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Edição 1993 . 31 de janeiro de 2007

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Auto-retrato
Michael Christensen

Roberto Setton


O americano Michael Christensen, de 60 anos, foi o primeiro artista a levar o ambiente do circo para dentro de um hospital. Na pele do médico-palhaço Doutor Stubs, ele fundou em 1986 a Clown Care Unit, uma ONG destinada a alegrar crianças internadas. A iniciativa inspirou muitas outras ao redor do mundo – entre elas os Doutores da Alegria, no Brasil. Em visita a São Paulo, ele concedeu a seguinte entrevista à repórter Paula Neiva.

COMO SURGIU A IDÉIA DE LEVAR O CIRCO PARA DENTRO DO HOSPITAL?
Em 1985, meu irmão morreu de câncer. Pouco antes de ficar doente, numa feira de antiguidades, ele viu uma maleta de médico e me deu de presente. Ele imaginou que, no futuro, eu poderia usá-la em alguma apresentação. Um ano depois de sua morte, recebi o telefonema de uma senhora que, depois de assistir a um de meus espetáculos, me convidou para fazer uma apresentação para crianças internadas. Lembrei-me da maleta e criei o personagem Doutor Stubs. A reação foi tão boa que pedi para visitar as crianças que não puderam ir ao auditório do hospital. Foi assim que nasceu a Clown Care Unit.

COMO LIDAR COM A ANGÚSTIA DOS PAIS DESSAS CRIANÇAS?
Essa é uma situação extremamente delicada. É difícil para esses pais distanciar-se do problema, da ansiedade de estar com um filho doente. Por isso, a ajuda de outras pessoas é essencial. Quando levamos o riso para um quarto de hospital, é como se déssemos permissão aos pais para se descontrair um pouco, deixar as tensões de lado, ao menos por alguns momentos, e relaxar. Faz bem a eles ver a criança alegre – entrar em contato com a parte saudável do filho que ainda está lá.

QUAL A SITUAÇÃO MAIS DELICADA QUE O GRUPO JÁ ENFRENTOU?
O parente de uma criança que acabara de morrer pediu a dois de nossos atores que se aproximassem. "Não podemos fazer mais nada", pensaram. Mesmo assim eles foram. A mãe estava sentada com o bebê morto no colo. Ela olhou para aquele casal vestido de palhaço e pediu a eles que cantassem algo que ajudasse seu filho "na travessia". Ao som de uma flauta e de um acordeão, eles cantaram The Daring Young Man on the Flying Trapeze (O Homem Jovem e Ousado sobre o Trapézio Voador). Vejo essa cena como um quadro, um poema de enorme beleza.

QUAL A REAÇÃO DOS MÉDICOS À CLOWN CARE UNIT?
No início do programa, certa vez, numa UTI, um médico me disse: "Palhaços não pertencem a este lugar". E eu respondi: "Nem as crianças". Mas a maioria nos apóia. Eles sabem que as crianças que sorriem sentem-se mais seguras, têm menos medo e são mais fáceis de tratar. Um dos episódios mais bonitos presenciados por nós aconteceu na sala de fisioterapia de um hospital infantil. Uma menina de 8 anos chamada Maria, em atendimento havia meses porque não conseguia abrir as mãos, fazia fisioterapia. As outras crianças começaram a prestar atenção. Num determinado momento, o médico propôs a Maria que empurrasse um carrinho e simulasse fazer compras num supermercado. Outra garotinha, que não conseguia andar, pediu para participar da brincadeira. Para satisfazer o desejo da colega, Maria, como se nunca tivesse tido nenhum problema de saúde, abriu as mãos, segurou o carrinho e levou o brinquedo até a outra menina. Todos na sala ficaram atônitos.

COMO FUNCIONA O PROJETO PARA IDOSOS RECÉM-CRIADO PELO SENHOR?
É um pouco diferente do programa com crianças. Não há palhaços, mas personagens. Muitos idosos são descartados pelos parentes, que não vêem mais utilidade neles. Quando eles se sentem úteis, sua qualidade de vida melhora muito. Uma vez, encontramos um idoso irlandês jogado numa cama. Os atores disseram que queriam saber como era uma música típica de seu país. Um minuto e meio depois, ele estava sentado na cama, cantando a plenos pulmões, animado. As pessoas são alimentadas pela alegria.

 
 
 
 
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