J. R. Guzzo
Mundo-cão
"O
prefeito Rubens Furlan, do PMDB, foi à Justiça para impedir
que
o CQC exibisse sua reportagem. O que incomodava
o prefeito era que o público
ficasse sabendo da história"
Muito
se deplora em nosso país a dificuldade que "o brasileiro" tem
para fazer doações em favor do bem comum. A observação
se refere, naturalmente, aos cidadãos que dispõem de dinheiro suficiente
para doar alguma coisa que valha a pena; se esses dão pouco ou nada, imagine-se
então os que mal conseguem cuidar de si próprios. Os críticos
dessa triste atitude nacional tornam-se particularmente severos quando nos comparam
com os Estados Unidos. Ali sim, lembram eles, o povo tem razão de sentir
orgulho de seus milionários; vivem dando fortunas a museus, universidades,
bibliotecas e outras obras de grande mérito. Já aqui, ao contrário,
o que se tem é três vezes nada. É o retrato perfeito daquilo
que consideram a selvageria do brasileiro rico inculto, egoísta,
insensível, primitivo e incapaz de entender o conceito de espírito
público. É também, segundo ouvimos com frequência,
um dos motivos pelos quais este país não vai para a frente.
O
que se ouve muito mais raramente, nessa história toda, é a extraordinária
dificuldade de ordem prática que existe no Brasil para fazer alguma doação
por intermédio do poder público e como é baixa a probabilidade
de a população receber aquilo que alguém tenta lhe dar quando
entre ela e o bem doado existe uma repartição do governo. Há
exceções, é claro. Recentemente, empreiteiras de obras públicas
e empresas fornecedoras do governo federal não tiveram nenhum trabalho
em contribuir com diversos milhões de reais para o filme Lula, o Filho
do Brasil, com o presidente da República no papel de herói
obra considerada por seus realizadores como um esforço em prol da cultura
brasileira. Mas em geral não é assim. Em geral a combinação
entre a trabalheira para doar e a inutilidade final da doação, já
que o beneficiário raramente acaba vendo a cor do benefício, desanima
o mais insistente dos homens de boa vontade. É a razão pela qual,
quando decidem ajudar alguma causa, tratam de fazer isso por sua própria
conta, e tomando o cuidado de passar o mais longe possível de qualquer
gabinete oficial.
Uma contribuição impecável
para o entendimento dessas realidades, e outras mais, acaba de ser oferecida ao
público pelo programa Custe o que Custar, da Rede Bandeirantes,
que na semana passada levou ao ar uma reportagem mostrando, do começo ao
fim, o que aconteceu com um televisor com tela de LCD doado pela emissora à
prefeitura de Barueri, nas vizinhanças de São Paulo. Foi o mais
perfeito desastre, como é regra em doações feitas ao governo
mas, nesse caso, um desastre comprovado passo a passo, com imagens filmadas,
declarações gravadas e todas as provas materiais com as quais um
promotor público poderia sonhar ao oferecer uma denúncia. O televisor
foi doado para utilização na rede escolar do município, no
último mês de dezembro; na ocasião, o secretário municipal
da Educação garantiu que seria imediatamente encaminhado a uma das
escolas sob a sua responsabilidade. O que realmente aconteceu, ao fim e ao cabo,
é que o aparelho passou praticamente esse tempo todo, de dezembro até
meados de março, na casa de uma funcionária municipal.
Revelados os fatos, o prefeito Rubens Furlan, do PMDB, poderia ter dito, como
até veio a dizer, que não tem meios de controlar os atos de cada
um dos 10 000 funcionários do município e que iria tomar as
providências devidas. Em vez disso, foi à Justiça para impedir
que o CQC exibisse sua reportagem o que conseguiu por alguns dias.
Ou seja: o que realmente incomodava o prefeito não era o fato de terem
passado a mão no televisor da escola debaixo do nariz do secretário
da Educação, de quem aliás é irmão, e sim que
o público ficasse sabendo da história. Além disso, foi ao
ar com uma penosa descarga de insultos, grosserias e acusações ao
programa, empregando o que antigamente se chamava palavreado "de carroceiro"
e que hoje parece fazer parte da linguagem corrente no paço municipal de
Barueri. O prefeito quis parecer indignado e valente; acabou sendo apenas cômico.
Sempre se pode dizer, quanto a essa história: "Barueri? Grande coisa".
Mas é uma grande coisa, sim. Na verdade, é uma das maiores coisas
que há por aí: o mundo-cão em que vivem tantos dos quase
6 000 municípios brasileiros, e do qual Barueri é uma amostra
sem retoques. É, também, mais uma oportunidade para ver por que
tanta gente, pelos quatro cantos da vida pública, sonha com o "controle
social" sobre os meios de comunicação.
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