Edição 1847 . 31 de março de 2004

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Oriente Médio
Gerações de ódio

Líder do Hamas é assassinado por
Israel e o terror palestino tenta vingá-lo
com um menino-bomba de 16 anos,
desarmado a tempo. Essa é a sina de
um conflito de meio século, que se
renova num ciclo de violência insana


José Eduardo Barella

Reuters
AFP
MENINO-BOMBA
O palestino Husam Abdu, de 16 anos, com 8 quilos de explosivos amarrados ao corpo: mais uma geração frustrada
O CÉREBRO DO TERROR
Xeque Ahmed Yassin, 67 anos, o líder do Hamas morto pelos israelenses: símbolo da resistência

Em Profundidade: Questão Palestina

O xeque Ahmed Yassin, 67 anos, e o menino-bomba Husam Abdu, 16, representam a trágica realidade do Oriente Médio, onde o ódio, como um bastão de corrida de revezamento, vem sendo passado de geração em geração. A voz mansa e o aspecto frágil do xeque tetraplégico, assassinado pelos israelenses na segunda-feira passada, escondiam uma personalidade fanática e uma determinação cruel. Foi dele a estratégia de banalizar os atentados suicidas que, desde 2000, mataram mais de 300 civis em ônibus e restaurantes de Israel. Husam Abdu, o adolescente franzino cujas fotos em que aparece vestido com um colete de bombas correram o mundo, é o símbolo de como a escalada de violência gera cada vez mais atos de maior insanidade. O recrutamento de uma criança para um atentado terrorista suicida chocou os próprios palestinos. O historiador israelense Meron Benvenisti, veterano advogado de um entendimento pacífico, diz que sua derradeira esperança é que, cedo ou tarde, a tragédia humana no Oriente Médio se torne tão profunda, tangível e incompreensível que seja impossível a qualquer um continuar a ignorá-la. Esse momento de revelação, escreveu o historiador, talvez possa resgatar a sanidade e promover um esforço real para quebrar o círculo de louca violência.

A raiz do conflito está na aspiração nacional de dois povos, israelense e palestino, ao mesmo pedaço de terra, a Palestina. A solução parece simples aos olhos dos que vivem longe daquela terra conflagrada: um compromisso que leve à existência de dois Estados independentes lado a lado. As pesquisas mostram que a maioria dos palestinos e israelenses aceita a idéia, pelo menos em princípio. O cenário atual não é animador nesse sentido. A justificativa de Israel para matar Yassin foram as atrocidades cometidas pelo Hamas contra civis israelenses. Os palestinos, mesmo aqueles que não aprovam o terror islâmico, se consideram as verdadeiras vítimas. Vivem há 37 anos sob ocupação militar, sofrem humilhações cotidianas nos postos de controle israelenses e não podem circular livremente entre suas cidades. O fato de que parte do sofrimento palestino decorra da necessidade israelense de se proteger do terrorismo palestino não torna a situação mais tolerável. Quem não conhece bem a história do conflito pode imaginar que o homem-bomba é uma saída legítima para uma situação extrema. É um equívoco. Trata-se na verdade de uma estratégia perversa de grupos radicais para aniquilar qualquer perspectiva de convivência entre israelenses e palestinos.

Com sua estratégia de homens-bomba, o xeque Yassin e outros grupos de fanáticos islâmicos detonaram o processo de paz iniciado em 1993, que deveria ter resultado num Estado palestino independente. A frustração palestina é mais antiga. Teve início em 1947, quando a ONU votou a partilha da Palestina em dois Estados, um árabe e outro judeu. A conseqüência foi uma guerra, da qual Israel se saiu vencedor. Cerca de 700 000 palestinos deixaram o território do novo Estado e seus descendentes são os atuais refugiados que vivem em favelas. Em 1967, na Guerra dos Seis Dias, Israel apossou-se de toda a Palestina, ocupando a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. A geração de Yassin é marcada pelo peso das derrotas sucessivas e pelo exílio. Ele nasceu numa aldeia hoje em Israel e tinha 12 anos quando sua família se refugiou em Gaza. Yassin ficou paraplégico aos 14 anos, ao fraturar a coluna em uma queda durante uma partida de futebol. No Cairo, onde estudou religião, encantou-se com a Irmandade Muçulmana, organização cujo fanatismo está na raiz do terrorismo islâmico, do Hamas à Al Qaeda. De volta a Gaza, tornou-se um respeitado educador por mais de duas décadas. Em 1987, com a eclosão da primeira intifada, a revolta palestina nos territórios ocupados, Yassin ajudou a fundar o Hamas (que significa Movimento de Resistência Islâmica). Foi a primeira organização terrorista da região a usar o homem-bomba.

