Edição 1847 . 31 de março de 2004

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Comportamento
Sócrates no divã

Filósofos acham um bom negócio: vender
conselhos de vida com base nos clássicos


Daniel Hessel Teich

Por tradição, o horizonte profissional dos filósofos limita-se à sala de aula, à pesquisa acadêmica e à publicação de livros e artigos que poucos lêem. Pelo menos era assim, até que um grupo de americanos criou um novo ramo de atividade, o aconselhamento filosófico. Uma consulta custa em média 100 dólares, o mesmo valor de uma sessão de psicoterapia. A atividade inclui a publicação de livros e palestras no estilo auto-ajuda. A principal estrela desse novo ramo da filosofia é o canadense Lou Marinoff, professor da City College de Nova York. Ele já foi palestrante no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, e seu livro Mais Platão, Menos Prozac foi publicado em vinte países, entre eles o Brasil, onde já está na sexta edição e tem apresentação do escritor Paulo Coelho.

A essência desse tipo de aconselhamento está na aplicação de conceitos filosóficos para resolver problemas do cotidiano. É, de certa forma, um retorno às origens, pois era isso que Sócrates fazia na Grécia antiga. "A maioria dos que nos procuram são uma espécie de refugiados da psicologia e da psiquiatria", define Marinoff. "Nossa vantagem é que a filosofia lida com as grandes questões da condição humana, como a persistência do sofrimento e a certeza da morte, sem bagunçar as emoções das pessoas." Psicólogos e psicanalistas vêem nisso concorrência desleal e advertem sobre o risco de um filósofo recomendar Heidegger para um paciente com depressão. A prática popularizou-se nos Estados Unidos nos últimos cinco anos. Na Europa, o suíço Alain de Botton, autor do livro Consolações da Filosofia, usa idéias de Epicuro e Sêneca para discutir temas como falta de dinheiro e frustração profissional. No Brasil, um grupo de filósofos clínicos oferece serviços de aconselhamento. Mas em nenhum outro lugar se chegou à escala americana.

Autor de If Aristoteles Ran General Motors: the New Soul of Business (Se Aristóteles Dirigisse a General Motors: a Nova Alma dos Negócios, em inglês), o ex-professor de filosofia Tom Morris cobra 30.000 dólares por palestra de uma hora. Dois professores da Universidade Stanford, Ken Taylor e John Perry, tornaram-se celebridades com o programa de rádio semanal Philosophy Talk (Conversa Filosófica). No ar, discutem temas como "A mentira é sempre ruim?" ou "Você gostaria de viver para sempre?". Também na Califórnia, o filósofo Christopher McCullough especializou-se em cuidar de investidores falidos com o estouro da bolha digital, há três anos. Ele usa princípios estóicos cunhados nos três séculos antes de Cristo para ensinar como é possível se manter sereno mesmo depois de grandes perdas materiais. "As pessoas preferem uma boa conversa intelectualizada a tratamentos contra depressão ou ansiedade", diz McCullough. "Sem o divã do psicanalista, sobra mais espaço para a diversão." Sócrates deve estar rindo na tumba.

 
 
 
 
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