Grilos Canibais |
Ph.D. em biologia, executivo de sucesso, curioso incorrigível, o paulista Fernando Reinach publicou em livro uma coletânea de seus artigos semanais que apareceram nas páginas de O Estado de S. Paulo entre 2004 e 2009. São 120 textos curtos escritos com método, clareza de propósito e uma insuperável capacidade de simplificar as complexidades das pesquisas acadêmicas. A Longa Marcha dos Grilos Canibais (Companhia das Letras; 400 páginas) é uma explosão cambriana na diversidade dos temas abordados os hábitos sexuais de homens e ratos; a origem do gosto estético; por que envelhecemos; as uvas viníferas; e o aquecimento global.
Difícil encontrar em português livro de popularização da ciência que se equipare em eficiência ao de Reinach. Impossível encontrar outro que aguce tanto a curiosidade do leitor leigo pelos fatos naturais relatados de forma hermética e impenetrável nos trabalhos científicos publicados pelas revistas especializadas, em cujas páginas o autor busca a matéria-prima de seus artigos.
Seu método é um achado em si mesmo. Reinach recebe regularmente as mais conceituadas revistas científicas do mundo Science, Nature, Proceedings of the National Academy of Sciences, entre dezenas de outros títulos. Seleciona aquilo que incendeia sua curiosidade e empenha sua bagagem acadêmica e capacidade de expressão no vernáculo na tradução do jargão profissional dos cientistas em um texto altamente legível. O documento científico sobre o qual Reinach vai escrever é encarado por ele como uma terra estranha a ser descrita por um viajante observador, teoricamente aparelhado e com distanciamento suficiente para não se deixar iludir por falsos encantos. Explica Reinach: "O formato de cada texto tenta mimetizar o formato dos trabalhos científicos. Primeiro descreve o local de onde a expedição partiu e o que imaginamos que sabemos sobre o assunto. À expedição propriamente dita, experimento a experimento, segue-se a descrição do que foi observado. Por fim o texto fecha com um parágrafo no qual me permito dar vazão à imaginação e especular sobre o significado do que descobrimos durante a aventura".
A seguir um exemplo do método a serviço de destrinchar um capítulo ardente da eterna questão científica sobre o real poder dos genes na definição das características comportamentais humanas. O artigo científico original tem como epígrafe "O desligamento do receptor alfa para o estrógeno mediado pelo RNAi no núcleo do hipotálamo anula os comportamentos sexuais femininos". No livro de Reinach ele passa a se chamar "O gene da libido feminina". Abaixo do título vem uma belíssima e atraen-te aula de genética e de lógica. Nela o leitor aprende que o fato de os cientistas terem efetivamente conseguido suprimir a libido em fêmeas de camundongo de laboratório com o "desligamento" de um único gene não permite tirar conclusões mais amplas sobre a dependência genética da sexualidade humana ou mesmo animal. O autor mostra que com certeza aquele gene está envolvido no processo, mas "isso não o qualifica ao título de gene da libido humana". A convicção lógica vem pela analogia de que a supressão de determinado gene envolvido na formação das pernas pode produzir um indivíduo sem os membros inferiores, mas ainda assim seria uma falácia qualificar aquela porção de DNA de "gene do andar".
Ainda no campo da sexualidade e dos genes, Reinach traduz do cientifiquês os resultados de uma pesquisa publicada originalmente na revista especializada Biology Letters com um título até animador: "Influências genéticas nas variações da função orgástica em fêmeas: um estudo de gêmeas". No livro vira "Comparando gêmeas". Bem melhor. Mas a tradução para o vernáculo, por ser absolutamente fiel aos resultados da pesquisa, deixa de mexer com a imaginação da maneira que o assunto prometia. Sim, elas tendem a gostar da mesma coisa do mesmo jeito. Mas só tendem. Explica o autor: "Confundir influência genética com determinismo genético é um erro".
Nosso privilegiado leitor de ma-nuais científicos direciona sua expedição para assuntos que estão todos os dias no noticiário. O planeta está ficando mais quente? Isso se deve ao excesso de carbono livre na atmosfera? A atividade industrial humana é totalmente responsável por esses eventos e suas potencialmente trágicas circunstâncias? Todas essas perguntas são criteriosamente respondidas no livro. Imperdíveis também são as instruções de Reinach sobre como cada um pode escolher um trecho de Floresta Amazônica e, com a ajuda do Google Earth, vigiar periodicamente sua integridade via internet, denunciando queimadas e desmatamentos. Ah, e os grilos canibais? Bem, é melhor não ficar no caminho deles em especial se seu organismo for rico em sal e proteínas.
Patrícia Santos/AE![]() |
| O OLHAR DO VIAJANTE Reinach se interna nos textos científicos mais herméticos e arranca surpresas das linhas e entrelinhas |