|
|
Entrevista:
Lawrence
Summers
Educar
dá lucro
O
ex-secretário do Tesouro
americano
e atual reitor de Harvard fala
do papel
do ensino num mundo globalizado

Carlos
Graieb
Secretário
do Tesouro americano na fase final do governo Bill Clinton, o economista
Lawrence Summers, de 49 anos, assumiu um desafio bem diferente em
julho de 2001: transformou-se em reitor de Harvard, a mais antiga
e renomada universidade dos Estados Unidos. Nesse novo cargo, ele
logo se engajou numa de suas atividades preferidas, a polêmica.
Summers pôs em questão o sistema de notas da universidade,
que considerou generoso demais, e comprou briga com os principais
professores negros da instituição ao envolver-se num
debate sobre ação afirmativa tudo isso antes
de completar seis meses no emprego. Desde então, mantém-se
em evidência propugnando planos ambiciosos para modificar
a cultura de Harvard, bem como sua administração.
Se o tema da educação se transformou numa obsessão
para Summers, isso não significa que ele tenha abandonado
seus interesses no campo da economia e da política internacional.
Nesta quarta-feira, 31, ele desembarca no Brasil para encontros
com políticos e intelectuais e uma palestra sobre globalização
e livre-comércio. Antes da viagem, Summers falou a VEJA.
Veja
O ensaísta inglês C.P. Snow escreveu, ainda
nos anos 50, que o mundo das artes e o das ciências não
tinham contato um com o outro. A situação melhorou
desde então?
Summers Gosto de pensar que sim. Creio que
nas últimas décadas vimos nascer, em boa parte fomentada
pelas universidades, uma espécie de terceira cultura, que
não é a das ciências físicas e biológicas,
nem a da compreensão estética, mas a cultura da reflexão
analítica. Ela está por trás do melhor pensamento
político exercitado hoje em dia, das melhores práticas
de gestão e consultoria empresarial e dos tratados internacionais
mais bem costurados.
Veja
O senhor concorda com a tese, exposta por alguns intelectuais,
de que as únicas idéias dignas desse nome têm
sido postas em circulação por pessoas que se ocupam
da inovação científica ou tecnológica?
Summers Não creio que as ciências humanas
estejam assim tão exauridas. Enquanto falamos, antropólogos
forjam uma nova identidade para grupos que foram tradicionalmente
marginalizados em nossas sociedades. Filósofos contribuem
para o nosso entendimento da mente humana. Estudantes de estética
tratam de ampliar nosso cânone artístico e literário.
Há, enfim, muita coisa interessante em andamento, e isso
me deixa inclinado a discordar da tese que você apontou. Mesmo
que nada disso estivesse acontecendo, porém, eu ainda veria
outro motivo para não fazer pouco das humanidades. A questão
é a seguinte: enquanto as ciências se vêem às
voltas com questões diferentes a cada geração,
a área de humanas lida com questões eternas e nos
põe em contato com o nosso passado. Lembro-me sempre de uma
conferência proferida pelo general George Marshall em Princeton,
em 1947, na qual ele dizia que a melhor maneira de contemplar o
futuro da Europa depois da II Guerra Mundial seria estudar a Guerra
do Peloponeso. Ele tinha razão, pois o conflito entre atenienses
e espartanos no mundo antigo acabou se convertendo num paralelo
fascinante para o mundo dividido pela Guerra Fria. Quase todos os
erros políticos que cometemos têm entre suas componentes
alguma falha séria de avaliação histórica
e cultural. Se aqueles que nos levaram à Guerra do Vietnã
tivessem lido um pouco mais os romances de Joseph Conrad e um pouco
menos de análises de sistemas, teriam sido mais sábios
em suas decisões. As humanidades fazem falta.
Veja
A universidade moderna está educando pessoas aptas
a lidar com um mundo marcado por fenômenos como a globalização
e a renovação tecnológica acelerada?
Summers Não tenho certeza de que já
chegamos lá. É por isso que Harvard está revisando
muitos de seus currículos, e pretende fazer isso de maneira
contínua. Num mundo em transformação tão
rápida, talvez ensinar como aprender seja mais importante
do que ensinar conteúdos específicos.
Veja
Os mercados de trabalho também estão em
mutação acelerada. As universidades estão formando
profissionais aptos a vencer nessas circunstâncias?
Summers Em Harvard temos um sistema duplo.
