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Cinema
Um
elefante na sala de estar
Gus
Van Sant aborda o enigma dos massacres realizados por estudantes
nos Estados Unidos

Carlos
Graieb
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| O
personagem Alex: Beethoven, armas pelo correio e ressentimento |
Ao
longo dos anos 90, os Estados Unidos assistiram a vários
episódios semelhantes: adolescentes de classe média,
até então considerados "normais", entraram armados
em suas escolas e assassinaram colegas e professores. Recentemente,
esse fenômeno foi abordado em dois filmes de grande repercussão.
Um deles foi Tiros em Columbine, diatribe do polêmico
documentarista Michael Moore contra a obsessão americana
por armas de fogo. O outro é a ficção Elefante
(EUA, 2003), um filme inquietante do diretor Gus Van Sant,
que recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2003 e estréia
nesta sexta-feira no Brasil.
A
narrativa de Elefante engloba umas poucas horas de uma manhã
qualquer. Alunos e funcionários de uma escola seguem sua
rotina até que dois estudantes, Eric e Alex, dão início
à matança que arquitetaram cuidadosamente. O filme
oferece um vislumbre da intimidade dos assassinos. Sabemos que eles
assistem a programas sobre Hitler na televisão, que treinam
a pontaria em jogos de computador, que compraram um rifle automático
pelo correio. Eric não tem brilho. Alex toca Beethoven ao
piano como um virtuose e conhece Shakespeare de cor. É um
garoto talentoso, mas ressentido, por julgar que não recebe
do mundo o que lhe é devido. Elefante não transforma
esses fragmentos de informação sobre os atiradores
numa explicação cabal para o seu crime, tampouco os
rejeita como elementos de uma explicação possível.
O filme simplesmente não se estrutura de maneira a demonstrar
uma tese ou provocar emoções fortes de empatia ou
repulsa em relação aos seus personagens. Ele abre
mão de procedimentos dramáticos de edição
e narrativa, drena a violência de qualquer impacto gráfico,
suspende juízos, e apenas observa. É desse distanciamento
que nasce o seu poder de inquietar.
Elefante
compõe-se de longas seqüências sem cortes,
nas quais os personagens perambulam pela escola. Seguimos o jovem
carismático, o atleta arrogante, a menina feia, as patricinhas.
A certa altura, somos levados a identificar o ponto de vista da
câmera, que acompanha os estudantes pelas costas, com o ponto
de vista de um jogador de videogames de combate. De modo geral,
porém, o que essas caminhadas transmitem é uma sensação
de ensimesmamento, quase de sonambulismo. Elefante é
um desses casos em que a forma de filmar revela, por si só,
uma idéia: a auto-absorção dos jovens
por arrogância, narcisismo, tristeza, ou simples alheamento
parece estar no centro da crítica e das preocupações
de Gus Van Sant.
Nada
no filme esclarece o título Elefante. Em entrevistas,
o diretor disse ter prestado uma homenagem ao cineasta inglês
Alan Clarke (1935-1990), que fez um trabalho homônimo sobre
a violência religiosa na Irlanda. O filme de Clarke remetia
à expressão idiomática "um elefante na sala
de estar", que designa coisas incômodas, que as pessoas tentam
ignorar. A idéia vale para o filme de Van Sant. Ele aponta
para o elefante a crueldade juvenil , mas não
tenta tornar sua existência menos enigmática.
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