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Governo
Ascensão
e queda

Malu Gaspar e Leandra Peres
Pedro Rubens
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Até
pouco tempo atrás, as pesquisas de opinião pública
indicavam que a denúncia de que um assessor do ministro José
Dirceu fora pilhado achacando um bicheiro não respingara
no presidente da República. Agora, depois de seis semanas
no ar, a crise finalmente bateu na imagem de Lula. Uma pesquisa
realizada pelo Ibope, a pedido da Confederação Nacional
da Indústria (CNI), mostra que o governo continua caindo
no conceito dos eleitores, enquanto a imagem do presidente sofreu
danos ainda maiores. A avaliação positiva do governo,
que em dezembro do ano passado era de 41%, caiu 7 pontos porcentuais,
ficando em 34%. A confiança no presidente sofreu queda mais
significativa: de 69% para 60%. No item em que se indaga aos pesquisados
se aprovam a forma como Lula administra o governo e o país,
registrou-se a baixa mais ampla de 12 pontos porcentuais.
Antes, em dezembro passado, 66% dos eleitores aprovavam a maneira
de Lula governar. Agora, são 54%. É uma queda indicativa
de um desgaste em diversas frentes. A crise envolvendo o assessor
de Dirceu precipitou o sentimento latente de que o governo estava
com sérios problemas de gestão e patinava no mesmo
lugar. Foi questão de tempo para que o imobilismo e a nódoa
ética sobre o governo se traduzissem em queda na popularidade
medida pelas pesquisas.
As
taxas de aprovação e popularidade de Lula ainda são
muito expressivas e estão num patamar bem superior ao de
seus antecessores quando haviam cumprido um terço do mandato.
Os números, no entanto, revelam dois aspectos preocupantes
para o Palácio do Planalto. Primeiro, mostram que se espalharam
as restrições ao governo e ao desempenho pessoal do
presidente, que já existiam entre os formadores de opinião
e a camada mais informada da sociedade. Isso significa que a mística
em torno da figura pública de Lula, a imagem de infalibilidade
do líder popular e o próprio encanto em relação
à sua força simbólica começaram a se
quebrar. Nada disso surpreende, pois o exercício cotidiano
do poder tende a provocar desgaste. No caso de Lula, porém,
e esse é o outro ponto preocupante, chama atenção
a velocidade do seu desgaste perante a opinião pública.
No último trimestre do ano passado, a confiança no
presidente caiu apenas 1 ponto porcentual. Agora caiu 9. "É
resultado da crise política e do crescimento negativo da
economia", analisa Carlos Montenegro, presidente do Ibope.
Lalo de Almeida/Folha Imagem
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TUDO
PARADO
Jovem aguarda em fila para obter um emprego no metrô
de São Paulo (acima), e centenas de caminhões
esperam o fim da greve no Porto de Paranaguá, litoral
paranaense (abaixo): o país, apesar de tudo, não
parou, e nada está mais paralisado que o próprio
governo |
Albari Rosa/Gazeta do Povo/AE
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"O
cenário de pessimismo moderado verificado na pesquisa anterior,
realizada em dezembro passado, evoluiu para um cenário de
forte pessimismo em relação a questões como
desemprego, inflação e renda", diz a apresentação
da pesquisa CNI-Ibope. A constatação é incômoda
para o governo, pois mostra que a população está
fazendo prognósticos negativos sobre seu futuro imediato.
O dado mais desconfortável é quanto ao desemprego.
Entre os entrevistados de todas as classes sociais, 54% dizem que
o desemprego deve aumentar. Há três meses, 47% diziam
a mesma coisa. Quando se faz um corte nos resultados classificando-os
por densidade populacional e, portanto, eleitoral ,
o que se vê é que o descontentamento é maior
nas cidades com mais de 100.000 habitantes.
Ali, 53% das pessoas responderam aos pesquisadores do Ibope que
o país "está no caminho errado". Como sempre ocorre
nesse tipo de pesquisa, especialmente quando assume um tom negativo
para os governantes, o porcentual de pessoas insatisfeitas é
maior entre a classe média alta e os brasileiros com curso
superior completo. Nessa faixa de entrevistados, nada menos que
63% das pessoas fizeram menções negativas espontâneas
ao escândalo envolvendo Waldomiro Diniz e, por tabela, a seu
patrono no governo, José Dirceu.
