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• Televisão: The Pacific, a minissériePerfilO médico mais poderoso da RepúblicaEle
é Roberto Kalil, o cardiologista cujo rol de pacientes inclui
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Alexandre Schneider![]() |
| COM OS PÉS
NO CHÃO Kalil, em seu consultório de 200 metros quadrados: "Minha força e influência vêm de muito trabalho. Quem trabalha sobe na vida. Não existe essa de médico com sorte" |
Havia três anos o cirurgião Fabio Jatene, filho do ex-ministro da Saúde Adib Jatene, não tirava férias. A viagem para os Estados Unidos com a mulher e os três filhos adolescentes fora ansiosa e minuciosamente planejada durante quatro meses. O embarque estava previsto para a noite de 9 de setembro de 1998. A família já se encontrava no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, quando o celular de Jatene tocou. Era o cardiologista Roberto Kalil Filho pedindo que o cirurgião operasse um de seus pacientes um homem de quase 40 anos, em estado gravíssimo, vítima de um aneurisma na aorta. Com a cordialidade e a tranquilidade que lhe são peculiares, Jatene começou a argumentar, dizendo que estava saindo de férias com a família etc., quando foi interrompido por Kalil:
Você pode até tentar embarcar, mas não vai conseguir. Volte já.
Obviamente, se quisesse, o cirurgião teria ido para os Estados Unidos com a família. Mas ele não foi. "Fico absolutamente constrangido em negar um pedido de um médico tão devotado como Kalil", diz Jatene, sobre o amigo dos tempos de início de carreira, nos anos 80. "Ele está sempre trabalhando e só pensa em seus pacientes." Kalil não só adiou a viagem de Jatene como já o tirou do cinema uma dezena de vezes sempre com o mesmo pedido em favor de um paciente.
A obstinação, a inflexibilidade e a assertividade de Kalil transformaram-no em um profissional reverenciado pelos colegas (muitas vezes, até temido) e respeitado pelos pacientes (frequentemente, adorado). é hoje, aos 50 anos, tido como o médico mais poderoso da República. É ele quem cuida da saúde do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da primeira-dama, Marisa Letícia. Nas eleições presidenciais, em outubro próximo, tem vitória garantida. Ele é o médico tanto da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, como do governador José Serra. Sem contar o vice-presidente José Alencar, os senadores José Sarney, Romeu Tuma e José Agripino, uma penca de deputados e outra de artistas, como Roberto Carlos, Gilberto Gil e Wanessa Camargo. "No meu consultório, não existe partido político, ala da esquerda ou da direita. Trato o paciente, jamais o cargo", diz Kalil. Isso é o máximo que se ouvirá dele sobre seus pacientes ou seja, nada. Já os pacientes não economizam elogios. Para Serra, além de competente e discreto, "é um grande amigo". Para José Alencar, foram a bravura e a teimosia de Kalil que lhe salvaram a vida em 2005 um ano antes do aparecimento do câncer contra o qual o vice-presidente luta até hoje. Durante um check-up de rotina, Kalil notou alterações no fluxo sanguíneo e pediu um cateterismo. Como Alencar se recusava a fazer o exame, Kalil disparou:
Aqui quem manda sou eu. O senhor só sai do hospital depois de fazer o cateterismo.
Por meio do exame, descobriu-se que Alencar estava com uma obstrução grave e ele foi submetido imediatamente à implantação de um stent.
Formado em 1985 pela Universidade de Santo Amaro (Unisa), doutor e professor livre-docente pela Universidade de São Paulo (USP) e com curso de especialização na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, Kalil ocupa hoje a direção do centro de cardiologia do Hospital Sírio-Libanês, uma das instituições de referência no tratamento e pesquisa de doenças do coração no Brasil e no mundo. Ao circular pelos corredores do hospital, ele parece ter muito mais do que seu 1,67 metro de altura. Se algo não é feito a seu contento, Kalil não titubeia em chamar a atenção do responsável, onde quer que esteja, com ou sem plateia. Por isso, muita gente desvia o olhar ao cruzar com ele. No consultório de 200 metros qua-drados, quatro salas, uma assistente, uma nutricionista e quatro secretárias (todas elas jovens, bonitas, magras e impecavelmente uniformizadas), ele mantém o mesmo rigor. Kalil é daquele tipo que não admite ser contrariado nem pelo presidente da República. Ele e Lula foram apresentados, em 1991, pelo advogado Roberto Teixeira, seu paciente e amigão do peito do ex-metalúrgico. Desde então, eles estabeleceram uma relação de muito respeito. Em várias ocasiões, no entanto, médico e presidente, ambos teimosos, travam uma queda de braço.
