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Computadores
Uma
pedra no
caminho de Gates
A
União Européia dificulta a vida da Microsoft
com restrições comerciais e multa recorde de
497 milhões de euros

Ronaldo
França
AP
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AFP
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| Gates:
o sucesso de sua empresa na Europa esbarrou
na determinação de Monti (à dir.) |
A
Microsoft, a maior empresa de softwares do mundo, sofreu, na quarta-feira
passada, uma punição inédita na história
dos processos de defesa econômica. Foi condenada pelo órgão
de defesa da concorrência da União Européia
a pagar uma multa de 497 milhões de euros, o equivalente
a 1,7 bilhão de reais, por práticas de competição
desleal. A empresa também terá de, num prazo máximo
de noventa dias, colocar no mercado europeu o programa operacional
Windows dando opção ao cliente de, se quiser, não
levar junto o Media Player, que possibilita ver filmes e ouvir músicas
no computador. A conclusão foi que, ao vender os programas
num pacote, a Microsoft oferece aos consumidores uma vantagem que,
de tão grande, chega a ser predatória. Impede que
concorrentes que fabricam softwares com as mesmas funções
tenham condições de competir no mercado. Os europeus
botaram para quebrar. A decisão também obriga a empresa
a revelar alguns códigos secretos do Windows, sem os quais,
argumenta-se, os outros fabricantes não conseguem que seus
programas tenham perfeita afinação com o sistema operacional,
instalado hoje em 90% dos computadores europeus.
A
Microsoft já anunciou que recorrerá da decisão,
o que pode fazer com que o caso se arraste por anos. "Se houver
divisão em dois produtos, aplicações-chave
do programa podem não manter o mesmo padrão de qualidade
atual", afirmou a VEJA o diretor de comunicações e
assuntos jurídicos da Microsoft, Jim Desler. A multa aplicada
não chega a ser um problema. A companhia americana tem 50
bilhões de dólares em caixa e uma sólida trajetória
de eficiência e crescimento seu faturamento aumentou,
no ano passado, 13% em relação ao ano anterior. Para
os especialistas, o golpe mais certeiro dos europeus na Microsoft
foi a obrigatoriedade de mudança na forma de comercialização.
Ao oferecer pacotes integrados, ela não apenas atrai o consumidor
como faz com que sua marca seja hegemônica nos escritórios
que usam o Windows.
Essa
não foi a primeira vez que a Microsoft deparou com um processo
desse tipo. O mesmo ocorreu quando, há sete anos, foi acionada
nos Estados Unidos por vender o Internet Explorer junto com o Windows,
na época em que o acesso à internet era o grande filão
a ser explorado. A empresa conseguiu um acordo e continuou com o
Explorer no pacote. A concorrência sucumbiu. A punição
de agora foi considerada uma vitória pessoal do comissário
europeu de defesa da concorrência, o economista italiano Mario
Monti, que conduziu o processo nos últimos cinco anos. Na
semana passada, quando a decisão foi anunciada, membros do
Departamento de Justiça dos Estados Unidos acusaram a Comissão
Européia de estar praticando protecionismo disfarçado.
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O
que torna a decisão ainda mais explosiva é a evidência
de que, ao tentar promover equilíbrio na competição,
ela nivela por baixo os competidores. Fundada em 1975 por Bill Gates,
a empresa conquistou sua posição de liderança
graças à criatividade que impôs à arquitetura
de seus produtos e a uma inegável competência comercial.
O Windows tornou-se o preferido dos usuários de microcomputadores
porque sua facilidade de operação possibilitou à
maioria das pessoas finalmente entender o que acontecia na tela
depois que se apertava o botão que liga a máquina.
O que veio depois disso foi a revolução que disseminou
a informática nas casas e escritórios. Durante algum
tempo, pensou-se que os chamados softwares livres, como o Linux,
ameaçariam sua liderança. Mas a experiência
mostrou que sua adoção pelas empresas implicava custos
adicionais de treinamento e contratação de mão-de-obra
específica. Ficaria cara demais a mudança. A Microsoft
continuou crescendo e diversificou sua atuação. Produz
hoje softwares para celulares, videogames, programas para operação
em banda larga e administra portais de internet. Também começou
a produzir conteúdo, em conjunto com a rede de TV americana
NBC. Isso não significa que o Windows deixe de ser seu carro-chefe.
Mas sua participação na receita tende a ser menos
importante no futuro. A empresa é hoje uma megacorporação
que fatura 32 bilhões de dólares por ano. O Windows
domina de longe o mercado mundial. É esse gigantismo, aliado
a uma inegável competência, que a faz temida.
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