Edição 1847 . 31 de março de 2004

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Entrevista: Lawrence Summers
Educar dá lucro

O ex-secretário do Tesouro americano
e
atual reitor de Harvard fala do papel
do ensino
num mundo globalizado


Carlos Graieb

Secretário do Tesouro americano na fase final do governo Bill Clinton, o economista Lawrence Summers, de 49 anos, assumiu um desafio bem diferente em julho de 2001: transformou-se em reitor de Harvard, a mais antiga e renomada universidade dos Estados Unidos. Nesse novo cargo, ele logo se engajou numa de suas atividades preferidas, a polêmica. Summers pôs em questão o sistema de notas da universidade, que considerou generoso demais, e comprou briga com os principais professores negros da instituição ao envolver-se num debate sobre ação afirmativa – tudo isso antes de completar seis meses no emprego. Desde então, mantém-se em evidência propugnando planos ambiciosos para modificar a cultura de Harvard, bem como sua administração. Se o tema da educação se transformou numa obsessão para Summers, isso não significa que ele tenha abandonado seus interesses no campo da economia e da política internacional. Nesta quarta-feira, 31, ele desembarca no Brasil para encontros com políticos e intelectuais e uma palestra sobre globalização e livre-comércio. Antes da viagem, Summers falou a VEJA.

Veja – O ensaísta inglês C.P. Snow escreveu, ainda nos anos 50, que o mundo das artes e o das ciências não tinham contato um com o outro. A situação melhorou desde então?
Summers – Gosto de pensar que sim. Creio que nas últimas décadas vimos nascer, em boa parte fomentada pelas universidades, uma espécie de terceira cultura, que não é a das ciências físicas e biológicas, nem a da compreensão estética, mas a cultura da reflexão analítica. Ela está por trás do melhor pensamento político exercitado hoje em dia, das melhores práticas de gestão e consultoria empresarial e dos tratados internacionais mais bem costurados.

Veja – O senhor concorda com a tese, exposta por alguns intelectuais, de que as únicas idéias dignas desse nome têm sido postas em circulação por pessoas que se ocupam da inovação científica ou tecnológica?
Summers –
Não creio que as ciências humanas estejam assim tão exauridas. Enquanto falamos, antropólogos forjam uma nova identidade para grupos que foram tradicionalmente marginalizados em nossas sociedades. Filósofos contribuem para o nosso entendimento da mente humana. Estudantes de estética tratam de ampliar nosso cânone artístico e literário. Há, enfim, muita coisa interessante em andamento, e isso me deixa inclinado a discordar da tese que você apontou. Mesmo que nada disso estivesse acontecendo, porém, eu ainda veria outro motivo para não fazer pouco das humanidades. A questão é a seguinte: enquanto as ciências se vêem às voltas com questões diferentes a cada geração, a área de humanas lida com questões eternas e nos põe em contato com o nosso passado. Lembro-me sempre de uma conferência proferida pelo general George Marshall em Princeton, em 1947, na qual ele dizia que a melhor maneira de contemplar o futuro da Europa depois da II Guerra Mundial seria estudar a Guerra do Peloponeso. Ele tinha razão, pois o conflito entre atenienses e espartanos no mundo antigo acabou se convertendo num paralelo fascinante para o mundo dividido pela Guerra Fria. Quase todos os erros políticos que cometemos têm entre suas componentes alguma falha séria de avaliação histórica e cultural. Se aqueles que nos levaram à Guerra do Vietnã tivessem lido um pouco mais os romances de Joseph Conrad e um pouco menos de análises de sistemas, teriam sido mais sábios em suas decisões. As humanidades fazem falta.

Veja – A universidade moderna está educando pessoas aptas a lidar com um mundo marcado por fenômenos como a globalização e a renovação tecnológica acelerada?
Summers –
Não tenho certeza de que já chegamos lá. É por isso que Harvard está revisando muitos de seus currículos, e pretende fazer isso de maneira contínua. Num mundo em transformação tão rápida, talvez ensinar como aprender seja mais importante do que ensinar conteúdos específicos.

