Edição 1847 . 31 de março de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Dicionário de política
(período Lula)

"Radicais", "fogo amigo", "herança maldita":
retrato do governo pelas expressões que o caracterizam

Agenda positiva – Estoque de programas de apelo popular de que o governo costuma lançar mão sempre que se vê acuado, na esperança de contrabalançar as notícias negativas e os diagnósticos de paralisia administrativa com simulações de movimento e reafirmações da resolução de fazer o bem. Tal estratégia, amplamente utilizada, com o mesmo nome, pelo governo anterior, foi absorvida, como herança bendita, pelo atual (veja herança maldita). A experiência revela que as agendas positivas costumam levar a resultados opostos ao pretendido. Robespierre quis salvar a Revolução Francesa com a agenda positiva da radicalização das reformas e acabou por incluir o próprio pescoço na agenda da guilhotina. Gorbachev quis salvar o regime soviético com a agenda positiva da perestroika e acabou por precipitar tanto o regime quanto a própria pessoa na agenda do lixo da história. O problema das agendas positivas é que nunca conseguem ser maiores do que o tamanho do buraco que pretendem tampar.

Aparelhamento – Ato de infiltrar em ministérios, repartições ou empresas estatais militantes de um partido, membros de uma classe social, paladinos de uma causa ou defensores de determinado interesse econômico, com o propósito de colocar o Estado a serviço das conveniências respectivas. O PT, segundo a oposição, estaria aparelhando o Estado, com o fim último de converter suas diferentes instâncias aos interesses partidários. Conhecendo-se a índole nacional, porém, o que arrisca acontecer é, inversamente, os interesses partidários dissolverem-se em favor do salário, das vantagens e das prebendas inerentes a um bom cargo público.

Espetáculo do crescimento – Célebre trecho de discurso em que o presidente Lula anunciou, em junho de 2003, e já para o semestre seguinte, a arrancada rumo à prosperidade econômica. Raras vezes um presidente terá oferecido mote tão propício às ironias da oposição. As diversas paródias variaram desde o espetáculo do crescimento... "do desemprego", "dos impostos" ou "dos preços" até a observação do senador Bornhausen de que o que ocorreu, na verdade, foi o "crescimento do espetáculo".

Fogo amigo – Ataque disparado por engano contra as próprias fileiras. A origem da expressão é militar e, ao que tudo indica, americana. Desde pelo menos a Guerra do Vietnã até a do Iraque serviu para apelidar os erros de cálculo que resultam em bombardeios sobre alvos equivocadamente identificados como inimigos. No plano do governo, qualifica disparos como o do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, contra o do Planejamento, Guido Mantega ("Vagabundo!"), ou o do presidente do aliado Partido Liberal, Valdemar da Costa Neto, contra o ministro Antonio Palocci ("Tem de trocar por alguém que tenha competência"). Na verdade, tal qual é aplicada ao governo, a expressão é imprópria. É da essência do "fogo amigo" que seja disparado por engano. Não é o caso do "fogo amigo" em questão. O adjetivo "amigo", aqui, só é admissível no sentido do antigo bordão do comediante Jô Soares: "muy amigo..."

Fome Zero – Nome do programa com o qual o governo pretendia combater a carência nutricional da população. Nos primeiros meses, encarnou o caso, típico de uma era de intoxicação pela publicidade, do triunfo de um slogan sobre a realidade. Se havia o programa Fome Zero era porque a fome estava sendo combatida. Até se ensaiou a exportação do programa, apregoado como exemplo para o mundo. De uns meses para cá, inversamente, assiste-se ao caso de uma realidade que sufoca o slogan. Cada vez menos se fala de "fome zero". A expressão caminha para o desuso. E isso não porque a fome tenha sido zerada.

Herança maldita – Palavras a que diversos porta-vozes do governo se acostumaram a recorrer para atribuir suas dificuldades aos equívocos do governo anterior. "Herança maldita", assim como "pacto sinistro" ou "intriga diabólica", faz parte de uma família de expressões com bons serviços prestados a filmes e romances populares, daí sua força. A rigor, todo governante brasileiro teria razões para queixar-se do antecessor. O segundo governador-geral, Duarte da Costa, certamente não recebeu do primeiro, Tomé de Sousa, a herança de seus sonhos. Quando concorrer ao governo da Suécia, aí sim o PT terá razões para supor que será aquinhoado com bendita herança.

Radicais – Rótulo pespegado aos parlamentares e militantes que, invocando antigas bandeiras do partido, se opõem às políticas adotadas desde a ascensão ao poder. Alguns acabaram expulsos do partido. O incômodo causado pelos radicais ao governo lembra famosa máxima de Joaquim Nabuco: "A fatalidade das revoluções é que sem os exaltados é impossível fazê-las e com eles é impossível governar". Já o incômodo causado pelo governo aos radicais lembra a máxima do visconde de Albuquerque, outro político do Império: "Nada mais parecido a um saquarema (conservador) do que um luzia (liberal) no poder".

 
 
 
 
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