O
presidente Lula deixou-se engessar por uma crise menor. Diniz trabalhava
com o ministro José Dirceu, na Casa Civil, mas era um funcionário
de terceiro escalão e foi pilhado numa traficância
chinfrim ocorrida há dois anos, quando comandava a estatal
de loterias do Rio de Janeiro. É um caso muito mais distante
do coração do governo do que o velho escândalo
do Sivam, que também veio à tona no início
da gestão de Fernando Henrique Cardoso, no qual um graduado
assessor do Palácio do Planalto foi grampeado e pego fazendo
lobby em favor de uma empresa estrangeira num negócio superior
a 1 bilhão de dólares. O caso sacudiu o governo tucano
e, ainda que tenha sido mais grave, acabou resolvido sem que o Palácio
do Planalto entrasse em colapso ou que a popularidade de FHC desabasse.
O caso Waldomiro Diniz, embora esteja há longas seis semanas
na parada, continua quase do mesmo tamanho que tinha no início.
Descobriu-se que, além do achaque ao bicheiro, Waldomiro
pode ter tentado fazer uma negociata à custa da empresa GTech,
que trabalha na área de loterias para a Caixa Econômica.
Mas nenhum fato apareceu apresentando indícios de que Dirceu
estivesse mancomunado com seu ex-assessor. Apesar de ter origem
num episódio aparentemente isolado, tratando do mau comportamento
de um servidor, a crise não é debelada. Ao contrário,
fica cada vez pior.
Na
semana passada, o presidente saiu de sua apatia em relação
à crise, mas sua iniciativa não poderia ser mais desanimadora
do que foi. Lula aventou a possibilidade de criar o Ministério
da Administração, uma forma de arrancar o governo
da paralisia em que se encontra e dar cabo da crise. Diante da vastidão
de um programa sério capaz de fazer a administração
pública andar, falar em criar mais um órgão
burocrático chega a ser quase cômico. É uma
amostra do grau de perplexidade e atonia do governo do PT diante
dos desafios mais comezinhos propostos a qualquer administração
federal. Lula não é o primeiro presidente a sacar
um ministério do bolso sempre que precisa dar sinais de que
a máquina está funcionando. Mas sua obsessão
com a idéia anacrônica e simplista de que a cada problema
nacional deve corresponder um ministério é um mau
sinal. O problema do Brasil, refletido nas últimas pesquisas
de opinião, é justamente o contrário. As pessoas
dizem claramente aos pesquisadores que querem menos impostos, menos
burocracia, mais incentivo aos negócios e menos dor de cabeça
oficial para que suas pequenas e médias empresas não
sejam obrigadas a fechar as portas.
No
plano retórico, Lula valeu-se de um recurso que era simpático
no início do governo e, hoje, não convence mais ninguém.
Trata-se do apelo ao verbo, ao discurso oco, para tentar convencer
a platéia de alguma coisa cara ao Palácio do Planalto.
Durante uma audiência que concedeu a representantes do movimento
hip hop, disse que a crise atual é culpa dos "conservadores".
Seria uma frase enigmática, se não fosse simplesmente
sem sentido. A crise começou com gente ligada ao PT. Depois
que ela se estabeleceu, foi esquentada por uma nota pública
do partido, exigindo mudanças na política econômica
um tiro de canhão no Ministério da Fazenda.
Por fim, aliados do PT ajudaram a ativar as labaredas da fogueira,
fazendo declarações desastrosas contra o governo,
como a do deputado Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, que
simplesmente pediu a demissão do ministro Antonio Palocci.
Pergunta: onde estão os "conservadores"? E quem são
eles? Os banqueiros, que têm aplaudido o governo Lula? Os
velhos caciques da política de raízes oligárquicas,
como os senadores José Sarney e Antonio Carlos Magalhães,
que têm sido fiéis aliados do governo? Mistério.
Uma
das razões que alimentam a crise está justamente na
percepção pública de que o governo mergulhou
numa inquietante letargia de amplo espectro uma paralisia
política, administrativa, gerencial, burocrática.
