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Em
foco: Gustavo Franco
A
economia global
e o Brasil
"Diferentemente
do que se dizia no passado
sobre economias pejorativamente chamadas
de "periféricas", condenadas à mediocridade,
esses países estão ricos ou enriquecendo velozmente"
Uma
fotografia simplificada da economia global, vista bem lá
de cima, mostraria um sistema de trocas entre grandes blocos, no
qual se destacam uma economia dita "central", os Estados Unidos,
e duas áreas monetárias periféricas, que vamos
chamar de "Oriente" e "Ocidente". Diferentemente do que se dizia
no passado sobre economias pejorativamente chamadas de "periféricas",
condenadas à mediocridade, os países nesses grupos
estão ricos ou enriquecendo velozmente.
Ilustração Ale Setti
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Parados estão os países "desintegrados", ou isolados
da economia global, geralmente porque preferem assim.
A
América Latina, junto com Canadá, Austrália
e Nova Zelândia, faz parte da "periferia ocidental", cujo
principal componente, todavia, é a Europa, aí incluídos
a Rússia e seus antigos satélites.
Esse
bloco tem superávit com o "Centro" e mantém taxas
de câmbio flexíveis com relação ao dólar.
Os "ocidentais", titulares dos dólares excedentes nessa região,
e que o governo não compra (por isso mesmo o câmbio
flutua), tendem a usá-los fazendo investimentos nos EUA,
principalmente em ações e títulos de empresas
privadas.
A
Ásia, que também tem superávit com o "Centro",
funciona um pouco diferente: lá o câmbio é controlado,
bem como a conta de capitais, e o governo absorve os dólares
que sobram, acumulando reservas que usa para comprar títulos
do Tesouro americano.
Ou
seja, o "Centro" compra mercadorias da "periferia asiática"
e paga com instrumentos de sua própria dívida, que
se vai acumulando nos bancos centrais da Ásia; já
as mercadorias e ativos (empresas) que compra da "periferia ocidental"
são pagos, tipicamente, com o produto da venda de ativos
privados.
Não
é um mundo tão complicado, tampouco parece instável
como o "sistema" que ruiu em 1971, quando o dólar, quem diria,
sofreu um ataque especulativo e foi forçado a flutuar. Mas
estamos vivendo algumas tensões.
Tudo
começou com um novo governo republicano no "Centro", que
resolveu praticar políticas expansionistas (fiscal especialmente)
e com isso ampliou seu déficit em conta corrente a partir
de 2001 para algo na faixa de 400 bilhões de dólares
anuais, um recorde.
Metade
desse "rombo" tem sido absorvida em aumentos de reservas na Ásia
sem maiores problemas e sem alteração substancial
nas taxas de câmbio entre as várias moedas da região
e o dólar. Todas, com exceção do iene, continuam
fortemente subvalorizadas, o que tende a se corrigir com o tempo.
No
"Ocidente", que absorve a outra metade do déficit americano,
a dinâmica é diversa: os dólares do superávit
acabam vendidos para quem se dispuser a adquirir ativos nos EUA,
que vão ficando baratos por força do enfraquecimento
do dólar, o que por sua vez tende a reduzir o déficit
americano, mantidos os juros nos EUA. Nessa toada, as "periferias",
a "ocidental" em particular, vão se integrando ao "Centro".
Assim
tem sido na Europa, onde o euro se valoriza e a comunidade aumenta,
e, em boa medida, também no Brasil, que está diante
da Alca.
Aqui
há os que acham que deveríamos seguir um figurino
"oriental", com mais desvalorização cambial, controles,
poupança forçada, investimento público e afastamento
do "Ocidente". É curioso: o mais perto que chegamos disso
foi durante o "regime de exceção" comandado pelo general
Geisel. Muita gente de esquerda, por estranho que pareça,
sente saudade.
O
fato é que hoje nos parecemos mais com a Espanha que com
a Coréia ou a China. Como o restante da "periferia ocidental",
estamos sentindo uma pressão para o fortalecimento do real,
porém duas oitavas abaixo do que se observa com o euro, em
parte porque a economia doméstica não anda muito vibrante,
em parte porque o noticiário político está
vibrante demais.
Mas,
se essas vibrações se equilibrarem, a tendência
é retomar um caminho de progressão semelhante ao da
Espanha. Não temos as diretrizes nem os imperativos políticos
criados pela unificação européia, mas sabemos
bem quais são as reformas necessárias para a "convergência".
A nos impedir de aprová-las só existe nossa incapacidade
de enxergar, e aproveitar, a oportunidade.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central (gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br )
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