Veja – Os mercados de trabalho também estão em mutação acelerada. As universidades estão formando profissionais aptos a vencer nessas circunstâncias?
Summers – Em Harvard temos um sistema duplo. Nos anos de graduação, evitamos o treinamento vocacional específico e lidamos com a concepção de que uma educação ampla e variada é o ideal. Mas, quando o aluno chega à pós-graduação, ao momento de formar-se profissionalmente, responder às necessidades do mercado passa a ser fundamental. É por isso que nossas faculdades de administração e direito se esforçam para manter os laços mais estreitos possíveis com o mercado e que nossa escola de políticas públicas mantém em seu quadro docente um grande número de ex-políticos e ex-burocratas, que se dedicam ao trabalho de formar novos líderes.

Veja – A onda do politicamente correto varreu as universidades americanas nos anos 90. Quais foram suas conseqüências?
Summers – Em qualquer país, preconceitos e maneiras ofensivas de pensar ficam entranhados na linguagem e nas instituições sem às vezes nos darmos conta disso. O legado mais positivo do politicamente correto foi chamar atenção para esse fato e nos tornar mais atentos para as situações em que ofendíamos inadvertidamente um grupo ou uma minoria. Por outro lado, é importante que, numa universidade, possamos ver as coisas como elas são e tenhamos a liberdade de expressar qualquer ponto de vista, ainda que ele seja ultrajante para alguns. No ambiente acadêmico, qualquer opinião deve passar pelo teste do debate, e ser mantida ou descartada por seus méritos, não porque alguém disse que ela é aceitável ou inaceitável a priori. O politicamente correto tentou estabelecer códigos do que era apropriado pensar e dizer e, nesse sentido, foi muito nefasto.

Veja – Está em estudo no Brasil a adoção de um sistema de cotas para alunos negros nas universidades. O que é fundamental num sistema como esse?
Summers – Esse é um campo em que é muito difícil fazer generalizações, pois as circunstâncias locais e o histórico do relacionamento entre as raças contam muito. Uma vez que se chegue à conclusão de que a raça é um fator importante na maneira como as pessoas têm acesso à escola, o sistema de cotas passa a ser uma alternativa interessante, desde que acompanhado de medidas que assegurem que o aluno, depois de aceito, vai poder vivenciar o processo educacional de uma maneira rica.

Veja – As universidades americanas sempre estiveram abertas a estudantes estrangeiros. O que mudou depois do 11 de Setembro?
Summers – O acolhimento de estudantes estrangeiros mudou depois do 11 de Setembro, não tanto pelas universidades, mas por causa das novas políticas de emissão de vistos. Surgiram imperativos de segurança que são bastante reais, e é importante respeitá-los. Ainda assim, as dificuldades enfrentadas por estudantes estrangeiros para vir aos Estados Unidos me deixam muito incomodado. O custo desse fenômeno pode ser muito alto para nós. Não há meio mais efetivo de os Estados Unidos influenciarem o resto do mundo do que receber estudantes estrangeiros de braços abertos em suas universidades. Quando emitimos o sinal de que esses estudantes não são mais bem-vindos, prejudicamos não apenas a competitividade de nosso sistema de educação superior, não apenas nossa habilidade de fomentar o conhecimento, mas sobretudo nossa habilidade de propagar valores e ideais.

Veja – Recentemente, o senhor disse que os Estados Unidos se encontram numa situação paradoxal: seu poder está no auge, mas sua influência é baixíssima. Como escapar dessa situação?
Summers – Em sua relação com o resto do mundo, os Estados Unidos precisam buscar legitimidade, e não apenas controle. Temos de colaborar com as outras nações, em vez de tentar submetê-las sempre. Temos de usar o que Joseph Nye chamou de "soft power" (poder suave). É muito mais fácil induzir os outros a querer o que você quer do que coagi-los a fazer o que você deseja. Essa é uma lição que nós, como sociedade, ainda temos de aprender. É uma lição importante para o âmbito da diplomacia, e mais ainda para o âmbito do relacionamento entre as instituições americanas – sejam elas universidades, corporações ou ONGs – e suas equivalentes estrangeiras.

Veja – O déficit de conta corrente dos Estados Unidos explodiu no governo Bush. Por quanto tempo essa situação pode ser mantida?
Summers – Esse déficit é uma grande preocupação, e é preciso lutar com afinco para combatê-lo. Ele cria uma dependência de capitais estrangeiros, restringe a capacidade de investimento americana, traz pressões protecionistas, complica a administração da economia em todo o mundo. É preciso tomar medidas urgentes para aumentar a poupança interna e assim reduzir esse déficit.

