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Saúde
A
tragédia chinesa
Na
China, há lugares em que até 80%
da população está contaminada pelo
vírus da aids

Giuliana
Bergamo
Reuters
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| Drama
familiar: fazendeiro cuida da mulher doente |
Localizada
ao sul de Pequim, a província de Henan é famosa por
ser o berço da civilização chinesa. Ali, na
planície do Rio Amarelo, guarda-se um inestimável
tesouro arqueológico as relíquias da dinastia
Shang, que reinou no país entre 1766 e 1122 a.C. Poucos sabem,
no entanto, que Henan abriga um "perigo titânico", como define
a ONU. Com 110 milhões de pessoas, a província mais
populosa do país é o epicentro da epidemia de aids
na China e um dos mais preocupantes focos do vírus HIV em
todo o mundo. "A catástrofe é iminente e pode resultar
em uma devastação social, um sofrimento humano inimaginável
e grandes perdas econômicas", lê-se num relatório
da Unaids, o braço da ONU no combate à doença.
Predominantemente rural, a população de Henan distribui-se
por vilarejos de 700 a 4.000 moradores.
O acesso aos cuidados básicos de saúde é muito
precário. Muitos agricultores nunca ouviram falar em aids.
Para eles, seus parentes e amigos morrem da "doença estranha".
A falta de informações sobre prevenção
e tratamento é o cenário ideal para a disseminação
do HIV. Em várias cidades, 80% de seus habitantes estão
infectados. Localidades como Houyang, Donghu e Wenlou, entre outras,
são chamadas "vilas da aids". Nem na África, continente
com o maior número de doentes, se encontram lugares com índices
de contaminação tão elevados.
A
tragédia em Henan era anunciada. A responsabilidade pela
catástrofe tanto lá como em toda a China cabe ao governo
de Pequim. Numa ditadura onde tudo é segredo de Estado, durante
muito tempo a aids se espalhou sem encontrar nenhuma barreira. Para
se ter uma idéia, apenas 1% dos infectados chineses sabe
que tem o HIV. O ritmo de contágio pelo vírus em território
chinês é assustador. De 1995 para cá, o número
de contaminados cresce 40% a cada ano. No resto do mundo, a média
de novos casos registrados anualmente é de 12%. O descalabro
vai além em Henan. O principal vetor de contaminação
na província foi a coleta de sangue coordenada pelo governo.
No fim dos anos 80 e ao longo de toda a primeira metade da década
de 90, os agricultores de Henan foram incentivados a vender seu
sangue por quantias que variavam de 5 a 20 dólares. O objetivo
da coleta era o uso do plasma sanguíneo para a fabricação
de medicamentos. Em qualquer lugar decente, a coleta é feita
com seringas descartáveis, e o plasma é separado dos
outros componentes sanguíneos numa máquina que devolve
o resto do sangue ao doador. Não há risco nenhum.
Em
Henan, a coleta era feita com seringas contaminadas, o sangue de
várias pessoas misturado num mesmo recipiente e só
então devolvido aos doadores. Nada menos do que 75% dos habitantes
de Henan que comercializaram o próprio sangue contraíram
o HIV o que representa cerca de 700.000
pessoas. Muitos agricultores fizeram da venda de sangue um meio
de sobrevivência. Há relatos de homens e mulheres que
chegaram a doar sangue treze vezes num único mês
os braços marcados pelas picadas das agulhas infectadas.
Por causa disso, famílias inteiras foram dizimadas. Em algumas
localidades, falta gente para enterrar os mortos. É incalculável
o número de crianças órfãs da aids.
Os orfanatos estão cheios de meninos e meninas portadores
do HIV.
Outros
quatro países preocupam as autoridades em saúde pública
Rússia, Índia, Nigéria e Etiópia.
Nenhum deles, porém, chama tanta atenção quanto
a China. Os chineses representam um quinto da população
mundial, e os dados fornecidos pelo governo não são
confiáveis. Pelas estatísticas oficiais, em toda a
China há "no máximo" 1 milhão de infectados.
Segundo os cálculos dos especialistas, esse número
pode ser de cinco a dez vezes maior. Nos rituais praticados durante
a dinastia Shang era costume oferecer sangue humano aos deuses.
Estima-se que, nos últimos 250 anos de seu reinado, os Shang
sacrificaram mais de 13.000 pessoas.
Na Henan de hoje, o sacrifício do sangue continua.
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