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Oriente
Médio
Gerações
de ódio
Líder
do Hamas é assassinado por
Israel e o terror palestino tenta vingá-lo
com um menino-bomba de 16 anos,
desarmado a tempo. Essa é a sina de
um conflito de meio século, que se
renova num ciclo de violência insana

José
Eduardo Barella
Reuters
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AFP
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MENINO-BOMBA
O palestino Husam Abdu, de 16 anos, com 8 quilos de explosivos
amarrados ao corpo: mais uma geração frustrada |
O
CÉREBRO DO TERROR
Xeque Ahmed Yassin, 67 anos, o líder do Hamas morto pelos israelenses:
símbolo da resistência |
O xeque
Ahmed Yassin, 67 anos, e o menino-bomba Husam Abdu, 16, representam
a trágica realidade do Oriente Médio, onde o ódio,
como um bastão de corrida de revezamento, vem sendo passado
de geração em geração. A voz mansa e
o aspecto frágil do xeque tetraplégico, assassinado
pelos israelenses na segunda-feira passada, escondiam uma personalidade
fanática e uma determinação cruel. Foi dele
a estratégia de banalizar os atentados suicidas que, desde
2000, mataram mais de 300 civis em ônibus e restaurantes de
Israel. Husam Abdu, o adolescente franzino cujas fotos em que aparece
vestido com um colete de bombas correram o mundo, é o símbolo
de como a escalada de violência gera cada vez mais atos de
maior insanidade. O recrutamento de uma criança para um atentado
terrorista suicida chocou os próprios palestinos. O historiador
israelense Meron Benvenisti, veterano advogado de um entendimento
pacífico, diz que sua derradeira esperança é
que, cedo ou tarde, a tragédia humana no Oriente Médio
se torne tão profunda, tangível e incompreensível
que seja impossível a qualquer um continuar a ignorá-la.
Esse momento de revelação, escreveu o historiador,
talvez possa resgatar a sanidade e promover um esforço real
para quebrar o círculo de louca violência.
A
raiz do conflito está na aspiração nacional
de dois povos, israelense e palestino, ao mesmo pedaço de
terra, a Palestina. A solução parece simples aos olhos
dos que vivem longe daquela terra conflagrada: um compromisso que
leve à existência de dois Estados independentes lado
a lado. As pesquisas mostram que a maioria dos palestinos e israelenses
aceita a idéia, pelo menos em princípio. O cenário
atual não é animador nesse sentido. A justificativa
de Israel para matar Yassin foram as atrocidades cometidas pelo
Hamas contra civis israelenses. Os palestinos, mesmo aqueles que
não aprovam o terror islâmico, se consideram as verdadeiras
vítimas. Vivem há 37 anos sob ocupação
militar, sofrem humilhações cotidianas nos postos
de controle israelenses e não podem circular livremente entre
suas cidades. O fato de que parte do sofrimento palestino decorra
da necessidade israelense de se proteger do terrorismo palestino
não torna a situação mais tolerável.
Quem não conhece bem a história do conflito pode imaginar
que o homem-bomba é uma saída legítima para
uma situação extrema. É um equívoco.
Trata-se na verdade de uma estratégia perversa de grupos
radicais para aniquilar qualquer perspectiva de convivência
entre israelenses e palestinos.
Com
sua estratégia de homens-bomba, o xeque Yassin e outros grupos
de fanáticos islâmicos detonaram o processo de paz
iniciado em 1993, que deveria ter resultado num Estado palestino
independente. A frustração palestina é mais
antiga. Teve início em 1947, quando a ONU votou a partilha
da Palestina em dois Estados, um árabe e outro judeu. A conseqüência
foi uma guerra, da qual Israel se saiu vencedor. Cerca de 700 000
palestinos deixaram o território do novo Estado e seus descendentes
são os atuais refugiados que vivem em favelas. Em 1967, na
Guerra dos Seis Dias, Israel apossou-se de toda a Palestina, ocupando
a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. A geração de
Yassin é marcada pelo
peso das derrotas sucessivas e pelo exílio. Ele nasceu numa
aldeia hoje em Israel e tinha 12 anos quando sua família
se refugiou em Gaza. Yassin ficou paraplégico aos 14 anos,
ao fraturar a coluna em uma queda durante uma partida de futebol.
No Cairo, onde estudou religião, encantou-se com a Irmandade
Muçulmana, organização cujo fanatismo está
na raiz do terrorismo islâmico, do Hamas à Al Qaeda.
De volta a Gaza, tornou-se um respeitado educador por mais de duas
décadas. Em 1987, com a eclosão da primeira intifada,
a revolta palestina nos territórios ocupados, Yassin ajudou
a fundar o Hamas (que significa Movimento de Resistência Islâmica).
