Edição 1847 . 31 de março de 2004

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Governo
Morde, assopra

Crise fortalece a oposição, que vive
divergência: uns
querem nocautear
o governo;
outros, só deixá-lo tonto


Thaís Oyama

Valeria Gonszalez/AE
TORRENTE CRÍTICA
Os tucanos Alckmin,Virgílio e Madeira, que estiveram no jantar no apartamento de FHC: piada e muitas críticas

NESTA EDIÇÃO
Ascensão e queda
Mas o país não parou
NA INTERNET
Notícias diárias sobre o governo Lula

A crise no governo Lula está conseguindo o que parecia ser impossível: unir a oposição e dotá-la de um discurso popular. Na semana passada, os próceres da oposição jantaram com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em São Paulo e, três dias depois, organizaram um encontro público em Brasília, onde explicitaram a estratégia de atuar em dois pilares centrais: o combate ao desemprego, tema que fala direto ao coração do eleitorado, e a defesa da ética nos negócios públicos, bandeira que pretende manter vivas na memória do eleitor as traficâncias do ex-assessor do Palácio do Planalto Waldomiro Diniz. Na segunda-feira, no jantar organizado por Fernando Henrique, selou-se uma espécie de reconciliação entre o PSDB de José Serra e o PFL de Jorge Bornhausen. Os dois nunca arrastaram asa um para o outro e estavam particularmente afastados desde a eleição presidencial, quando Serra preferiu priorizar a aliança com a parte tucana do PMDB em detrimento do pedaço tucano do PFL. Agora, tucanos e seus antigos aliados pefelistas e peemedebistas voltam a andar juntos, com a inédita companhia dos pedetistas do engenheiro Leonel Brizola.

Além de Serra e Bornhausen, o expresidente reuniu à mesa o líder tucano Arthur Virgílio (AM), os senadores pefelistas José Jorge (PE) e Agripino Maia (RN), além do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e seu secretário da Casa Civil, Arnaldo Madeira. Diante dessa platéia, Fernando Henrique deu o tom do encontro ao contar uma piada que disse ter recebido de um amigo por e-mail: a rainha Elizabeth, da Inglaterra, preocupada com os rumos do governo Lula, aconselha o presidente brasileiro a aplicar em sua equipe um teste de inteligência que ela própria usara para avaliar Tony Blair. Perguntou a rainha ao seu primeiro-ministro: “Quem é que, não sendo seu irmão nem sua irmã, é filho do seu pai e da sua mãe?”. Ao que Blair respondeu prontamente: “Eu mesmo, majestade”. Impressionado, Lula aplica o teste a José Dirceu, que ouve a pergunta, pede um tempo para pensar e, ao final, admite não saber a resposta. Irritado, Lula censura seu ministro e lhe dá a resposta certa. “Seu burro, é o Tony Blair!”. Com essa senha, os presentes sentiram-se à vontade para criticar o governo.

 
Dida Sampaio/AE
FAZENDO AS PAZES
O pefelista Bornhausen (à esq.) e o tucano José Serra (à dir.): depois do afastamento na eleição, os dois se reconciliaram

Serra foi o mais contundente. Disse que Lula se mostrou um “governante fraco e sem pulso” e que, em sua opinião, a crise de agora “não tem volta”. A “tibieza” do presidente foi ilustrada por dois episódios: a tímida reação de Lula ao ataque perpetrado pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, contra o ministro Antonio Palocci, e sua resposta igualmente hesitante, no entender dos presentes, à nota divulgada pela executiva do PT, criticando a política econômica do governo. Sobraram ainda farpas para o “centralismo stalinista” do núcleo duro do Palácio do Planalto e para aquilo que os convivas chamaram de “deslumbramento” dos petistas no poder. Ruth Cardoso lembrou a compra do novo avião presidencial, ao custo de 57 milhões de dólares, e a reforma do Palácio da Alvorada: “Imagine se tivéssemos feito isso na nossa época”. Durante o jantar, “frugal e austero”, na descrição de um convidado (o cardápio teve ravióli de entrada, seguido de coq au vin e acompanhado por duas garrafas do vinho chileno Don Melchior, parcimoniosamente dividido entre nove pessoas), um único assunto foi evitado: a discussão sobre quais seriam as taxas de juros e de câmbio ideais. “Serra é muito suscetível a esse tema”, justificou um dos participantes.

A frente oposicionista que agora arregaça as mangas está ligada por uma certeza — a de que o governo está claudicando, e bem antes da hora —, mas cindida por uma discordância de tom. A ala moderada, capitaneada por Fernando Henrique, defende que, num momento em que o oponente está especialmente vulnerável, é necessário conter a força do soco a ser desferido, sob pena de derrubá-lo antes da hora. Liderando a outra ponta, José Serra acha que é hora de bater duro, no queixo. A principal preocupação do ex-presidente, neste momento, é modular o volume das críticas. No jantar, durante o qual mais ouviu que falou, insistiu na necessidade de cautela no enfrentamento com o PT. Disse que era preciso cuidado para não “alimentar denúncias mal fundamentadas” que pudessem passar à sociedade a impressão de que a oposição está “artificializando” a crise e citou o Ministério da Fazenda como área a ser especialmente preservada. Fernando Henrique tem dito a correligionários que Palocci “é a referência internacional do governo Lula” e que, na hipótese de sua desestabilização, “não sobraria nada”.

Ao comentar a paralisia da administração federal com os convidados, disse que a possibilidade de o governo ficar parado dois anos não é, na sua opinião, a pior conseqüência da crise. “Já houve outros que ficaram assim e o país sobreviveu.” Seu maior temor é que a inércia petista traga conseqüências nefastas para o país a longo prazo. “Enquanto a China, a Índia e o México surfam na onda desenvolvimentista, o Brasil vai ficando para trás”, afirmou. Se a consolidação desse cenário parece ruim para o país, soa ainda mais desastrosa para o PSDB. José Serra, em seu comedido discurso no encontro de quinta- feira em Brasília, declarou: “Nós não queremos que a crise se aprofunde no ritmo em que está se aprofundando”. Talvez tenha sido sua frase mais sincera. No projeto do PSDB, a sonhada “restauração tucana” pressupõe o recebimento de um país em pé, e não em frangalhos. E, mesmo para o gosto da oposição, o ritmo da queda está acelerado demais. “Ninguém quer herdar terra arrasada. E ainda restam dois anos e meio de briga pela frente”, analisa um líder tucano. Pelos bons modos exibidos pela oposição na quinta-feira, seus integrantes parecem estar dispostos, ao menos por enquanto, a acatar a ordem do chefe, que, na livre interpretação de um parlamentar, pode ser assim resumida: “Bata, mas não mate”.

 
 
 
 
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