Edição 1847 . 31 de março de 2004

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História
Eles ainda estão por aí

Vícios e deformações do período militar
são visíveis
ainda hoje no cenário político


André Petry


Ag. Folhas
Antonio Milena
Costa e Silva, solitário dentro do Congresso: fechamento e cassações de mandato Lula, ao lado de dona Marisa, na posse: PT surge como resultado da modernização do capitalismo

Especial on-line: Memórias do Regime Militar

Os golpistas de 1964 imaginavam que o Brasil seria um modelo internacional na virada do século XXI, mas, quarenta anos depois, com o distanciamento histórico proporcionado pelo tempo, pode-se verificar que os militares, em vez de pavimentar o caminho do futuro, congelaram o processo de evolução política do país. A herança política mais evidente dos 21 anos de ditadura militar (1964-1985) não está no que o regime criou, mas sobretudo no que impediu que funcionasse e evoluísse, como o surgimento de novos líderes, a ampliação do eleitorado ou a sintonia do sistema partidário com a crescente complexidade da sociedade. "A ditadura brasileira não foi muito criativa em termos político-institucionais", atesta o professor Carlos Pio, da Universidade de Brasília (UnB). "Acho que durou muito exatamente porque não tentou impor um projeto alternativo de sociedade nem um modelo de ordem pública significativamente diferente do que tínhamos antes do golpe." Ao congelar o país e impedir que desabrochasse, porém, a ditadura produziu uma série de deformações políticas que, quarenta anos depois, ainda são visíveis.

O regime militar provocou um imenso atraso na evolução da cultura política brasileira. Com seus casuísmos, que introduziram no vocabulário político expressões como "voto vinculado", "senador biônico", "colégio eleitoral", a ditadura ajudou a aprofundar a noção popular de que a política é um ambiente poluído, interesseiro, mesquinho e individualista, do qual os honestos devem manter distância. Poucas idéias foram mais eficazes para despolitizar a geração do pós-golpe. É possível que essa mentalidade antipolítica tenha atuado como um fator propulsor da candidatura de Fernando Collor, no primeiro pleito presidencial direto desde 1964. Dirigindo-se à massa despolitizada, Collor fazia questão de apresentar-se aos eleitores como um elemento novo, descontaminado, estranho à política tradicional e à frente de um partido político novíssimo, o falecido PRN, além de fazer um uso da propaganda televisiva que o eleitorado, saído da mordaça da Lei Falcão, desconhecia. Empossado, Collor deixou o poder num processo de impeachment que serviu como prova da maturidade da jovem democracia.


Ed Ferreira/AE
O plenário do Congresso: seu papel não é apenas o de deslegitimar governos

Os militares não legaram ao país instituições moldadas à sua imagem e semelhança porque o tratamento dado às questões políticas, em vez de basear-se na racionalidade, no debate, na divergência sadia, descambou para a tortura – essa, sim, uma marca notável do regime militar, que começou como desvio de conduta de militares mais radicais até transformar-se numa política tacitamente oficial. Com o fim da ditadura, o Congresso, violentado com o fechamento e as cassações de mandato, recuperou com rapidez uma identidade política, ocupando o vazio deixado pela escassa legitimidade política do governo de José Sarney (1985-1990), mas ainda exibe comportamentos típicos daquele período. A principal herança daquele tempo é achar que seu principal papel consiste em solapar a legitimidade do governo do momento. Sob a ditadura, esse era o único papel que restava ao Congresso, já que não lhe era dada nem mesmo a liberdade de oferecer oposição parlamentar.

Como ocorre em todas as ditaduras de quaisquer latitudes, a produção de líderes políticos foi estancada, com reflexos tenazes até hoje. O golpe de 64 atingiu em cheio a primeira geração de jovens diplomados fora da ditadura do Estado Novo e decepou-lhes o caminho. Em 1969, quando Emílio Garrastazu Médici assumiu a Presidência da República, todos os políticos que em 1964 ambicionavam chegar ao Palácio do Planalto haviam sido banidos da vida política nacional. Costuma-se supor que só os partidos de esquerda foram esquartejados pelo regime, mas é um engano. Depois da esquerda, que sofreu profundas transformações com a destruição do PCB, sua força historicamente hegemônica, os militares fizeram baixas entre a militância liberal e, depois dela, atacaram até as lideranças conservadoras, sempre que essas tivessem projetos independentes do regime. Assim, a ditadura mutilou e humilhou uma parte significativa da sociedade brasileira, e, só agora, quarenta anos depois do golpe e quase vinte após o fim do regime, o país começa a ter adultos nascidos, crescidos e educados em um ambiente de liberdade política. Só agora.