Nos anos de graduação, evitamos o treinamento vocacional
específico e lidamos com a concepção de que
uma educação ampla e variada é o ideal. Mas,
quando o aluno chega à pós-graduação,
ao momento de formar-se profissionalmente, responder às necessidades
do mercado passa a ser fundamental. É por isso que nossas
faculdades de administração e direito se esforçam
para manter os laços mais estreitos possíveis com
o mercado e que nossa escola de políticas públicas
mantém em seu quadro docente um grande número de ex-políticos
e ex-burocratas, que se dedicam ao trabalho de formar novos líderes.
Veja
A onda do politicamente correto varreu as universidades
americanas nos anos 90. Quais foram suas conseqüências?
Summers Em qualquer país, preconceitos e maneiras
ofensivas de pensar ficam entranhados na linguagem e nas instituições
sem às vezes nos darmos conta disso. O legado mais positivo
do politicamente correto foi chamar atenção para esse
fato e nos tornar mais atentos para as situações em
que ofendíamos inadvertidamente um grupo ou uma minoria.
Por outro lado, é importante que, numa universidade, possamos
ver as coisas como elas são e tenhamos a liberdade de expressar
qualquer ponto de vista, ainda que ele seja ultrajante para alguns.
No ambiente acadêmico, qualquer opinião deve passar
pelo teste do debate, e ser mantida ou descartada por seus méritos,
não porque alguém disse que ela é aceitável
ou inaceitável a priori. O politicamente correto tentou estabelecer
códigos do que era apropriado pensar e dizer e, nesse sentido,
foi muito nefasto.
Veja
Está em estudo no Brasil a adoção
de um sistema de cotas para alunos negros nas universidades. O que
é fundamental num sistema como esse?
Summers Esse é um campo em que é muito
difícil fazer generalizações, pois as circunstâncias
locais e o histórico do relacionamento entre as raças
contam muito. Uma vez que se chegue à conclusão de
que a raça é um fator importante na maneira como as
pessoas têm acesso à escola, o sistema de cotas passa
a ser uma alternativa interessante, desde que acompanhado de medidas
que assegurem que o aluno, depois de aceito, vai poder vivenciar
o processo educacional de uma maneira rica.
Veja
As universidades americanas sempre estiveram abertas a
estudantes estrangeiros. O que mudou depois do 11 de Setembro?
Summers O acolhimento de estudantes estrangeiros mudou
depois do 11 de Setembro, não tanto pelas universidades,
mas por causa das novas políticas de emissão de vistos.
Surgiram imperativos de segurança que são bastante
reais, e é importante respeitá-los. Ainda assim, as
dificuldades enfrentadas por estudantes estrangeiros para vir aos
Estados Unidos me deixam muito incomodado. O custo desse fenômeno
pode ser muito alto para nós. Não há meio mais
efetivo de os Estados Unidos influenciarem o resto do mundo do que
receber estudantes estrangeiros de braços abertos em suas
universidades. Quando emitimos o sinal de que esses estudantes não
são mais bem-vindos, prejudicamos não apenas a competitividade
de nosso sistema de educação superior, não
apenas nossa habilidade de fomentar o conhecimento, mas sobretudo
nossa habilidade de propagar valores e ideais.
Veja
Recentemente, o senhor disse que os Estados Unidos se
encontram numa situação paradoxal: seu poder está
no auge, mas sua influência é baixíssima. Como
escapar dessa situação?
Summers Em sua relação com o resto do
mundo, os Estados Unidos precisam buscar legitimidade, e não
apenas controle. Temos de colaborar com as outras nações,
em vez de tentar submetê-las sempre. Temos de usar o que Joseph
Nye chamou de "soft power" (poder suave). É muito mais fácil
induzir os outros a querer o que você quer do que coagi-los
a fazer o que você deseja. Essa é uma lição
que nós, como sociedade, ainda temos de aprender. É
uma lição importante para o âmbito da diplomacia,
e mais ainda para o âmbito do relacionamento entre as instituições
americanas sejam elas universidades, corporações
ou ONGs e suas equivalentes estrangeiras.
Veja
O déficit de conta corrente dos Estados Unidos
explodiu no governo Bush. Por quanto tempo essa situação
pode ser mantida?
Summers Esse déficit é uma grande preocupação,
e é preciso lutar com afinco para combatê-lo. Ele cria
uma dependência de capitais estrangeiros, restringe a capacidade
de investimento americana, traz pressões protecionistas,
complica a administração da economia em todo o mundo.