O Hamas tem um braço dedicado a obras sociais, o que amplia seu prestígio entre os palestinos pobres. Uma de suas instituições, a Dawaa, oferece moradia subsidiada a jovens que estudam religião em sua rede de escolas. Ali são recrutados muitos suicidas. O terrorista suicida, como disse um dirigente do Hamas, só precisa de um momento de coragem. Em termos de custo-benefício, os homens-bomba são economicamente mais vantajosos que as operações tradicionais de guerrilha. Não é necessário fazer treinamento, planejar rota de fuga nem colocar outros integrantes do grupo em risco. O recrutamento de crianças para o terror é uma novidade cruel. Há duas semanas, um menino de 12 anos foi capturado pelos israelenses com um carregamento de explosivos. Dois dias depois da morte de Yassin, o garoto Husam foi detido num posto de controle israelense em Nablus, na Cisjordânia. Miúdo para seus 16 anos, ele chamou a atenção dos soldados pelo nervosismo e por vestir um casaco com o dobro de seu tamanho. Quando o revistaram, os israelenses encontraram um colete com 8 quilos de explosivos. Bastava ao garoto detonar a bomba ali mesmo para cumprir a promessa de vingar a morte de Yassin. Mas, decidido a continuar vivo, Husam acabou desarmado sem esboçar reação. Depois, contou que seu professor de religião havia explicado que o suicídio seria sua única chance de fazer sexo com 72 virgens no paraíso – um dos argumentos dos terroristas islâmicos para recrutar voluntários para o "martírio".

A questão, obviamente sem resposta, é quando palestinos e israelenses farão as concessões necessárias para pôr fim à década de sofrimento. Yassin era capaz de ordenar recuos táticos – um cessar-fogo temporário, por exemplo –, mas mantinha-se contra a paz verdadeira. Seu objetivo não era obter um território soberano para os palestinos, mas destruir o Estado de Israel e implantar um regime islâmico em toda a região. A cada novo ataque do terrorismo islâmico, o governo israelense respondeu com represálias militares que destruíram boa parte da infra-estrutura erguida pela Autoridade Palestina. Isso não apenas arruinou os acordos de paz como minou a autoridade de Yasser Arafat e inflou os setores belicistas do governo israelense. Neste ano, o primeiro-ministro Ariel Sharon decidiu retomar com força os chamados assassinatos seletivos – operações militares israelenses para matar os principais dirigentes de grupos terroristas palestinos. O próprio Yassin já havia escapado em setembro passado de um ataque semelhante ao que o matou na semana passada.

 
Reuters
AP
VIOLÊNCIA RENOVADA
Criança palestina com a foto de Yassin num protesto em Gaza (à esq.), e reforço de segurança em Jerusalém: ciclo infernal de retaliações

O assassinato do xeque foi alvo de críticas internacionais e, não fosse o veto americano, teria sido condenado pelas Nações Unidas. Do ponto de vista israelense, matar Yassin é justificável no mesmo sentido que se aceitaria como natural que os americanos matassem Osama bin Laden. É mais difícil entender que benefício prático os israelenses esperam tirar de sua morte. O conflito entre Israel e palestinos é complexo demais para depender de uma única personalidade, por mais influente ou poderosa que seja. Sharon havia anunciado a intenção de retirar tropas e colonos da Faixa de Gaza e é possível que, com o assassinato, pretenda evitar que o Hamas festeje a saída como uma capitulação ao terror. Yassin atuava como articulador entre os vários grupos que conviviam dentro da organização terrorista. Uma vez que pairava como última palavra sobre os ramos político e militar do Hamas, era o único com autoridade suficiente para impor decisões políticas à organização – como a de respeitar um cessar-fogo durante a retirada das forças israelenses de Gaza. Agora, o comando está pulverizado entre líderes menores, totalmente dedicados à prática do terror. A morte do xeque causou ainda mais duas vítimas. Uma delas é o poder de Arafat, cada vez mais enfraquecido. Se ele já enfrentava dificuldades em impedir a escalada terrorista, a situação piorou com a sede de vingança criada pela morte do principal líder religioso dos palestinos. A outra vítima é a possibilidade de concretização em data visível de um acordo qualquer entre as duas partes. O assassinato do xeque reforça a tática do "olho por olho", vigente na região.

 

 
 
 
 
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