Edição 1847 . 31 de março de 2004

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Governo
Mas o país não parou

O governo precisa empenhar-se
para não deixar a crise política
contaminar a economia, que está
pronta para deslanchar depois
de um ano de sacrifício


Alexandre Oltramari

Tuca Vieira/Folha imagem
TUDO PRONTO
No comércio de varejo, as vendas estão aumentando e os salários pararam de cair: no ano passado, o governo fez o dever de casa e, agora, o país está pronto para crescer, tendo ainda a ajuda do bom cenário da economia mundial
NESTA EDIÇÃO
Ascensão e queda
Morde, assopra
NA INTERNET
Notícias diárias sobre o governo Lula

Em geral, uma economia nos trilhos serve como antídoto contra crises políticas. Na semana passada, porém, surgiu uma preocupação de que o Brasil inverta essa dinâmica – e a crise política que afeta o governo passe a contaminar uma economia pronta para deslanchar. Com o tumulto político instalado em Brasília, o mercado reagiu como de praxe. A bolsa caiu, o dólar subiu e o risco Brasil, indicador que mede a confiança dos investidores estrangeiros no país, piorou um pouco. Mas ainda é bastante cedo para falar em contágio. "A crise política precisaria durar mais uns dois meses para começar a ter efeitos negativos sobre a economia", diz o economista Roberto Padovani, da Tendências Consultoria. Apesar da crise política e da paralisia do governo, o país não parou, e a economia mantém sinais positivos. A taxa de juros vem caindo, a inflação está sob controle, o consumo tem aumentado e até a renda dos trabalhadores, em declínio há muito tempo, dá sinais de começar uma recuperação. Se o governo não atrapalhar, o país tem condições de crescer entre 3,5% e 4% neste ano.

Um dos bons sinais está no comportamento da renda do brasileiro, que encolheu 14% no ano passado e agora parou de cair. A razão é que as reposições salariais negociadas entre patrões e empregados foram inferiores à inflação no ano passado, mas são superiores à inflação atual e à expectativa de inflação futura. "Ninguém recuperou as perdas, mas os trabalhadores estão aumentando paulatinamente seu poder aquisitivo", diz o economista Antonio Barros de Castro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A taxa de desemprego, que atinge quase 20% da população economicamente ativa em São Paulo, não é apenas alta – é recorde. A notícia positiva é que, desde 1992, não se criavam tantos empregos formais nos dois primeiros meses do ano como ocorreu agora – foram 239.000 vagas em todo o país. A redução da taxa de juros, mesmo que promovida numa velocidade que exaspera boa parte da sociedade, também começa a ter reflexos no dia-a-dia. Os juros do cheque especial, por exemplo, ainda estão altíssimos, mas são os menores desde 2000, e devem cair mais.

A boa expectativa resulta da conjunção de dois fatores. No cenário externo, a economia mundial passa por um momento auspicioso, com os Estados Unidos tendo registrado crescimento de 3,1% no ano passado. O PIB do Japão, pela primeira vez em mais de dez anos, também cresceu. A Argentina, importante parceiro comercial do Brasil, cresce ao ritmo de 8% ao ano. Os bons ventos de fora produzem reflexos positivos aqui dentro, aumentando o investimento externo, barateando o crédito e ajudando as exportações, cuja estimativa neste ano já aumentou de 76 para 80 bilhões de dólares. O outro fator é o cenário interno, em que o governo fez o dever de casa, aplicando um ajuste doloroso mas que recuperou a credibilidade externa do país e debelou o surto inflacionário. Com isso, o governo criou as condições para que entremos num círculo virtuoso de crescimento. Agora precisa empenhar-se para evitar que a crise política ponha tudo a perder.

 
 
 
 
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