Foi o que aconteceu em janeiro passado, no episódio da crise de hipertensão que impediu Lula de ir a Davos, na Suíça. Por telefone, do Recife, o presidente avisou que não se submeteria a uma segunda batelada de exames, conforme havia pedido Kalil. O médico ficou furioso com a insubordinação presidencial. Na manhã seguinte, sem pregar os olhos durante a noite, lá estava Kalil em Congonhas, à espera de Lula, no pé da escada do avião presidencial. "Não vou", anunciou o presidente. O médico resolveu apelar para a "dona": ligou para a primeira-dama e, dois dias depois, Lula foi examinado. "Muita gente pode até achar que Kalil é neurótico e perfeccionista", diz Miguel Srougi, um dos urologistas mais respeitados do país e amigo antigo do cardiologista. "Mas são tais qualidades que fazem o bom médico." O stress já rendeu a Kalil uma gastrite, um colesterol em 296 (quando o ideal é, no máximo, 200) e uma sinusite crônica, cujos medicamentos levaram a um quadro de osteoporose precoce.
A política está presente na vida de Kalil desde a juventude. Seu pai, Roberto Kalil, hoje com 76 anos, sempre foi um exímio cavaleiro, o que lhe rendeu o título de campeão brasileiro de salto nos anos 70. Influenciado pelo pai, o então futuro médico fez equitação na infância e na adolescência. Abandonou-a por causa da medicina. Devido ao esporte, ele conviveu com os militares nas hípicas de São Paulo e de Brasília. Um dos amigos mais próximos da família era João Figueiredo, presidente entre 1979 e 1985. Kalil não esquece uma visita específica de Figueiredo e sua mulher, Dulce, à casa de seus pais. Os mais velhos tomaram chá e conversaram durante toda a tarde. Antes de ir embora, Figueiredo virou-se para o jovem Beco, como Kalil é chamado até hoje pelos familiares e amigos mais próximos, e disse: "Daqui a alguns anos, Beco, sua casa será invadida por barraquinhas vermelhas". No dia seguinte, 28 de agosto de 1979, o então presidente concedeu anistia aos presos políticos do regime militar. "Eu tive a sensação de fazer parte dos bastidores da política brasileira", lembra Kalil. "E isso me deixou fascinado."
Fotos álbum de família![]() |
| ORGULHO Aos 26 anos, recebendo o diploma de medicina, em São Paulo, e, à direita, aos 13, participando de uma competição pela Federação Paulista de Hipismo, no Parque da Água Branca |
Atualmente, o cardiologista não assiste aos conchavos
políticos apenas como espectador. Um amigo seu contou a VEJA que sua opinião,
por exemplo, foi decisiva para a nomeação do ministro da Saúde,
José Gomes Temporão. Em janeiro de 2007, o presidente Lula convidou
Kalil para passar um dia com ele e Marisa no Guarujá, no litoral paulista.
Enquanto os dois comiam pipoca e tomavam água de coco, o médico
pediu a opinião de Lula sobre Temporão, mas o presidente evitava
o assunto. No fim da tarde, no momento em que Kalil estava indo embora, o presidente
o puxou pelo braço e lhe disse ao pé do ouvido: "Você
vem aqui, come minha pipoca, mas quer mesmo é nomear o Temporão".
Kalil respondeu: "Não nomeio ninguém. Quem nomeia é
só o senhor, presidente". Em março de 2007, Temporão
assumiu o ministério. Hoje, sempre que seu nome aparece no noticiário,
Kalil recebe um telefonema de Dulce, a viúva de João Figueiredo:
"Beco, largue dessa esquerda vermelha". O cardiologista ri e responde:
"Não é bem assim, dona Dulce. Não é bem assim".
