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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Dicionário
de política
(período
Lula)
"Radicais",
"fogo amigo", "herança maldita":
retrato do governo pelas expressões que o caracterizam
Agenda
positiva
Estoque de programas de apelo popular de que o governo costuma lançar
mão sempre que se vê acuado, na esperança de
contrabalançar as notícias negativas e os diagnósticos
de paralisia administrativa com simulações de movimento
e reafirmações da resolução de fazer
o bem. Tal estratégia, amplamente utilizada, com o mesmo
nome, pelo governo anterior, foi absorvida, como herança
bendita, pelo atual (veja herança maldita). A experiência
revela que as agendas positivas costumam levar a resultados opostos
ao pretendido. Robespierre quis salvar a Revolução
Francesa com a agenda positiva da radicalização das
reformas e acabou por incluir o próprio pescoço na
agenda da guilhotina. Gorbachev quis salvar o regime soviético
com a agenda positiva da perestroika e acabou por precipitar tanto
o regime quanto a própria pessoa na agenda do lixo da história.
O problema das agendas positivas é que nunca conseguem ser
maiores do que o tamanho do buraco que pretendem tampar.
Aparelhamento
Ato de infiltrar em ministérios, repartições
ou empresas estatais militantes de um partido, membros de uma classe
social, paladinos de uma causa ou defensores de determinado interesse
econômico, com o propósito de colocar o Estado a serviço
das conveniências respectivas. O PT, segundo a oposição,
estaria aparelhando o Estado, com o fim último de converter
suas diferentes instâncias aos interesses partidários.
Conhecendo-se a índole nacional, porém, o que arrisca
acontecer é, inversamente, os interesses partidários
dissolverem-se em favor do salário, das vantagens e das prebendas
inerentes a um bom cargo público.
Espetáculo
do crescimento Célebre trecho de discurso em que
o presidente Lula anunciou, em junho de 2003, e já para o
semestre seguinte, a arrancada rumo à prosperidade econômica.
Raras vezes um presidente terá oferecido mote tão
propício às ironias da oposição. As
diversas paródias variaram desde o espetáculo do crescimento...
"do desemprego", "dos impostos" ou "dos preços" até
a observação do senador Bornhausen de que o que ocorreu,
na verdade, foi o "crescimento do espetáculo".
Fogo
amigo Ataque disparado por engano contra as próprias
fileiras. A origem da expressão é militar e, ao que
tudo indica, americana. Desde pelo menos a Guerra do Vietnã
até a do Iraque serviu para apelidar os erros de cálculo
que resultam em bombardeios sobre alvos equivocadamente identificados
como inimigos. No plano do governo, qualifica disparos como o do
ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, contra o do Planejamento,
Guido Mantega ("Vagabundo!"), ou o do presidente do aliado Partido
Liberal, Valdemar da Costa Neto, contra o ministro Antonio Palocci
("Tem de trocar por alguém que tenha competência").
Na verdade, tal qual é aplicada ao governo, a expressão
é imprópria. É da essência do "fogo amigo"
que seja disparado por engano. Não é o caso do "fogo
amigo" em questão. O adjetivo "amigo", aqui, só é
admissível no sentido do antigo bordão do comediante
Jô Soares: "muy amigo..."
Fome
Zero Nome do programa com o qual o governo pretendia
combater a carência nutricional da população.
Nos primeiros meses, encarnou o caso, típico de uma era de
intoxicação pela publicidade, do triunfo de um slogan
sobre a realidade. Se havia o programa Fome Zero era porque a fome
estava sendo combatida. Até se ensaiou a exportação
do programa, apregoado como exemplo para o mundo. De uns meses para
cá, inversamente, assiste-se ao caso de uma realidade que
sufoca o slogan. Cada vez menos se fala de "fome zero". A expressão
caminha para o desuso. E isso não porque a fome tenha sido
zerada.
Herança
maldita Palavras a que diversos porta-vozes do governo
se acostumaram a recorrer para atribuir suas dificuldades aos equívocos
do governo anterior. "Herança maldita", assim como "pacto
sinistro" ou "intriga diabólica", faz parte de uma família
de expressões com bons serviços prestados a filmes
e romances populares, daí sua força. A rigor, todo
governante brasileiro teria razões para queixar-se do antecessor.
O segundo governador-geral, Duarte da Costa, certamente não
recebeu do primeiro, Tomé de Sousa, a herança de seus
sonhos. Quando concorrer ao governo da Suécia, aí
sim o PT terá razões para supor que será aquinhoado
com bendita herança.
Radicais
Rótulo pespegado aos parlamentares e militantes
que, invocando antigas bandeiras do partido, se opõem às
políticas adotadas desde a ascensão ao poder. Alguns
acabaram expulsos do partido. O incômodo causado pelos radicais
ao governo lembra famosa máxima de Joaquim Nabuco: "A fatalidade
das revoluções é que sem os exaltados é
impossível fazê-las e com eles é impossível
governar". Já o incômodo causado pelo governo aos radicais
lembra a máxima do visconde de Albuquerque, outro político
do Império: "Nada mais parecido a um saquarema (conservador)
do que um luzia (liberal) no poder".
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