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Home  »  Revistas  »  Edição 2158 / 31 de março de 2010


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Livros

Um lugar desalentador

No romance Além da Escuridão, a vida após a morte
não é serena: é meio suja e cheia de gente mesquinha


Jerônimo Teixeira

Rex Features
EM PRIMEIRA MÃO
A inglesa Hilary Mantel: enredo inspirado por visita a uma vidente


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Você já viu isto antes: um espírito desgarrado atormenta os heróis. Estes, inicialmente céticos, acabam convencidos da existência dos fantasmas após algumas aparições assustadoras. O passo seguinte é investigar o passado do morto e resolver as pendências que ele carregou para o outro mundo. Na conclusão, a pobre alma, liberada de suas penas, encaminha-se para um além luminoso. Essas ficções, digamos, espiritualistas são sempre confortadoras: pregam que nunca é tarde para reparar a injustiça e encontrar a paz. Na contramão desse clichê, Além da Escuridão (tradução de Maria D. Alexandre; Bertrand Brasil; 420 páginas; 45 reais), romance de humor negro da inglesa Hilary Mantel, apresenta uma visão desalentadora do outro mundo: um lugar meio sujo, povoado por criaturas feias e mesquinhas ou, na melhor das hipóteses, por velhotas compassivas mas confusas, mais preocupadas com o botão perdido de um casaco (sim, os espíritos têm roupas, ou pelo menos a ilusão de vesti-las) do que com os problemas que deixaram.

Hilary, de 57 anos, é uma escritora versátil. Faz ficção inspirada em sua experiência direta – Oito Meses na Rua Gaza, baseado no período em que viveu na Arábia Saudita – e em eventos históricos, como no artificioso A Sombra da Guilhotina, sobre a Revolução Francesa, e Wolf Hall (ainda sem tradução aqui), vencedor do prêmio Man Booker, sobre Thomas Cromwell, ministro do rei Henrique VIII. Em uma entrevista ao jornal The Observer, a autora disse que começou a escrever Além da Escuridão depois de visitar uma vidente e impressionar-se com sua descrição de um amigo morto. A heroína do romance é uma médium – Alison, uma mulher inculta mas sensível, atormentada e morbidamente obesa. Isento de proselitismo, o livro não pede que o leitor acredite em reencarnação ou fantasmas. A parafernália mística está ali para servir a uma boa história, que Hilary desenvolve com habilidade e ironia.

No passado, Alison teve uma traumática convivência com os clientes da mãe prostituta – uma trupe de marginais violentos e vulgares que, já mortos, ressurgem diante da médium como aparições grotescas e um tanto cômicas. Colette, a secretária de Alison, é o polo oposto da patroa: pragmática, sempre de olho no melhor negócio, ela até acredita em espíritos, mas é insensível ao mundo imaterial. Com os préstimos dessa auxiliar, Alison faz apresentações mediúnicas no lucrativo circuito dos auditórios de localidades suburbanas, perdidas em uma faixa cinza entre Londres e a zona rural, que configuram a geografia física e espiritual do livro: os habitantes desses subúrbios sem estilo e sem passado buscam nos shows de Alison uma porta para a memória e a tradição que a paisagem lhes roubou. (É pena que as descrições impressionistas de Hilary e a fluidez de seus diálogos saiam prejudicadas por uma tradução dura, eivada de erros factuais.) Alison nunca fala ao público dos demônios que a perseguem nem dos aspectos sombrios do além, que ela apresenta como um lugar sereno e belo. Essa é a ironia fundamental do livro: ela é uma médium genuína, com comunicação permanente com o mundo dos mortos. E mesmo assim ganha a vida, em grande parte, enganando os clientes. Ninguém deseja saber como a morte realmente é.

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