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Governo
Morde, assopra
Crise
fortalece a oposição, que
vive
divergência: uns querem
nocautear
o governo; outros,
só deixá-lo tonto

Thaís Oyama
Valeria Gonszalez/AE
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TORRENTE
CRÍTICA
Os tucanos Alckmin,Virgílio e Madeira, que estiveram
no jantar no apartamento de FHC: piada e muitas críticas |
A crise
no governo Lula está conseguindo o que parecia ser impossível:
unir a oposição e dotá-la de um discurso popular.
Na semana passada, os próceres da oposição
jantaram com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em São
Paulo e, três dias depois, organizaram um encontro público
em Brasília, onde explicitaram a estratégia de atuar
em dois pilares centrais: o combate ao desemprego, tema que fala
direto ao coração do eleitorado, e a defesa da ética
nos negócios públicos, bandeira que pretende manter
vivas na memória do eleitor as traficâncias do ex-assessor
do Palácio do Planalto Waldomiro Diniz. Na segunda-feira,
no jantar organizado por Fernando Henrique, selou-se uma espécie
de reconciliação entre o PSDB de José Serra
e o PFL de Jorge Bornhausen. Os dois nunca arrastaram asa um para
o outro e estavam particularmente afastados desde a eleição
presidencial, quando Serra preferiu priorizar a aliança com
a parte tucana do PMDB em detrimento do pedaço tucano do
PFL. Agora, tucanos e seus antigos aliados pefelistas e peemedebistas
voltam a andar juntos, com a inédita companhia dos pedetistas
do engenheiro Leonel Brizola.
Além
de Serra e Bornhausen, o expresidente reuniu à mesa o líder
tucano Arthur Virgílio (AM), os senadores pefelistas José
Jorge (PE) e Agripino Maia (RN), além do governador de São
Paulo, Geraldo Alckmin, e seu secretário da Casa Civil, Arnaldo
Madeira. Diante dessa platéia, Fernando Henrique deu o tom
do encontro ao contar uma piada que disse ter recebido de um amigo
por e-mail: a rainha Elizabeth, da Inglaterra, preocupada com os
rumos do governo Lula, aconselha o presidente brasileiro a aplicar
em sua equipe um teste de inteligência que ela própria
usara para avaliar Tony Blair. Perguntou a rainha ao seu primeiro-ministro:
Quem é que, não sendo seu irmão nem sua
irmã, é filho do seu pai e da sua mãe?.
Ao que Blair respondeu prontamente: Eu mesmo, majestade.
Impressionado, Lula aplica o teste a José Dirceu, que ouve
a pergunta, pede um tempo para pensar e, ao final, admite não
saber a resposta. Irritado, Lula censura seu ministro e lhe dá
a resposta certa. Seu burro, é o Tony Blair!.
Com essa senha, os presentes sentiram-se à vontade para criticar
o governo.
Dida Sampaio/AE
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FAZENDO
AS PAZES
O
pefelista Bornhausen (à
esq.) e o tucano José Serra
(à dir.): depois do afastamento
na eleição, os
dois se reconciliaram |
Serra
foi o mais contundente. Disse que Lula se mostrou um governante
fraco e sem pulso e que, em sua opinião, a crise de
agora não tem volta. A tibieza do
presidente foi ilustrada por dois episódios: a tímida
reação de Lula ao ataque perpetrado pelo presidente
do PL, Valdemar Costa Neto, contra o ministro Antonio Palocci, e
sua resposta igualmente hesitante, no entender dos presentes, à
nota divulgada pela executiva do PT, criticando a política
econômica do governo. Sobraram ainda farpas para o centralismo
stalinista do núcleo duro do Palácio do Planalto
e para aquilo que os convivas chamaram de deslumbramento
dos petistas no poder. Ruth Cardoso lembrou a compra do novo avião
presidencial, ao custo de 57 milhões de dólares, e
a reforma do Palácio da Alvorada: Imagine se tivéssemos
feito isso na nossa época. Durante o jantar, frugal
e austero, na descrição de um convidado (o cardápio
teve ravióli de entrada, seguido de coq au vin e acompanhado
por duas garrafas do vinho chileno Don Melchior, parcimoniosamente
dividido entre nove pessoas), um único assunto foi evitado:
a discussão sobre quais seriam as taxas de juros e de câmbio
ideais. Serra é muito suscetível a esse tema,
justificou um dos participantes.
A frente
oposicionista que agora arregaça as mangas está ligada
por uma certeza a de que o governo está claudicando,
e bem antes da hora , mas cindida por uma discordância
de tom. A ala moderada, capitaneada por Fernando Henrique, defende
que, num momento em que o oponente está especialmente vulnerável,
é necessário conter a força do soco a ser desferido,
sob pena de derrubá-lo antes da hora. Liderando a outra ponta,
José Serra acha que é hora de bater duro, no queixo.
A principal preocupação do ex-presidente, neste momento,
é modular o volume das críticas. No jantar, durante
o qual mais ouviu que falou, insistiu na necessidade de cautela
no enfrentamento com o PT. Disse que era preciso cuidado para não
alimentar denúncias mal fundamentadas que pudessem
passar à sociedade a impressão de que a oposição
está artificializando a crise e citou o Ministério
da Fazenda como área a ser especialmente preservada. Fernando
Henrique tem dito a correligionários que Palocci é
a referência internacional do governo Lula e que, na
hipótese de sua desestabilização, não
sobraria nada.
Ao
comentar a paralisia da administração federal com
os convidados, disse que a possibilidade de o governo ficar parado
dois anos não é, na sua opinião, a pior conseqüência
da crise. Já houve outros que ficaram assim e o país
sobreviveu. Seu maior temor é que a inércia
petista traga conseqüências nefastas para o país
a longo prazo. Enquanto a China, a Índia e o México
surfam na onda desenvolvimentista, o Brasil vai ficando para trás,
afirmou. Se a consolidação desse cenário parece
ruim para o país, soa ainda mais desastrosa para o PSDB.
José Serra, em seu comedido discurso no encontro de quinta-
feira em Brasília, declarou: Nós não
queremos que a crise se aprofunde no ritmo em que está se
aprofundando. Talvez tenha sido sua frase mais sincera. No
projeto do PSDB, a sonhada restauração tucana
pressupõe o recebimento de um país em pé, e
não em frangalhos. E, mesmo para o gosto da oposição,
o ritmo da queda está acelerado demais. Ninguém
quer herdar terra arrasada. E ainda restam dois anos e meio de briga
pela frente, analisa um líder tucano. Pelos bons modos
exibidos pela oposição na quinta-feira, seus integrantes
parecem estar dispostos, ao menos por enquanto, a acatar a ordem
do chefe, que, na livre interpretação de um parlamentar,
pode ser assim resumida: Bata, mas não mate.
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