O sistema partidário vigente ainda deve muito ao regime militar, em especial nas suas mais graves deformações. No Brasil, os partidos políticos não nasceram como canais de expressão de certos segmentos sociais, razão pela qual a maioria das legendas carece de identidade social. A construção dessa identificação, porém, vinha ocorrendo no início da década de 60, mas foi interrompida pelo golpe de 64. Até hoje, o sistema partidário brasileiro não é capaz de representar à altura uma sociedade tão rica e complexa como a brasileira. A permanência de forças oligárquicas regionais, como a Bahia dos Magalhães ou o Maranhão dos Sarneys, também é uma herança daquele período. O próprio PMDB, talvez o mais flácido partido da história brasileira, é produto da ditadura. Sob a bitola do bipartidarismo do regime militar, o velho MDB cumpriu à risca seu papel de oposição, mas, no pluripartidarismo, tornou-se um flagelado. Ainda que sem essa intenção, a ditadura também ergueu as condições para o surgimento do PT, que vem a ser um produto da modernização capitalista introduzida pelo regime militar.

Dentre todas, talvez a herança mais nefasta e longeva do regime militar seja o profundo descompasso entre a sociedade e a política brasileiras. O eleitorado brasileiro saíra do coronelismo dos anos 30, entrara no populismo das décadas seguintes e, no momento em que começava a se emancipar dessas heranças para entrar num período de maior modernidade política, caiu no golpe de 64. A experiência político-eleitoral do brasileiro foi então inteiramente paralisada. Na vigência do regime militar, num outro descompasso gritante, o país transformou-se numa sociedade de massas, mas num sistema de supressão de liberdades públicas – algo tão sufocante quanto colocar um adolescente dos dias de hoje num ambiente medieval. A falta de liberdade também retardou o contato da sociedade brasileira com o que ocorria nos principais centros ocidentais, que viviam sua era de frenéticas contestações culturais e comportamentais. Lá fora, os jovens debochavam da autoridade e faziam sua revolução libertária. Aqui eram tolhidos e alguns até moídos pela máquina da repressão. Quatro décadas parece ser pouco tempo para apagar os sinais das ditaduras, pelas quais nenhuma sociedade passa impunemente.

 
VEJA on-line preparou uma edição especial multimídia com a reprodução de reportagens de capa de VEJA, atualizadas com depoimentos exclusivos, áudio e vídeo e reportagens censuradas pelo regime militar.

 

1973
Brasil e Paraguai assinaram o tratado para a construção da usina de Itaipu, a maior hidrelétrica do mundo


1974
Mario Henrique Simonsen assumiu o Ministério da Fazenda e tentou controlar gastos. Foi derrotado.

Novembro
A Arena, o partido político do regime, sofreu uma lavada nas urnas. O MDB, partido de oposição, ficou com 73% dos votos

1975
Assinado o acordo nuclear Brasil—Alemanha, que visava a dar ao país o domínio do ciclo atômico. Os alemães venderam uma tecnologia que nunca funcionou, ironizada como "ficção nuclear"

1979
O AI-5 deixou de vigorar

Delfim assumiu o Ministério do Planejamento, tentou reeditar a fórmula do milagre econômico, mas o segundo choque do petróleo elevou o preço do barril para 30 dólares. O Brasil afundou sob o peso da dívida externa

22 de agosto
O presidente João Figueiredo enviou ao Congresso a Lei da Anistia, que libertou 100 presos políticos e permitiu o retorno ao Brasil de 150 banidos e cerca de 2 000 exilados

1980
Chegou a conta da megalomania do regime militar. A inflação rompeu a barreira dos três dígitos pela primeira vez na história do país e fechou o ano em 110,24%

1981
O PIB caiu 4,3%, no primeiro resultado negativo desde 1942

1982
O México pediu moratória e levou pânico ao mercado financeiro internacional. O Brasil se contaminou

Doze anos e 2,5 bilhões de dólares depois de iniciada, a usina nuclear de Angra I foi ligada e ganhou o apelido de Vaga-Lume, pela irregularidade de seu funcionamento

1984
25 de abril
O Congresso rejeitou a emenda que restabeleceria as eleições diretas, frustrando a campanha popular que precedeu a votação

O PIB cresceu 5,4%. Mas o número mais flagrante da economia foi o da inflação de 223,9% ao ano

1985
15 de março
José Sarney tomou posse como presidente, no lugar de Tancredo Neves, eleito indiretamente, que fora hospitalizado no dia anterior. Cinco semanas depois, Tancredo morreria


Cristiano Mascaro
Nani Gois
O ministro José Dirceu em comício estudantil em 1968 Ulysses Guimarães, patrono das Diretas Já

 
 
 
 
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