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Medicina
Sob
suspeita
Antidepressivos
estariam levando
jovens a cometer suicídio? Essa é
a questão do momento

Anna Paula Buchalla
Até
pouco tempo atrás, só os adultos vítimas de
depressão eram tratados com remédios. Em meados dos
anos 90, com a criação de antidepressivos mais potentes
e com menos efeitos colaterais, crianças e adolescentes passaram
também a ser medicados. Tudo estaria bem não fosse
por um problema: há menos de um ano, pais de jovens deprimidos
começaram a relatar casos de suicídio logo depois
de ministradas as primeiras doses dos medicamentos ou alguns meses
após o início do tratamento. Não existe nenhuma
evidência científica de que os antidepressivos possam
estar relacionados às mortes. No entanto, por via das dúvidas,
e até que se prove o contrário, a FDA, a agência
americana de controle da venda de remédios e alimentos, fez
um alerta formal à comunidade médica, recomendando
atenção para o possível surgimento de tendências
suicidas em crianças e adolescentes tratados com antidepressivos.
O órgão sugeriu, ainda, que os fabricantes imprimam
essa advertência de forma visível no rótulo
dos produtos.
Os
antidepressivos utilizados em crianças atuam nos níveis
de duas substâncias cerebrais, a serotonina e a noradrenalina.
A serotonina está ligada a motivação, energia
e atenção. A noradrenalina, a impulsividade, apetite
e libido. Em conjunto, elas regulam o humor e as funções
cognitivas. Remédios como o Prozac, o Zoloft, o Efexor e
o Cipramil causam menos reações adversas e por isso
são mais bem tolerados. Nenhum deles, com exceção
do Prozac, foi testado na faixa etária entre 7 e 17 anos.
A falta desse tipo de informação é uma faca
de dois gumes fica impossível saber ao certo se os
jovens que tomam antidepressivos já são naturalmente
mais vulneráveis ao suicídio ou se o remédio,
ao alterar a química cerebral, poderia estimulá-lo.
Uma das teorias mais aceitas para ajudar a explicar o suicídio
em jovens que tomam antidepressivos é a de que esses remédios,
ao tirá-los da letargia da depressão grave, acabaria
por lhes dar energia para fazer o que não era possível
no momento de paralisia: pôr fim à própria vida.
Isso ocorre, em geral, logo no começo do tratamento, quando
não houve tempo suficiente para uma mudança mais efetiva
do quadro do paciente.
Para
a grande maioria dos psiquiatras, a preocupação da
FDA é exagerada. Eles argumentam que o verdadeiro motivo
do suicídio está na depressão em si, e não
nos antidepressivos. Ou seja, os remédios simplesmente poderiam
não estar funcionando nesses casos. Segundo a Organização
Mundial de Saúde, a depressão é a causa mais
comum de suicídio, à frente do alcoolismo, esquizofrenia
e transtornos de personalidade. A adolescência é uma
fase da vida marcada por angústias, dúvidas e melancolia.
Por isso, seria também uma época propícia à
depressão. "Algumas vezes o que leva o adolescente à
procura de ajuda médica é o pensamento suicida. O
que mostra que, mesmo antes de ser medicado, ele já estava
propenso de alguma forma a tirar a própria vida ", diz a
psiquiatra Helena Calil, da Universidade Federal de São Paulo.
No
Brasil, como a depressão entre jovens é pouco diagnosticada,
antidepressivos quase não são receitados para essa
faixa etária. Já nos Estados Unidos, na década
de 90, o uso de antidepressivos entre crianças e adolescentes
aumentou 60%. Alguns médicos vêem um certo exagero
aí. Acreditam que muitos especialistas estão tratando
a típica angústia juvenil como depressão. Para
eles, nos casos em que há necessidade de ajuda externa, existem
técnicas tão ou mais efetivas do que os remédios,
como as terapias cognitivas e comportamentais. Antidepressivo só
nos quadros mais graves e com um acompanhamento rigoroso.
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