É preciso tomar medidas urgentes para aumentar a poupança
interna e assim reduzir esse déficit.
Veja
A ortodoxia econômica do atual governo brasileiro
tem sido muito criticada por preservar a estabilidade à custa
do crescimento acelerado. Os críticos têm razão?
Summers Em seu escopo geral, essas medidas adotadas
já no governo de Fernando Henrique Cardoso estão certas.
Elas criam as bases de uma prosperidade que, no entanto, não
chegará de maneira imediata. Infelizmente, não existe
atalho para o crescimento. O rumo deve ser mantido por quanto tempo
for necessário.
Veja
De que maneira educação e sucesso econômico
estão relacionados no mundo de hoje?
Summers De maneira direta, tanto para os indivíduos
quanto para os países. Nos mercados de trabalho nacionais,
as recompensas para aqueles que têm capacidade de aprender
e aplicar seus conhecimentos não param de aumentar. No mercado
global, a qualidade da mão-de-obra de um país tornou-se
um fator central no cálculo das empresas, quando elas têm
de decidir onde investir seu dinheiro.
Veja
Qual o grande desafio para as pessoas envolvidas com política
educacional na atualidade?
Summers Falo como americano, mas creio que minha resposta
se aplica a inúmeros países, inclusive o Brasil. O
grande desafio, a meu ver, é garantir que, numa sociedade
marcada por grandes desigualdades econômicas, crianças
dos estratos sociais mais pobres tenham as mesmas oportunidades
de acesso à educação que crianças dos
estratos sociais mais ricos. Nos Estados Unidos isso não
está acontecendo. Nas últimas décadas, o vão
entre a parcela da população que tem maior renda e
o restante da sociedade aumentou muito neste país. Isso se
refletiu em todos os níveis do sistema educacional, das escolas
públicas de ensino fundamental às universidades tradicionais
como Harvard. Hoje em dia, universidades com sistemas de seleção
rigorosos registram apenas 10% de estudantes cujas famílias
pertencem à metade inferior da pirâmide de renda. É
uma situação bem pior que a de 25 anos atrás.
Num sistema baseado sobretudo no mérito, muitos estudantes
oriundos de famílias pobres ou remediadas acabariam matriculados
nessas instituições. Mas não é o que
se passa, por causa dos fatores econômicos. Ora, ao negarmos
o princípio da igualdade de oportunidades, estamos negando
um dos valores fundamentais da sociedade americana. Ao retirarmos
daqueles que nasceram em ambientes desfavorecidos uma das principais
ferramentas de ascensão social, a educação,
estaremos minando o espírito de todo o nosso sistema liberal.
Pensando nesse problema, instituímos recentemente em Harvard
uma série de medidas que incentivam estudantes talentosos
de famílias pobres a inscrever-se na universidade. A principal
delas consiste em isentar famílias cuja renda anual seja
no máximo de 40 000 dólares do custo das mensalidades.
Mas essa é apenas uma iniciativa isolada. É preciso
encarar o problema de maneira global.
Veja
Que conselhos o senhor daria a um país como o Brasil,
que está pensando em reformular o seu sistema universitário?
Summers Não sei se posso dar conselhos, mas
tenho uma agenda de temas cuja discussão é indispensável.
A questão dos métodos de gestão, por exemplo,
é fundamental, pois é algo a que os financiadores
em potencial estão cada vez mais atentos. É importante
evitar que universidades sejam geridas como uma fábrica ou
uma repartição burocrática qualquer, assim
como a idéia oposta, de que elas são tão-somente
um coletivo de pessoas voltadas para a busca do saber. É
importante aceitar e até favorecer a competição
entre as diversas universidades de um país, seja por bons
professores, seja por bons alunos, pois isso promove a qualidade
do ensino de maneira geral. É importante mirar ao mesmo tempo
dois objetivos: a educação humanística geral
e a educação profissionalizante. É importante,
finalmente, lutar contra certos hábitos que vêm de
muito longe. Como, por exemplo, a tendência a relegar o conhecimento
científico a segundo plano, ou aprisioná-lo em compartimentos
fechados. Inovações tecnológicas e temas da
biologia, por exemplo, deveriam estar na pauta de discussões
de todos os departamentos de uma universidade, inclusive os chamados
"departamentos de humanas", pois eles são temas fundamentais
para quem vive no século XXI.
|