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Governo
Mas o país não
parou
O
governo precisa empenhar-se
para não deixar a crise política
contaminar a economia, que está
pronta para deslanchar depois
de um ano de sacrifício

Alexandre Oltramari
Tuca Vieira/Folha imagem
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TUDO
PRONTO
No comércio de varejo, as vendas estão aumentando
e os salários pararam de cair: no ano passado, o governo
fez o dever de casa e, agora, o país está pronto
para crescer, tendo ainda a ajuda do bom cenário da economia
mundial |
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Em
geral, uma economia nos trilhos serve como antídoto contra
crises políticas. Na semana passada, porém, surgiu uma
preocupação de que o Brasil inverta essa dinâmica
– e a crise política que afeta o governo passe a contaminar
uma economia pronta para deslanchar. Com o tumulto político
instalado em Brasília, o mercado reagiu como de praxe. A bolsa
caiu, o dólar subiu e o risco Brasil, indicador que mede a
confiança dos investidores estrangeiros no país, piorou
um pouco. Mas ainda é bastante cedo para falar em contágio.
"A crise política precisaria durar mais uns dois meses para
começar a ter efeitos negativos sobre a economia", diz o economista
Roberto Padovani, da Tendências Consultoria. Apesar da crise
política e da paralisia do governo, o país não
parou, e a economia mantém sinais positivos. A taxa de juros
vem caindo, a inflação está sob controle, o consumo
tem aumentado e até a renda dos trabalhadores, em declínio
há muito tempo, dá sinais de começar uma recuperação.
Se o governo não atrapalhar, o país tem condições
de crescer entre 3,5% e 4% neste ano.
Um
dos bons sinais está no comportamento da renda do brasileiro,
que encolheu 14% no ano passado e agora parou de cair. A razão
é que as reposições salariais negociadas entre
patrões e empregados foram inferiores à inflação
no ano passado, mas são superiores à inflação
atual e à expectativa de inflação futura. "Ninguém
recuperou as perdas, mas os trabalhadores estão aumentando
paulatinamente seu poder aquisitivo", diz o economista Antonio Barros
de Castro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A taxa de desemprego, que atinge quase 20% da população
economicamente ativa em São Paulo, não é apenas
alta – é recorde. A notícia positiva é que,
desde 1992, não se criavam tantos empregos formais nos dois
primeiros meses do ano como ocorreu agora – foram 239.000 vagas
em todo o país. A redução da taxa de juros,
mesmo que promovida numa velocidade que exaspera boa parte da sociedade,
também começa a ter reflexos no dia-a-dia. Os juros
do cheque especial, por exemplo, ainda estão altíssimos,
mas são os menores desde 2000, e devem cair mais.
A
boa expectativa resulta da conjunção de dois fatores.
No cenário externo, a economia mundial passa por um momento
auspicioso, com os Estados Unidos tendo registrado crescimento de
3,1% no ano passado. O PIB do Japão, pela primeira vez em
mais de dez anos, também cresceu. A Argentina, importante
parceiro comercial do Brasil, cresce ao ritmo de 8% ao ano. Os bons
ventos de fora produzem reflexos positivos aqui dentro, aumentando
o investimento externo, barateando o crédito e ajudando as
exportações, cuja estimativa neste ano já aumentou
de 76 para 80 bilhões de dólares. O outro fator é
o cenário interno, em que o governo fez o dever de casa,
aplicando um ajuste doloroso mas que recuperou a credibilidade externa
do país e debelou o surto inflacionário. Com isso,
o governo criou as condições para que entremos num
círculo virtuoso de crescimento. Agora precisa empenhar-se
para evitar que a crise política ponha tudo a perder.
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