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Televisão
A
dona da história
Com
a novela Metamorphoses,
exibida pela Record, Arlette
Siaretta abre espaço na televisão

Ricardo
Valladares
Fotos divulgação
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| A
personagem da atriz Vanessa Lóes, depois de uma operação plástica,
e os malfeitores da máfia japonesa (à dir.): trama
mirabolante e imagens gravadas em equipamento de última geração |
Metamorphoses,
da Rede Record, é uma novela na corda bamba. Há quinze
dias no ar, ela mantém 6 pontos de audiência média,
o que não é ruim para os padrões de sua emissora.
Ao mesmo tempo, há quem aposte que o folhetim vai ser extinto
bem antes de alcançar os 140 capítulos programados.
Alguns méritos e defeitos da novela estão à
vista do espectador. Ela é gravada com equipamento digital
de última geração, o que lhe dá uma
qualidade de imagem que faz lembrar a dos filmes. Seu elenco possui
atores tarimbados como Paulo Betti, Gianfrancesco Guarnieri e Joanna
Fomm. O enredo de Metamorphoses é mirabolante: inclui
a máfia japonesa, transplantes faciais, amnésia, luta
livre e cirurgias plásticas realizadas ao vivo. Esse aglomerado
de bobagens talvez acabe espantando o público, mas não
é necessariamente uma desvantagem: Metamorphoses pode
emplacar como trash o lixo cultural que satisfaz. Nos bastidores,
contudo, as confusões se multiplicam. Desde que o roteiro
começou a ser escrito, a equipe de autores já mudou
três vezes. Alguns atores, insatisfeitos com o texto, ameaçam
se rebelar. Para completar, o contrato da diretora Tizuka Yamazaki,
que vence nesta semana, pode não ser renovado. Tudo isso
põe em risco a existência da novela. Em meio a esse
imbróglio todo, somente uma pessoa parece não se abalar:
a publicitária marroquina Arlette Siaretta, de 50 anos declarados.
Dona da produtora Casablanca, que divide os créditos de Metamorphoses
com a Record, Arlette está contente com o que já
conseguiu. E promete que ainda vai fazer muito barulho na televisão.
As
ambições de Arlette não têm nada de modestas.
A curto prazo, ela quer se tornar a maior produtora independente
de programas de TV do Brasil. A longo prazo, ser dona de uma emissora.
Tino para os negócios não lhe falta. A Casablanca
faturou no ano passado 150 milhões de reais declarados
embora o mercado estime que o número seja mais alto. Ela
já é dona de 70% do mercado de finalização
de filmes publicitários do país. Nas eleições
de 2002, produziu os filmes da campanha do tucano José Serra
e hoje está em litígio com o PSDB, cobrando
do partido uma dívida que ela afirma ser da ordem de 30 milhões
de reais. A primeira experiência da Casablanca como produtora
de um seriado de televisão também se deu em 2002,
com Turma do Gueto, exibido pela Record. Para realizar Metamorphoses,
a Casablanca não poupou dinheiro. Os salários pagos
aos atores principais, por exemplo, estão bem acima daquilo
que eles receberiam numa novela da Rede Globo. Paulo Betti embolsa
100.000 reais por mês; Vanessa
Lóes, 45.000 reais. Segundo o
acordo atual, o salário de Tizuka Yamazaki também
é polpudo: 60.000 reais. Parte
desses custos é coberta pela Record, que investe 120.000
reais em cada capítulo da novela, mas ainda assim a Casablanca
é obrigada a desembolsar uma boa quantia. "Meu objetivo,
por enquanto, é aprender a fazer", diz Arlette.
Renata Ursaia
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| Arlette
Siaretta, num cenário da novela: gênio forte |
Antes mesmo de fundar a Casablanca, em 1993, Arlette Siaretta já
tinha dinheiro. A primeira de cinco irmãos, ela nasceu em
Kouribga, cidade marroquina que fica para lá de Marrakesh.
Por causa de uma guerra na região, seus pais se mudaram para
Paris quando ela tinha 11 anos. "Assim que eu abria a boca, me olhavam
com desconfiança por causa de meu sotaque. Eu era menosprezada
na França por ser marroquina", diz Arlette. Aos 20 anos,
ela emigrou para o Brasil e pouco depois conheceu seu marido, Pedro
Siaretta, que era dono de uma das maiores produtoras brasileiras
da década de 70, a Diana Cinematográfica. O casal
tem uma casa luxuosa em São Paulo e outras grandes propriedades
em lugares como Beverly Hills, na Califórnia, e Angra dos
Reis, no Rio de Janeiro. Arlette gosta de carros e objetos de arte.
Desembolsou 100.000 dólares para
ter uma jóia desenhada no começo do século
XX pelo cubista francês Georges Braque. A peça, que
se chama Metamorphose, aparece na abertura da novela e lhe emprestou
seu nome. Arlette já licenciou o objeto para fazer bijuterias
e perfumes. "Mamãe tem muitas coisas, mas trabalha tanto
que não aproveita", diz seu filho, Patrick Siaretta, que
recentemente foi alvo de uma tentativa de assalto. Ele escapou escondendo-se
embaixo do carro. Um de seus seguranças levou dez tiros,
mas felizmente não morreu.
No
mercado publicitário, o nome de Arlette Siaretta é
sinônimo de agressividade. "Ela manda o próprio marido
calar a boca em reuniões e parte para a guerra quando não
consegue o que quer", diz um publicitário paulistano. Arlette
não mudou de estilo nos bastidores de Metamorphoses. Tizuka
Yamazaki diz que não tem problemas com ela, mas a descreve
como uma pessoa de "temperamento forte" (os desentendimentos da
diretora são, sobretudo, com a cúpula da Record. Tanto
que, na emissora, ela foi apelidada de "Kizika"). Já sobre
os roteiristas, a mão pesada de Arlette tem se abatido sem
dó. Antes mesmo de a novela estrear, ela brigou com o escritor
contratado, Mario Prata. "Era tudo sem pé nem cabeça",
afirma ela, num carregado sotaque francês. Depois disso, convocou
um colegiado de autores para dar prosseguimento ao trabalho
e também não se entendeu com eles. Finalmente, parecia
haver encontrado o roteirista ideal no romancista José Louzeiro,
que teve de se afastar por problemas pessoais. Arlette lê
todos os capítulos da história e interfere nos diálogos.
No elenco de Metamorphoses, o único que se atreve
a criticar esse comportamento é Paulo Betti. "Ela deveria
deixar as pessoas escrever a novela com liberdade", diz o ator.
Para Arlette, no entanto, Metamorphoses é apenas um
capítulo da história que quer escrever como empresária
de televisão. E esse enredo, só ela sabe para onde
vai.
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