Edição 1847 . 31 de março de 2004

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Televisão
A dona da história

Com a novela Metamorphoses,
exibida pela Record, Arlette
Siaretta abre espaço na televisão


Ricardo Valladares


Fotos divulgação
A personagem da atriz Vanessa Lóes, depois de uma operação plástica, e os malfeitores da máfia japonesa (à dir.): trama mirabolante e imagens gravadas em equipamento de última geração

Metamorphoses, da Rede Record, é uma novela na corda bamba. Há quinze dias no ar, ela mantém 6 pontos de audiência média, o que não é ruim para os padrões de sua emissora. Ao mesmo tempo, há quem aposte que o folhetim vai ser extinto bem antes de alcançar os 140 capítulos programados. Alguns méritos e defeitos da novela estão à vista do espectador. Ela é gravada com equipamento digital de última geração, o que lhe dá uma qualidade de imagem que faz lembrar a dos filmes. Seu elenco possui atores tarimbados como Paulo Betti, Gianfrancesco Guarnieri e Joanna Fomm. O enredo de Metamorphoses é mirabolante: inclui a máfia japonesa, transplantes faciais, amnésia, luta livre e cirurgias plásticas realizadas ao vivo. Esse aglomerado de bobagens talvez acabe espantando o público, mas não é necessariamente uma desvantagem: Metamorphoses pode emplacar como trash – o lixo cultural que satisfaz. Nos bastidores, contudo, as confusões se multiplicam. Desde que o roteiro começou a ser escrito, a equipe de autores já mudou três vezes. Alguns atores, insatisfeitos com o texto, ameaçam se rebelar. Para completar, o contrato da diretora Tizuka Yamazaki, que vence nesta semana, pode não ser renovado. Tudo isso põe em risco a existência da novela. Em meio a esse imbróglio todo, somente uma pessoa parece não se abalar: a publicitária marroquina Arlette Siaretta, de 50 anos declarados. Dona da produtora Casablanca, que divide os créditos de Metamorphoses com a Record, Arlette está contente com o que já conseguiu. E promete que ainda vai fazer muito barulho na televisão.

As ambições de Arlette não têm nada de modestas. A curto prazo, ela quer se tornar a maior produtora independente de programas de TV do Brasil. A longo prazo, ser dona de uma emissora. Tino para os negócios não lhe falta. A Casablanca faturou no ano passado 150 milhões de reais declarados – embora o mercado estime que o número seja mais alto. Ela já é dona de 70% do mercado de finalização de filmes publicitários do país. Nas eleições de 2002, produziu os filmes da campanha do tucano José Serra – e hoje está em litígio com o PSDB, cobrando do partido uma dívida que ela afirma ser da ordem de 30 milhões de reais. A primeira experiência da Casablanca como produtora de um seriado de televisão também se deu em 2002, com Turma do Gueto, exibido pela Record. Para realizar Metamorphoses, a Casablanca não poupou dinheiro. Os salários pagos aos atores principais, por exemplo, estão bem acima daquilo que eles receberiam numa novela da Rede Globo. Paulo Betti embolsa 100.000 reais por mês; Vanessa Lóes, 45.000 reais. Segundo o acordo atual, o salário de Tizuka Yamazaki também é polpudo: 60.000 reais. Parte desses custos é coberta pela Record, que investe 120.000 reais em cada capítulo da novela, mas ainda assim a Casablanca é obrigada a desembolsar uma boa quantia. "Meu objetivo, por enquanto, é aprender a fazer", diz Arlette.

Renata Ursaia
Arlette Siaretta, num cenário da novela: gênio forte


Antes mesmo de fundar a Casablanca, em 1993, Arlette Siaretta já tinha dinheiro. A primeira de cinco irmãos, ela nasceu em Kouribga, cidade marroquina que fica para lá de Marrakesh. Por causa de uma guerra na região, seus pais se mudaram para Paris quando ela tinha 11 anos. "Assim que eu abria a boca, me olhavam com desconfiança por causa de meu sotaque. Eu era menosprezada na França por ser marroquina", diz Arlette. Aos 20 anos, ela emigrou para o Brasil e pouco depois conheceu seu marido, Pedro Siaretta, que era dono de uma das maiores produtoras brasileiras da década de 70, a Diana Cinematográfica. O casal tem uma casa luxuosa em São Paulo e outras grandes propriedades em lugares como Beverly Hills, na Califórnia, e Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Arlette gosta de carros e objetos de arte. Desembolsou 100.000 dólares para ter uma jóia desenhada no começo do século XX pelo cubista francês Georges Braque. A peça, que se chama Metamorphose, aparece na abertura da novela e lhe emprestou seu nome. Arlette já licenciou o objeto para fazer bijuterias e perfumes. "Mamãe tem muitas coisas, mas trabalha tanto que não aproveita", diz seu filho, Patrick Siaretta, que recentemente foi alvo de uma tentativa de assalto. Ele escapou escondendo-se embaixo do carro. Um de seus seguranças levou dez tiros, mas felizmente não morreu.

No mercado publicitário, o nome de Arlette Siaretta é sinônimo de agressividade. "Ela manda o próprio marido calar a boca em reuniões e parte para a guerra quando não consegue o que quer", diz um publicitário paulistano. Arlette não mudou de estilo nos bastidores de Metamorphoses. Tizuka Yamazaki diz que não tem problemas com ela, mas a descreve como uma pessoa de "temperamento forte" (os desentendimentos da diretora são, sobretudo, com a cúpula da Record. Tanto que, na emissora, ela foi apelidada de "Kizika"). Já sobre os roteiristas, a mão pesada de Arlette tem se abatido sem dó. Antes mesmo de a novela estrear, ela brigou com o escritor contratado, Mario Prata. "Era tudo sem pé nem cabeça", afirma ela, num carregado sotaque francês. Depois disso, convocou um colegiado de autores para dar prosseguimento ao trabalho – e também não se entendeu com eles. Finalmente, parecia haver encontrado o roteirista ideal no romancista José Louzeiro, que teve de se afastar por problemas pessoais. Arlette lê todos os capítulos da história e interfere nos diálogos. No elenco de Metamorphoses, o único que se atreve a criticar esse comportamento é Paulo Betti. "Ela deveria deixar as pessoas escrever a novela com liberdade", diz o ator. Para Arlette, no entanto, Metamorphoses é apenas um capítulo da história que quer escrever como empresária de televisão. E esse enredo, só ela sabe para onde vai.

 
 
 
 
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