Em qualquer área que se examine, o governo oferece exemplos
de ineficiência. Em alguns casos, chega a ser vexaminoso,
como no programa Primeiro Emprego. Passados cinco meses de sua execução,
o programa gerou apenas 577 empregos. Ou seja: tem criado, em média,
menos de quatro empregos por dia. É um saldo tão diminuto
que envergonharia muitas prefeituras. O pior é que o programa,
incluído entre as chamadas "prioridades máximas" do
governo, trata de uma questão central para a economia do
país e para o bem-estar da sociedade: o desemprego. Na semana
passada, a taxa nacional, medida pelo IBGE, chegou ao patamar de
12% um porcentual bastante elevado. No campo da paralisia
governamental, há problemas de toda ordem: entraves burocráticos,
escassez de recursos, divergências internas, além de
uma pitada de incompetência e um misto de bagunça com
falta de senso de urgência.
Na
semana passada, VEJA verificou como estão evoluindo alguns
programas incluídos na planilha de "prioridades máximas"
do governo, assim definidas na primeira reunião ministerial
deste ano, em fevereiro. Dos oito programas examinados pela revista,
apenas um funciona a contento. É o programa Luz para Todos,
cujo objetivo é eliminar para usar um jargão
petista a "exclusão elétrica" nos próximos
cinco anos. Sob o comando da ministra Dilma Rousseff, das Minas
e Energia, o programa estava previsto para começar neste
ano. O surpreendente é que já começou. Lançado
em quatro Estados, chegará a outros sete nesta semana. É
algo de uma agilidade ímpar num governo em que tudo
mesmo programas prioritários e em áreas particularmente
sensíveis se arrasta por meses a fio, oscilando da
euforia inicial para o completo esquecimento em poucos meses. Em
fevereiro de 2003, quando uma onda de crimes coordenados dentro
de prisões assustou o Rio de Janeiro, o Ministério
da Justiça prometeu construir cinco presídios federais
de segurança máxima. O edital para a construção
do primeiro deles saiu só na semana passada.
O
Ministério do Meio Ambiente, comandado por Marina Silva,
é conhecido entre os próprios ministros como "buraco
negro". Ou seja: caiu ali, não volta mais. Desde o início
do governo, esperava-se que a ministra Marina concedesse a licença
ambiental para o início da construção de 1.200
quilômetros de gasodutos no país. Uma antiga lei ambiental,
promulgada nos anos 70 do século passado, exige que cada
gasoduto tenha um imenso pedaço de terra desocupada a seu
redor um naco tão grande que, hoje, inviabiliza esse
projeto. O que fez a ministra Marina Silva? Nada. Na semana passada,
o presidente Lula convocou-a para resolver o problema de uma vez
por todas. Na reunião, ficou decidido que o governo mandará
em caráter de urgência, e ainda nesta semana
um projeto ao Congresso Nacional propondo mudanças
na velha lei ambiental, de tal modo que vai ser possível
a construção dos gasodutos. Será um investimento
de 1 bilhão de reais e poderá gerar cerca de 40.000
empregos diretos e indiretos. Simples, não?
Um
dos programas que tocam mais o coração do presidente
Lula é a distribuição de uniformes escolares
aos alunos das escolas públicas. Lula fala disso desde a
campanha. A meta oficial é chegar ao ano 2008 distribuindo
os kits com uniformes a todos os alunos do ensino fundamental da
rede pública ou seja, 37 milhões de estudantes.
Até agora, porém, o Ministério da Educação
se enrolou de tal modo na burocracia do projeto editais de
licitação, pesquisa de preço, tecidos e tintas
que não foi distribuído nem um único
kit. Se tudo der certo, mas certo mesmo, talvez o primeiro uniforme
seja fornecido no segundo semestre deste ano. Talvez. A paralisia
é tanta que, na semana passada, o governo lançou uma
campanha publicitária de 8 milhões de reais com o
slogan "O trabalho sério já começa a dar resultados",
enquanto, nos bastidores do governo, o presidente Lula se dedicava
a uma inédita rodada de reuniões com ministros para
identificar os gargalos da administração federal.
