Ideias
A edição é o livro
Fotos Michael Probst/AP e John Macdougall/AFP
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DEPURAÇÃO
Juergen Boos, diretor da Feira de Frankfurt: com a internet,
a filtragem feita
pelas editoras é essencial |
Chega às lojas dos Estados Unidos no próximo dia
3 de abril o iPad, o aguardado tablet da Apple, a combinação de
notebook com leitor digital (e-reader). Esse aparelho, assim como outros
do gênero, tenta ser uma opção à relação
secular mantida pelo homem com os livros impressos desde a invenção
da prensa de tipos móveis pelo alemão Johannes Gutenberg, no século
XV. Com a proliferação dos livros eletrônicos, o processo
de impressão física está em via de extinção?
Para discutir o impacto das novas tecnologias no setor, a Câmara Brasileira
do Livro, em parceria com a Imprensa Oficial, convidou especialistas no assunto
para participar do 1º Congresso Internacional do Livro Digital, que ocorrerá
em São Paulo de 29 a 31 de março. Um dos palestrantes é
Juergen Boos, diretor da Feira de Frankfurt, o maior e o mais importante evento
do mercado mundial de livros. Na semana passada, dias antes de sua visita ao
Brasil, Boos falou ao repórter Luís Guilherme Barrucho.
O IMPACTO DOS E-READERS
O mercado de livros já passou por uma série de mudanças
na história. O tempo em que elas ocorrem, entretanto, tem sido cada vez
menor. Essas transformações sempre impuseram novos desafios ao
setor, mas recentemente se tornaram mais visíveis, porque nos obrigam
a encontrar maneiras de oferecer ao leitor os mais diversos conteúdos.
Com os dispositivos eletrônicos móveis e compactos, temos a oportunidade
de atrair um novo tipo de leitor. Existe uma complementaridade entre entretenimento
e educação. A proposta dos livros digitais é, dessa maneira,
diferente da dos livros físicos, que devem continuar a existir. Acredito
que, daqui para a frente, haverá maior quantidade de conteúdo
sendo utilizada em meios diferentes, tanto físicos quanto eletrônicos.
Teremos outras plataformas para a leitura que não se restrinjam à
forma impressa.
Paul Sakuma/AP
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NOVO GUTENBERG
Steve Jobs, da Apple, com o iPad:
fusão de notebook com leitor digital
chega às lojas em 3 de abril |
AS NOVAS LIVRARIAS
Há duas maneiras de garantir a sobrevivência das livrarias. A primeira
é que elas não se limitem ao comércio de livros. É
preciso transformar o espaço de venda em um centro de entretenimento
com múltiplas ações de marketing. Nesses locais, seriam
vendidos produtos relacionados ao autor, por exemplo. A segunda é que
elas devem migrar seus negócios para a área digital, procurando
oferecer serviços de alta qualidade. Qualidade é algo que ainda
falta na internet. Na Amazon, por exemplo, os leitores podem postar comentários
sobre os livros que compraram. Antes de qualquer coisa, entretanto, é
preciso entender os assuntos de que eles mais gostam, direcioná-los para
o que querem comprar e tornar essa experiência mais fácil e rápida.
Uma das maneiras de assegurar essa qualidade é por meio das editoras
e das livrarias. Quanto mais formas de acesso ao conteúdo, maior a necessidade
de ter instâncias que filtrem esse material e assegurem ao leitor a qualidade
do que está sendo produzido. Esse já é o papel atual das
editoras e continuará sendo por muito tempo.
RELAÇÃO COM OS AUTORES
O conceito de autoria já não é mais o mesmo. Antigamente,
somente literatos ou jornalistas podiam emitir opiniões sobre os acontecimentos
mais marcantes da sociedade. Hoje, todos podem se manifestar com facilidade
inédita, graças à internet. Esse processo tem sido liderado
pelos mais jovens, que já nasceram na era digital. Acredito que muitos
desses escritores "virtuais" formarão a nova safra de autores.
Caberá às editoras identificar esses talentos. Não será
surpreendente ver, com muito mais assiduidade, autores que iniciaram sua atividade
na internet. Mas isso não prescinde de um forte exercício de editoração.
Haverá mais autores, muitos deles amadores, que necessitarão de
uma atenção especial das editoras. É preciso assegurar
a confiabilidade daquilo que se lê. Por outro lado, temos visto casos
em que grandes nomes dispensam a intermediação das editoras na
venda de seus livros digitais. Paulo Coelho é um exemplo. O autor brasileiro
negociou recentemente um contrato com a Amazon, sem interferência da editora
da versão física de seus livros. Mas ainda é um caso raro.
Não tenho certeza de que isso será uma tendência. Mesmo
que esse tipo de relacionamento comercial vingue, acredito que somente será
popular entre aqueles de maior vendagem.
"Cada vez mais, veremos escritores que surgem na internet.
Mas isso não prescinde de um forte exercício de editoração.
É preciso assegurar a confiabilidade daquilo que se lê" |
PERENIDADE DOS LIVROS
Não acredito na morte dos livros em papel. Simplesmente porque o ato
da leitura não é o mesmo, quando feito em leitores digitais. Ler
um livro em papel requer uma habilidade especial. A começar porque se
leva, pelo menos, meia hora para entender minimamente um contexto. Além
disso, há uma forte conexão física entre o leitor e o livro.
Essa relação se altera no mundo virtual. Na internet, é
comum que se bus-quem informações bre-ves, para ser absorvidas
num menor tempo possível. Essa falta de profundidade não se deve
apenas ao tipo de plataforma em questão, mas também ao tipo de
conteúdo produzido para esse fim. Há alguns fatores que, na minha
opinião, permitem uma imersão mais profunda na leitura em papel.
O primeiro deles é o próprio hábito. Em segundo lugar,
a leitura significa mais do que simplesmente obter informação;
representa a essência da alfabetização em seu significado
amplo. Ou seja, a possibilidade de não apenas ler as palavras impressas
no papel, mas entender o contexto, aprofundar-se nele, refletir e formar uma
opinião. Os livros impressos exigem mais, intelectualmente, dos leitores.
O PAPEL DAS FEIRAS
As feiras de livros vão continuar a existir, mas de um jeito diferente.
Elas serão mais parecidas a festivais, tais como os grandes concertos
de música, e terão grande potencial de crescimento. O contato
entre autores, editoras e público continua sendo vital. Os leitores querem
conhecer os autores de perto. Por isso, não imagino que teremos feiras
virtuais.
O BRASIL EM FRANKFURT
A cada ano, temos um país como nosso convidado de honra em Frankfurt.
Na feira deste ano, em outubro, será a Argentina. O país foi escolhido,
entre outros motivos, pela imigração europeia. Nossa intenção
também foi pôr em destaque a língua espanhola e a cultura
hispânica. O Brasil foi homenageado em 1994 e deve voltar a sê-lo
em 2013. Mas isso ainda está em negociação e esperamos
selar o contrato nas próximas semanas.
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