Foi a primeira organização terrorista da região
a usar o homem-bomba.
O
Hamas tem um braço dedicado a obras sociais, o que amplia
seu prestígio entre os palestinos pobres. Uma de suas instituições,
a Dawaa, oferece moradia subsidiada a jovens que estudam religião
em sua rede de escolas. Ali são recrutados muitos suicidas.
O terrorista suicida, como disse um dirigente do Hamas, só
precisa de um momento de coragem. Em termos de custo-benefício,
os homens-bomba são economicamente mais vantajosos que as
operações tradicionais de guerrilha. Não é
necessário fazer treinamento, planejar rota de fuga nem colocar
outros integrantes do grupo em risco. O recrutamento de crianças
para o terror é uma novidade cruel. Há duas semanas,
um menino de 12 anos foi capturado pelos israelenses com um carregamento
de explosivos. Dois dias depois da morte de Yassin, o garoto Husam
foi detido num posto de controle israelense em Nablus, na Cisjordânia.
Miúdo para seus 16 anos, ele chamou a atenção
dos soldados pelo nervosismo e por vestir um casaco com o dobro
de seu tamanho. Quando o revistaram, os israelenses encontraram
um colete com 8 quilos de explosivos. Bastava ao garoto detonar
a bomba ali mesmo para cumprir a promessa de vingar a morte de Yassin.
Mas, decidido a continuar vivo, Husam acabou desarmado sem esboçar
reação. Depois, contou que seu professor de religião
havia explicado que o suicídio seria sua única chance
de fazer sexo com 72 virgens no paraíso – um dos argumentos
dos terroristas islâmicos para recrutar voluntários
para o "martírio".
A
questão, obviamente sem resposta, é quando palestinos
e israelenses farão as concessões necessárias
para pôr fim à década de sofrimento. Yassin
era capaz de ordenar recuos táticos – um cessar-fogo temporário,
por exemplo –, mas mantinha-se contra a paz verdadeira. Seu objetivo
não era obter um território soberano para os palestinos,
mas destruir o Estado de Israel e implantar um regime islâmico
em toda a região. A cada novo ataque do terrorismo islâmico,
o governo israelense respondeu com represálias militares
que destruíram boa parte da infra-estrutura erguida pela
Autoridade Palestina. Isso não apenas arruinou os acordos
de paz como minou a autoridade de Yasser Arafat e inflou os setores
belicistas do governo israelense. Neste ano, o primeiro-ministro
Ariel Sharon decidiu retomar com força os chamados assassinatos
seletivos – operações militares israelenses para matar
os principais dirigentes de grupos terroristas palestinos. O próprio
Yassin já havia escapado em setembro passado de um ataque
semelhante ao que o matou na semana passada.
Reuters
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AP
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VIOLÊNCIA
RENOVADA
Criança palestina com a foto de Yassin num protesto em
Gaza (à esq.), e reforço de segurança
em Jerusalém: ciclo infernal de retaliações |
O
assassinato do xeque foi alvo de críticas internacionais
e, não fosse o veto americano, teria sido condenado pelas
Nações Unidas. Do ponto de vista israelense, matar
Yassin é justificável no mesmo sentido que se aceitaria
como natural que os americanos matassem Osama bin Laden. É
mais difícil entender que benefício prático
os israelenses esperam tirar de sua morte. O conflito entre Israel
e palestinos é complexo demais para depender de uma única
personalidade, por mais influente ou poderosa que seja. Sharon havia
anunciado a intenção de retirar tropas e colonos da
Faixa de Gaza e é possível que, com o assassinato,
pretenda evitar que o Hamas festeje a saída como uma capitulação
ao terror. Yassin atuava como articulador entre os vários
grupos que conviviam dentro da organização terrorista.
Uma vez que pairava como última palavra sobre os ramos político
e militar do Hamas, era o único com autoridade suficiente
para impor decisões políticas à organização
– como a de respeitar um cessar-fogo durante a retirada das forças
israelenses de Gaza. Agora, o comando está pulverizado entre
líderes menores, totalmente dedicados à prática
do terror. A morte do xeque causou ainda mais duas vítimas.
Uma delas é o poder de Arafat, cada vez mais enfraquecido.
Se ele já enfrentava dificuldades em impedir a escalada terrorista,
a situação piorou com a sede de vingança criada
pela morte do principal líder religioso dos palestinos. A
outra vítima é a possibilidade de concretização
em data visível de um acordo qualquer entre as duas partes.
O assassinato do xeque reforça a tática do "olho por
olho", vigente na região.
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