Veja – A ortodoxia econômica do atual governo brasileiro tem sido muito criticada por preservar a estabilidade à custa do crescimento acelerado. Os críticos têm razão?
Summers – Em seu escopo geral, essas medidas adotadas já no governo de Fernando Henrique Cardoso estão certas. Elas criam as bases de uma prosperidade que, no entanto, não chegará de maneira imediata. Infelizmente, não existe atalho para o crescimento. O rumo deve ser mantido por quanto tempo for necessário.

Veja – De que maneira educação e sucesso econômico estão relacionados no mundo de hoje?
Summers – De maneira direta, tanto para os indivíduos quanto para os países. Nos mercados de trabalho nacionais, as recompensas para aqueles que têm capacidade de aprender e aplicar seus conhecimentos não param de aumentar. No mercado global, a qualidade da mão-de-obra de um país tornou-se um fator central no cálculo das empresas, quando elas têm de decidir onde investir seu dinheiro.

Veja – Qual o grande desafio para as pessoas envolvidas com política educacional na atualidade?
Summers – Falo como americano, mas creio que minha resposta se aplica a inúmeros países, inclusive o Brasil. O grande desafio, a meu ver, é garantir que, numa sociedade marcada por grandes desigualdades econômicas, crianças dos estratos sociais mais pobres tenham as mesmas oportunidades de acesso à educação que crianças dos estratos sociais mais ricos. Nos Estados Unidos isso não está acontecendo. Nas últimas décadas, o vão entre a parcela da população que tem maior renda e o restante da sociedade aumentou muito neste país. Isso se refletiu em todos os níveis do sistema educacional, das escolas públicas de ensino fundamental às universidades tradicionais como Harvard. Hoje em dia, universidades com sistemas de seleção rigorosos registram apenas 10% de estudantes cujas famílias pertencem à metade inferior da pirâmide de renda. É uma situação bem pior que a de 25 anos atrás. Num sistema baseado sobretudo no mérito, muitos estudantes oriundos de famílias pobres ou remediadas acabariam matriculados nessas instituições. Mas não é o que se passa, por causa dos fatores econômicos. Ora, ao negarmos o princípio da igualdade de oportunidades, estamos negando um dos valores fundamentais da sociedade americana. Ao retirarmos daqueles que nasceram em ambientes desfavorecidos uma das principais ferramentas de ascensão social, a educação, estaremos minando o espírito de todo o nosso sistema liberal. Pensando nesse problema, instituímos recentemente em Harvard uma série de medidas que incentivam estudantes talentosos de famílias pobres a inscrever-se na universidade. A principal delas consiste em isentar famílias cuja renda anual seja no máximo de 40 000 dólares do custo das mensalidades. Mas essa é apenas uma iniciativa isolada. É preciso encarar o problema de maneira global.

Veja – Que conselhos o senhor daria a um país como o Brasil, que está pensando em reformular o seu sistema universitário?
Summers – Não sei se posso dar conselhos, mas tenho uma agenda de temas cuja discussão é indispensável. A questão dos métodos de gestão, por exemplo, é fundamental, pois é algo a que os financiadores em potencial estão cada vez mais atentos. É importante evitar que universidades sejam geridas como uma fábrica ou uma repartição burocrática qualquer, assim como a idéia oposta, de que elas são tão-somente um coletivo de pessoas voltadas para a busca do saber. É importante aceitar e até favorecer a competição entre as diversas universidades de um país, seja por bons professores, seja por bons alunos, pois isso promove a qualidade do ensino de maneira geral. É importante mirar ao mesmo tempo dois objetivos: a educação humanística geral e a educação profissionalizante. É importante, finalmente, lutar contra certos hábitos que vêm de muito longe. Como, por exemplo, a tendência a relegar o conhecimento científico a segundo plano, ou aprisioná-lo em compartimentos fechados. Inovações tecnológicas e temas da biologia, por exemplo, deveriam estar na pauta de discussões de todos os departamentos de uma universidade, inclusive os chamados "departamentos de humanas", pois eles são temas fundamentais para quem vive no século XXI.

 
 
 
 
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