Edição 1847 . 31 de março de 2004

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Medicina
Sob suspeita

Antidepressivos estariam levando
jovens a cometer suicídio? Essa é
a questão do momento


Anna Paula Buchalla

Até pouco tempo atrás, só os adultos vítimas de depressão eram tratados com remédios. Em meados dos anos 90, com a criação de antidepressivos mais potentes e com menos efeitos colaterais, crianças e adolescentes passaram também a ser medicados. Tudo estaria bem não fosse por um problema: há menos de um ano, pais de jovens deprimidos começaram a relatar casos de suicídio logo depois de ministradas as primeiras doses dos medicamentos ou alguns meses após o início do tratamento. Não existe nenhuma evidência científica de que os antidepressivos possam estar relacionados às mortes. No entanto, por via das dúvidas, e até que se prove o contrário, a FDA, a agência americana de controle da venda de remédios e alimentos, fez um alerta formal à comunidade médica, recomendando atenção para o possível surgimento de tendências suicidas em crianças e adolescentes tratados com antidepressivos. O órgão sugeriu, ainda, que os fabricantes imprimam essa advertência de forma visível no rótulo dos produtos.

Os antidepressivos utilizados em crianças atuam nos níveis de duas substâncias cerebrais, a serotonina e a noradrenalina. A serotonina está ligada a motivação, energia e atenção. A noradrenalina, a impulsividade, apetite e libido. Em conjunto, elas regulam o humor e as funções cognitivas. Remédios como o Prozac, o Zoloft, o Efexor e o Cipramil causam menos reações adversas e por isso são mais bem tolerados. Nenhum deles, com exceção do Prozac, foi testado na faixa etária entre 7 e 17 anos. A falta desse tipo de informação é uma faca de dois gumes – fica impossível saber ao certo se os jovens que tomam antidepressivos já são naturalmente mais vulneráveis ao suicídio ou se o remédio, ao alterar a química cerebral, poderia estimulá-lo. Uma das teorias mais aceitas para ajudar a explicar o suicídio em jovens que tomam antidepressivos é a de que esses remédios, ao tirá-los da letargia da depressão grave, acabaria por lhes dar energia para fazer o que não era possível no momento de paralisia: pôr fim à própria vida. Isso ocorre, em geral, logo no começo do tratamento, quando não houve tempo suficiente para uma mudança mais efetiva do quadro do paciente.

Para a grande maioria dos psiquiatras, a preocupação da FDA é exagerada. Eles argumentam que o verdadeiro motivo do suicídio está na depressão em si, e não nos antidepressivos. Ou seja, os remédios simplesmente poderiam não estar funcionando nesses casos. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a depressão é a causa mais comum de suicídio, à frente do alcoolismo, esquizofrenia e transtornos de personalidade. A adolescência é uma fase da vida marcada por angústias, dúvidas e melancolia. Por isso, seria também uma época propícia à depressão. "Algumas vezes o que leva o adolescente à procura de ajuda médica é o pensamento suicida. O que mostra que, mesmo antes de ser medicado, ele já estava propenso de alguma forma a tirar a própria vida ", diz a psiquiatra Helena Calil, da Universidade Federal de São Paulo.

No Brasil, como a depressão entre jovens é pouco diagnosticada, antidepressivos quase não são receitados para essa faixa etária. Já nos Estados Unidos, na década de 90, o uso de antidepressivos entre crianças e adolescentes aumentou 60%. Alguns médicos vêem um certo exagero aí. Acreditam que muitos especialistas estão tratando a típica angústia juvenil como depressão. Para eles, nos casos em que há necessidade de ajuda externa, existem técnicas tão ou mais efetivas do que os remédios, como as terapias cognitivas e comportamentais. Antidepressivo só nos quadros mais graves e com um acompanhamento rigoroso.

 
 
 
 
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