Kalil nunca quis seguir outra profissão. O caminho da cardiologia lhe foi indicado por Fúlvio Pileggi, um dos nomes mais relevantes do Instituto do Coração (Incor). "Kalil é extremamente competente. Mas a razão principal de seu sucesso profissional é a total dedicação à profissão", define Pileggi. A obstinação é marca registrada de Kalil desde a infância. De família de classe média, os pais tinham dificuldade para manter os dois filhos no Colégio Dante Alighieri, um dos mais tradicionais de São Paulo. É desse período o gosto por cachorro-quente. "Meus amigos todos compravam o sanduíche no recreio, mas, como eu não tinha dinheiro, era obrigado a comer o pão com manteiga que trazia de casa", conta. Atualmente, ele come cachorro-quente, no mínimo, três vezes por semana.
O cardiologista está no segundo casamento. Sua mulher, a endocrinologista Cláudia Cozer, mora numa casa e ele em outra um amplo apartamento no bairro dos Jardins, área nobre paulistana. Kalil se esforça bastante para agradar à mulher. Demonstra sempre muita atenção e cordialidade. Mas tudo tem limite. Há um mês, Cláudia conseguiu arrastá-lo para assistir ao musical Hairspray. No fim do primeiro ato, ele se virou para ela e disparou: "Já foi o suficiente, não é?". E o casal foi embora. A endocrinologista conhece muito bem o cardiologista que mora em seu coração. "Para ele, a profissão está em primeiro lugar. Eu não pretendo nem jamais conseguiria mudá-lo." Só há duas mulheres capazes de fazer Kalil diminuir o ritmo. São as filhas Ra-faella, de 17 anos, e Isabella, de 14, frutos do primeiro casamento. A elas, o médico dedica as manhãs de domingo, para vê-las saltar na Hípica de Santo Amaro. Por elas, ele tira uma semana de férias por ano, geralmente no Natal, sempre no exterior. Rafaella nem pensa em fazer medicina "Eu quero ter vida", explica. Já Isabella, para o orgulho do pai, quer ser cardiologista.
Durante a semana, Kalil acorda às 7 da manhã, toma um achocolatado de caixinha e vai para o Sírio-Libanês, onde mantém uma média de trinta pacientes internados metade é vítima de doenças do coração, e a outra metade tem os mais diversos problemas, sobretudo câncer. Aqui, um parêntese: o corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês conta com 3 500 médicos. Kalil, sozinho, responde por 10% do total de leitos. Por volta da 1 e meia da tarde, vai para o consultório, do outro lado da rua. Toma mais uma caixinha de achocolatado, almoça um bife com uma colher de arroz e manda entrar o primeiro paciente. Perto das 10 e meia da noite, volta para o hospital, onde faz a última rodada de visitas. Só chega em casa entre meia-noite e 1 hora da manhã. Janta ou cachorro-quente ou bife com purê de batata. Esperando por ele sempre estão Marie e Sofia, duas gatas siamesas, presentes de Fabio Jatene.
No vaivém do hospital para o consultório, e vice-versa, Kalil atravessa a rua correndo, driblando um carro e outro. Na quarta-feira passada, o cardiologista escapou mais uma vez de ser atropelado. E, como não poderia deixar de ser em se tratando de Kalil, ele não ousa cruzar a rua fora da faixa de pedestres. Irritadíssimo, esbravejando contra a falta de respeito dos motoristas, telefonou para o secretário de Relações Governamentais da prefeitura, Antonio Carlos Malufe, e pediu um sinal de trânsito naquele ponto:
Esse problema será solucionado o mais rápido possível.
Kalil não pede. Kalil manda.
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| NAS ALTURAS O médico entre o governador de São Paulo, José Serra, e o presidente Lula, em 2008, durante a inauguração do centro de cardiologia do qual é diretor. À esquerda, entre as filhas Rafaella e Isabella em seu aniversário de 50 ano |