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História
O
golpe, 40 anos depois
Quatro
décadas depois
da derrubada
do
governo Goulart, o
golpe militar ainda
parece
muito próximo para
ser analisado
com a isenção de sentimentos que a pesquisa
histórica exige. Nas páginas seguintes, VEJA
reflete
sobre a herança econômica
e política
do ciclo dos generais

Lucila
Soares
Nani Gois
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| A
usina hidrelétrica de Itaipu: a capacidade instalada de energia
cresceu 500% entre 1964 e 1984 |
Em
um artigo escrito há dez anos, no qual fazia um balanço
amplamente positivo da economia durante o regime militar, o ex-ministro
Mario Henrique Simonsen sacou uma provocação envolvida
em fina ironia: "A história varia conforme o narrador, e
sob esse aspecto o movimento de 1964 cometeu pecado mortal. Maltratou
escritores e jornalistas que iriam historiá-lo para as gerações
futuras". É evidente que o poderoso ministro da Fazenda do
governo Geisel não era parte isenta na visão da herança
econômica que ele próprio ajudou a forjar. Mas é
inegável que o debate sobre o que se fez na economia naqueles
anos foi poluído por preconceitos tanto dos aliados quanto
dos adversários políticos do regime. Passados dezenove
anos do fim do ciclo dos generais, com o ambiente político
desanuviado pela democracia e o econômico, pelo controle da
inflação, é possível avaliar melhor
os erros e acertos do período. É uma discussão
fundamental no momento em que a retomada do crescimento é
a grande questão nacional e o ideário desenvolvimentista
reaparece com força, embalando a fantasia de trazer de volta
um tempo em que o Brasil era o país que mais crescia no mundo.
Olhado
em retrospecto, o período entre 1964 e 1985 continua impressionando
pela dimensão das mudanças que representou. Cometeram-se
ali erros históricos. Em projetos megalomaníacos como
a Transamazônica, a usina nuclear de Angra dos Reis e a Ferrovia
do Aço enterraram-se bilhões de dólares ao
ritmo de "Eu te amo, meu Brasil" e de um endividamento externo galopante.
Tudo verdade. Mas é verdade também que, naqueles vinte
anos, o Brasil firmou-se mundialmente como uma nação
industrializada e mais preparada para o futuro. Visto na perspectiva
da evolução do país a partir da década
de 30, com Getúlio Vargas, o regime militar fechou um ciclo
na construção do Brasil. "Dos anos 30 a 1980, realizamos
a proeza histórica de sair de um enorme atraso para um emparelhamento
técnico-industrial com países desenvolvidos de médio
porte", diz o economista Antônio Barros de Castro, da Universidade
Federal do Rio de Janeiro.
Claudio Rossi
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| Central
de chamadas em São Paulo: investimentos em telefonia
após 1972 |
O primeiro salto foi na área da modernização
institucional. São criações pós-64,
da lavra dos ministros da Fazenda, Octavio Gouvêa de Bulhões,
e do Planejamento, Roberto Campos, o Banco Central, o sistema financeiro
da habitação, o fundo de garantia por tempo de serviço.
A dupla também capitaneou uma faxina no sistema tributário,
acabando com impostos do tempo do Império, como o do selo,
e no sistema cambial, pondo fim a uma profusão de taxas criadas
para incentivar a exportação de alguns produtos e
restringir a importação de outros. As tarifas públicas
foram corrigidas em alguns casos, reajustadas em 1.000%
para viabilizar investimentos em infra-estrutura. Esse conjunto
de reformas pavimentou o caminho para o impressionante crescimento
registrado nos anos do milagre econômico, nos governos Costa
e Silva e Médici, e no início do governo Geisel.
Foi
um ritmo alucinante. Entre 1965 e 1973, quando veio a primeira crise
do petróleo, o Brasil cresceu, em média, 9,8% ao ano.
Mesmo com a drástica freada que veio depois, a economia mais
que triplicou no período. O país desenvolveu-se e
tecnologias modernas, movidas pela expansão do crédito
ao consumidor, começaram a se tornar acessíveis aos
lares da classe média. A indústria eletroeletrônica
chegou a crescer 22,6% ao ano. A produção de automóveis
aumentou mais de 20% ao ano no auge do milagre capitaneado pelo
ministro Delfim Netto. O Brasil passou de 48ª economia do mundo
para oitava (hoje despencou para a 13ª posição).