Um
dos ministros mais solicitados pelo presidente foi Guido Mantega,
do Planejamento, um tenaz concorrente da ministra Marina Silva para
ver quem leva o troféu da paralisia. O primeiro encontro
do presidente com Guido Mantega, a quem o ministro da Agricultura,
Roberto Rodrigues, nega ter chamado de "vagabundo", num desabafo
feito a um grupo de parlamentares na semana retrasada, ocorreu na
segunda-feira e deu resultado. Dois dias depois, Mantega
anunciou a abertura de quatro concursos públicos entre
eles o dos fiscais da Agricultura que Roberto Rodrigues reivindicava
havia cinco meses, sem sucesso. A situação é
tão grave que até os programas sociais mais badalados
do governo, como o Bolsa-Família, uma das estrelas da campanha
publicitária que irá ao ar nesta semana, não
escaparam da letargia. Nos dois primeiros meses deste ano, o programa,
que já contempla 3,6 milhões de famílias, simplesmente
parou. Não teve a inclusão de nenhuma família
carente. Até o meio do ano, a meta é incluir mais
900.000 famílias. Se o ritmo atual
não for consistentemente turbinado, adeus, meta. Com dois
terços de seu governo pela frente, Lula tem uma árdua
tarefa. Precisa recuperar a autoridade pessoal, amplamente delegada
a José Dirceu e agora perdida em meio à crise do ex-homem
forte. Depois disso, tem de começar a governar o país
e empreender um rumo claro a sua administração. Até
que isso ocorra, as próximas pesquisas devem dar apenas desgosto
ao Palácio do Planalto.
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Retratos
da paralisia do governo
FÉRIAS COMPULSÓRIAS
Fabio Motta/AE
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Em Mato Grosso do Sul, existe uma mina de ferro e manganês
que vem sendo explorada desde 1908. Hoje em dia, ela
está sob o comando da Vale do Rio Doce, mas seus
500 trabalhadores estão prestes a entrar em férias
compulsórias. Isso porque a ministra do Meio
Ambiente, Marina Silva (foto), cancelou a licença
de exploração até que a Vale pague
uma compensação por danos ambientais.
Coisa de uns 4 milhões de reais. Na Justiça,
a empresa ganhou o direito de renovar a licença
de exploração da mina independentemente
do pagamento da compensação ambiental.
O Ibama, porém, reafirma que uma coisa está
ligada à outra e passado um ano nada se
resolveu .
FARMÁCIAS
EMPERRADAS
Na
campanha eleitoral, o PT prometeu criar uma rede de
farmácias populares que venderia remédios
a preços inferiores aos de mercado. A promessa,
qualificada como prioridade, seria implementada em março
do ano passado. Não deu. Em dezembro, o ministro
da Saúde, Humberto Costa, pensou em lançar
o programa, mas adiou para janeiro. Em janeiro não
houve lançamento algum. Em março, o início
do programa foi novamente adiado porque o Palácio
do Planalto, consultado pelo ministro, achou que seria
constrangedor divulgar ao país que, quinze meses
depois da posse, só estão prontas cinco
farmácias populares em duas cidades. O governo,
assim, decidiu esperar que o número engorde um
pouco.
NOS
ÚLTIMOS MINUTOS
Helvio Romero/AE
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Em março do ano passado, o Ministério
da Previdência fez um concurso para o cargo de
técnico do INSS e contratou 3 800 pessoas. O
resultado do exame tinha validade por um ano. Em setembro,
a Previdência precisou contratar mais 1 300 técnicos,
e podia fazê-lo entre os aprovados naquela seleção.
Pediu autorização ao ministro do Planejamento,
Guido Mantega (foto). O pedido foi feito uma,
duas, três, dezenas de vezes e nada. Na
semana passada, faltando três dias para o fim
da validade do concurso, a autorização
saiu no Diário Oficial. Antes, é
claro, os funcionários do INSS fizeram paralisação
pedindo, entre outras reivindicações,
a contratação de mais técnicos.
VIOLANDO
AS
METAS
No ano passado, o ministro Miguel Rossetto, do
Desenvolvimento Agrário, tinha como meta assentar
60 000 famílias de trabalhadores rurais sem terra.
A meta, embora considerada modesta, não foi cumprida.
Só 36 300 famílias foram beneficiadas.
Neste ano, o objetivo é assentar 115 000 famílias,
mas, até agora, completado o primeiro trimestre
do ano, Rossetto contemplou apenas 6 900 famílias.
Se o trabalho permanecer nesse ritmo, o governo só
conseguirá chegar ao número de 115 000
famílias lá pelo começo do ano
de 2008. A reforma agrária, curiosamente, está
entre as "prioridades máximas" do governo, elencadas
no dia 10 de fevereiro passado.
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