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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Pac, pac, pac, pac
O virtual
e o real, nos
mundos encantados
da moda e dos planos do governo
Lula
E lá veio o governo Lula
pac, pac, pac, pac com novo número de ilusionismo.
Na mesma semana pac, pac, pac,
pac , lá vieram as meninas da São Paulo Fashion
Week com seu mundo encantado. Esse último "pac, pac, pac,
pac" vai em honra do andar das moças na passarela. É
um andar esquisito, em que os pés avançam no rumo
contrário à posição que ocupam no corpo,
o pé esquerdo em direção à direita,
e o direito em direção à esquerda. O perigo
de os pés se embaraçarem, o esquerdo enlaçando-se
no direito e o direito no esquerdo, como cipós que se confundem
ao cair da árvore, é permanente. Ainda mais que o
avanço se dá no passo apressado de quem não
tem um minuto a perder. Calculada com um pouco menos de perícia,
a manobra pode resultar num movimento exótico como o da famosa
foto de Jânio Quadros, um pé em desacordo radical e
irreparável com o outro, o dono dos pés equilibrando-se
fragilmente sobre estruturas fora de controle. No limite, pode provocar
tombos. É um espanto, um milagre do santo protetor das modelos,
que não ocorram tombos, muitos tombos, nos desfiles de moda.
No fim de cada desfile, as modelos
avançam em tropel pac, pac, pac, pac pela passarela,
todas agora reunidas. É o fecho de ouro, a apoteose, e a
palavra "tropel" não está aí por acaso. O passo
em marcha batida, que provoca um andar aos pulinhos, e cujo modelo
no reino animal é o trote dos cavalos, multiplica-se agora
num tropel de cavalgada. É a carga da cavalaria ligeira.
Num ambiente que não fosse a passarela numa rua, num
parque, numa praia , uma investida dessa magnitude, vinda
em direção contrária, provocaria pânico.
Um esbarrão, e a vítima sairá, para usar a
expressão de Nelson Rodrigues, com arranques de cão
atropelado. A situação é agravada pela fisionomia
das moças fechada, ameaçadora. Elas estão
sempre bravas, muito bravas.
Deve haver alguma razão
para isso. Presume-se que os inventores dos desfiles de moda sabiam
o que estavam fazendo. Mas, para um leigo, o mais intrigante aspecto
dessa atividade é a fisionomia imposta às moças.
Elas não podem sorrir. A testa e os maxilares se congelam
em pétrea mensagem de desprezo. Dos olhos escapam chispas
de ódio. Tão novinhas, e já tão mal-encaradas.
Elas não gostam do que estão fazendo? Estão
sendo vilmente forçadas por pessoas que nos bastidores as
empurram, aos pontapés e chicotadas, a uma função
que só lhes causa desgosto? As caras fechadas são
tão mais chocantes quanto prevalece, no senso comum, a idéia
de que o mundo da moda é um mundo leve, feito de requintes
e prazeres.
O desfile não são
só as moças. Há as idéias, os temas,
assim como as escolas de samba têm os enredos. Uma das coleções
expostas na semana passada em São Paulo se dizia inspirada
em "fragmentos do tempo, especialmente o futuro". Outra se apresentou
como "Amazon Guardians: uma brigada urbana contra a degradação
do meio ambiente". Como se vê, variou-se da filosófica
especulação sobre os mistérios do tempo a uma
bandeira como a da ecologia, nesse caso reforçada pela expressão
em inglês, Amazon Guardians, no lugar de ordinários
Guardiães da Amazônia. Outra coleção
se apresentou com o tema "A força da natureza como fuga ao
caos urbano. O escapismo. A força espiritual". A imaginação
ou "criatividade", como se diz, com abusada desconsideração
por essa maltratada e malversada palavra tem seu modelo na
imaginação dos carnavalescos. E por falar em carnaval...
O governo Lula pac, pac,
pac, pac armou para o anúncio de seu Programa de Aceleração
do Crescimento o clima de superprodução tão
a seu gosto. Todos os governadores foram convocados, quase todos
compareceram, mais os ministros e os líderes do Congresso
e dos partidos. Foi o ponto culminante de um febril trabalho de
alfaiataria nos bastidores do governo. Nas semanas anteriores, vasculharam-se
armários e gavetas das estatais e dos ministérios,
juntou-se tudo o que havia ali em matéria de projetos, acrescentaram-se
alguns (poucos) novos e pronto a soma, embalada como se desde
a origem se constituísse num conjunto harmônico, foi
apresentada como a coleção de verão do governo.
Vai dar certo? O PAC do governo
é igual ao "pac, pac" das passarelas. Entre os comentaristas
da moda, uma palavra muito usada é "aposta". Um estilista
aposta nas saias curtas. Outro aposta no romantismo.
Houve um, nos desfiles da semana passada, que apostou em vestidos
inspirados em sacos de lixo. São exercícios ao léu.
Se pegar, pegou. No PAC, igualmente, o que pegar pegou. Se tal ou
qual projeto conseguir se transformar em realidade, melhor. O próprio
PAC, em si mesmo, é um balão marqueteiro jogado ao
léu. Para transpor-se do mundo virtual para o real, tem pela
frente um caminho tão cheio de incógnitas quanto,
para transpor-se das passarelas para as ruas, o têm o vestido
inspirado nos sacos de lixo ou (outra peça apresentada na
semana passada) o véu inspirado na burca muçulmana
para cobrir o rosto das mulheres.
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