As
exportações passaram de 1,4 bilhão de dólares
em 1964 para 25,6 bilhões de dólares em 1985, um crescimento
estratosférico de 1.730%. Delfim
Netto lembra que, em 1984, as exportações brasileiras
eram iguais às da Coréia do Sul e da China (no ano
passado, corresponderam a um terço das sul-coreanas e a um
quarto das chinesas). Na área de infra-estrutura, o tamanho
da revolução pode ser medido pela lembrança
de que, até o fim dos anos 60, as ligações
interurbanas eram feitas por telefonista e podiam demorar muitas
horas para ser completadas. Em vinte anos, foram realizados investimentos
em infra-estrutura de energia elétrica, telefonia e estradas
sem os quais o país teria entrado em colapso. E a industrialização
se completou, em setores nos quais o Brasil era totalmente dependente
de importações, como petroquímica, papel e
celulose e alumínio, que hoje brilham na pauta de exportações.
Roberto
Campos gostava de chamar atenção para o fato de o
Brasil ter seguido, nas décadas de 60 e 70, caminhos bem
parecidos com os dos países que mais tarde ficaram conhecidos,
pela ferocidade de seu crescimento, como Tigres Asiáticos.
A questão que se coloca é óbvia: por que, então,
o Brasil saiu da rota do crescimento para a da estagnação?
Uma resposta salta aos olhos: os governos militares descuidaram
da educação básica. A Coréia universalizou
seu ensino fundamental na década de 60 e o Brasil, nos anos
90. "Foi aí que nós perdemos o barco", resume José
Alexandre Scheinkman, economista da Universidade Princeton. Em
1965, o trabalhador brasileiro tinha, em média, 2,6 anos
de estudo e o da Malásia, 2,8. Vinte anos depois, em 1985,
o brasileiro estudava 3,5 anos e o malasiano, 5,3. Esse pecado original
demorará mais de uma geração para ser superado
sem falar nas medidas necessárias para melhorar a
qualidade da educação. A ele se soma um outro erro
que, no conjunto, fez o país entrar com brutal atraso no
processo de globalização: o protecionismo. Em nome
da proteção às indústrias nascentes,
acabou-se premiando a ineficiência. O caso mais gritante é
o da Lei de Informática, que impôs ao consumidor brasileiro
computadores ruins e caros e roubou competitividade a vários
setores industriais, que, mais tarde, tiveram de se modernizar na
marra ou quebraram.
Outras
opções feitas naquele período resultaram em
heranças difíceis de administrar. A primeira é
o erro de avaliação da crise do petróleo de
1973. A partir dela, o mundo nunca mais seria o mesmo e os
governos da época não perceberam isso. No final de
1973, o preço do petróleo pulou de 2 dólares
para 12 dólares o barril. E o Brasil continuava visto como
"ilha de prosperidade". A decisão do governo Geisel de investir
no ambicioso II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) provoca
divergências até hoje. Na contramão do resto
do mundo, que puxou drasticamente o freio da economia para fazer
frente à crise do petróleo, o Brasil resolveu fazer
pesados investimentos na produção de insumos industriais
básicos, como petroquímica, siderurgia, papel e celulose
e alumínio, acentuando o endividamento externo. O custo da
escolha foi alto, e não por falta de aviso. À frente
do Ministério da Fazenda, Mario Henrique Simonsen alertou
o presidente para a recessão mundial que se avizinhava e
tornava impossível manter o ritmo de crescimento do governo
Médici. Foi derrotado. Quando veio a alta dos juros internacionais,
em 1979, o Brasil viu-se sem projeto de crescimento e com uma dívida
externa catorze vezes maior que a do início do governo Castello
Branco. Entre 1973 e 1978, a dívida líquida brasileira
passou de 6,2 bilhões de dólares para 31,6 bilhões
de dólares.
No
entanto, essa mesma opção é responsável
pela conclusão do ciclo brasileiro de industrialização.
