|
|
Comportamento
Sócrates
no divã
Filósofos
acham um bom negócio: vender
conselhos de vida com base nos clássicos

Daniel Hessel Teich
Por
tradição, o horizonte profissional dos filósofos
limita-se à sala de aula, à pesquisa acadêmica
e à publicação de livros e artigos que poucos
lêem. Pelo menos era assim, até que um grupo de americanos
criou um novo ramo de atividade, o aconselhamento filosófico.
Uma consulta custa em média 100 dólares, o mesmo valor
de uma sessão de psicoterapia. A atividade inclui a publicação
de livros e palestras no estilo auto-ajuda. A principal estrela
desse novo ramo da filosofia é o canadense Lou Marinoff,
professor da City College de Nova York. Ele já foi palestrante
no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça,
e seu livro Mais Platão, Menos Prozac foi publicado
em vinte países, entre eles o Brasil, onde já está
na sexta edição e tem apresentação do
escritor Paulo Coelho.
A
essência desse tipo de aconselhamento está na aplicação
de conceitos filosóficos para resolver problemas do cotidiano.
É, de certa forma, um retorno às origens, pois era
isso que Sócrates fazia na Grécia antiga. "A maioria
dos que nos procuram são uma espécie de refugiados
da psicologia e da psiquiatria", define Marinoff. "Nossa vantagem
é que a filosofia lida com as grandes questões da
condição humana, como a persistência do sofrimento
e a certeza da morte, sem bagunçar as emoções
das pessoas." Psicólogos e psicanalistas vêem nisso
concorrência desleal e advertem sobre o risco de um filósofo
recomendar Heidegger para um paciente com depressão. A prática
popularizou-se nos Estados Unidos nos últimos cinco anos.
Na Europa, o suíço Alain de Botton, autor do livro
Consolações da Filosofia, usa idéias
de Epicuro e Sêneca para discutir temas como falta de dinheiro
e frustração profissional. No Brasil, um grupo de
filósofos clínicos oferece serviços de aconselhamento.
Mas em nenhum outro lugar se chegou à escala americana.
Autor
de If Aristoteles Ran General Motors: the New Soul of Business
(Se Aristóteles Dirigisse a General Motors: a Nova Alma dos
Negócios, em inglês), o ex-professor de filosofia Tom
Morris cobra 30.000 dólares por
palestra de uma hora. Dois professores da Universidade Stanford,
Ken Taylor e John Perry, tornaram-se celebridades com o programa
de rádio semanal Philosophy Talk (Conversa Filosófica).
No ar, discutem temas como "A mentira é sempre ruim?" ou
"Você gostaria de viver para sempre?". Também na Califórnia,
o filósofo Christopher McCullough especializou-se em cuidar
de investidores falidos com o estouro da bolha digital, há
três anos. Ele usa princípios estóicos cunhados
nos três séculos antes de Cristo para ensinar como
é possível se manter sereno mesmo depois de grandes
perdas materiais. "As pessoas preferem uma boa conversa intelectualizada
a tratamentos contra depressão ou ansiedade", diz McCullough.
"Sem o divã do psicanalista, sobra mais espaço para
a diversão." Sócrates deve estar rindo na tumba.
|