É difícil imaginar o que seria o Brasil hoje sem algumas
das obras realizadas naquele período, como as usinas de Itaipu
e Tucuruí, ou sem o domínio de tecnologias nas quais
se apostou ali, como a de exploração de petróleo
em águas profundas. "O PND tinha coerência, era o modelo
asiático adaptado ao Brasil", diz o economista Gustavo Franco,
ex-presidente do Banco Central. "O governo Geisel errou na dose
mas não na direção."
O
período Geisel ainda permite ponderações sobre
o caminho adotado. Elas desaparecem quando o assunto é o
governo Figueiredo, no qual o modelo dos militares já estava
em franca decomposição, tanto na política quanto
na economia. Era inadiável a tomada de medidas para fazer
frente à crise internacional que só fazia se agravar
com o novo choque do petróleo e a elevação
vertiginosa da dívida externa. A opção foi
política. Quando Figueiredo percebeu que caberia a ele o
serviço impopular de promover a recessão interna,
decidiu investir num retorno aos índices de crescimento do
governo Médici e optou por botar Delfim Netto, novamente,
como o homem forte da economia. "A Delfim ficou entregue a tarefa
de, então sim, realizar um milagre", comenta o economista
Dionísio Dias Carneiro. Outra herança difícil
vem da inconseqüência na gestão das finanças
públicas, que o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega
define como "primitivismo institucional na área fiscal".
Não havia limite institucional para o gasto público.
Essa noção só viria a se firmar no Brasil muito
mais tarde, nos anos 90, durante o governo de Fernando Henrique
Cardoso. A herança econômica mais valiosa do ciclo
dos generais talvez seja a de servir de lembrança permanente
de que a conjunção de crescimento acelerado com inflação
sob controle é tão rara que recebe o nome de milagre.
E a história mostra que, em economia, não se pode
contar com milagres. Além de raros, eles são efêmeros,
e a conta nunca deixa de ser cobrada das gerações
seguintes.
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Do
Primeiro Ato à normalização democrática
1º
de abril
Os militares tiraram João Goulart do
poder.Uma junta militar assumiu o governo e, dias mais
tarde, baixou o ato institucional que cassou direitos
políticos de quarenta pessoas.
11 de abril
O general Humberto de Alencar Castello Branco foi
eleito indiretamente presidente da República
A dupla Roberto Campos (Planejamento) e Octavio Gouvêa
de Bulhões (Fazenda) fez reformas modernizantes
na economia que levaram à criação
do Banco Central e do fundo de garantia por tempo de
serviço e à unificação da
Previdência Social através do INPS. A instituição
da correção monetária deu credibilidade
ao mercado de títulos públicos.
1965
Outubro
Castello editou o segundo Ato Institucional, o AI-2,
tornando indireta a eleição de seu sucessor
e dissolvendo os partidos políticos.
1966
Fevereiro
Castello tornou indiretas também as eleições
para governadores de Estado.
1967
Delfim Netto assumiu o Ministério da Fazenda
e lançou as bases do "milagre brasileiro",
com forte estímulo ao crédito e à
produção de bens de consumo.
1968
13 de dezembro
O quinto Ato Institucional, o AI-5, instaurou a
censura à imprensa.
1969
Janeiro
Foram cassados 39 parlamentares, três ministros
do Supremo Tribunal Federal (STF) e um do Superior Tribunal
Militar (STM).
DNER/Helcio
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1970
O PIB cresceu 10,4% e manteve-se no patamar de dois
dígitos até 1973. O Brasil era então
o país de maior crescimento no mundo.
Começou a construção da Rodovia
Transamazônica, inacabada até hoje.
1972
Foi criada a Telebrás. Entre 1972 e 1984,
o número de telefones passou de 1,8 milhão
para 10,9 milhões.
1973
Dezembro
O Exército neutralizou a guerrilha do PC
do B no Araguaia, cuja primeira base fora descoberta
em janeiro de 1972. Os militares mataram dezenas de
guerrilheiros. Suas próprias baixas não
foram reveladas.
O PIB cresceu 14% no ano. O primeiro choque do petróleo
elevou o preço do barril de 2 para 12 dólares
em apenas três meses
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