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Auto-retrato
Michael Christensen
Roberto Setton
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O americano Michael Christensen, de 60 anos, foi o primeiro artista
a levar o ambiente do circo para dentro de um hospital. Na pele
do médico-palhaço Doutor Stubs, ele fundou em 1986
a Clown Care Unit, uma ONG destinada a alegrar crianças internadas.
A iniciativa inspirou muitas outras ao redor do mundo entre
elas os Doutores da Alegria, no Brasil. Em visita a São Paulo,
ele concedeu a seguinte entrevista à repórter Paula
Neiva.
COMO SURGIU A IDÉIA
DE LEVAR O CIRCO PARA DENTRO DO HOSPITAL?
Em 1985, meu irmão morreu de câncer. Pouco antes de
ficar doente, numa feira de antiguidades, ele viu uma maleta de
médico e me deu de presente. Ele imaginou que, no futuro,
eu poderia usá-la em alguma apresentação. Um
ano depois de sua morte, recebi o telefonema de uma senhora que,
depois de assistir a um de meus espetáculos, me convidou
para fazer uma apresentação para crianças internadas.
Lembrei-me da maleta e criei o personagem Doutor Stubs. A reação
foi tão boa que pedi para visitar as crianças que
não puderam ir ao auditório do hospital. Foi assim
que nasceu a Clown Care Unit.
COMO LIDAR COM A ANGÚSTIA
DOS PAIS DESSAS CRIANÇAS?
Essa é uma situação extremamente delicada.
É difícil para esses pais distanciar-se do problema,
da ansiedade de estar com um filho doente. Por isso, a ajuda de
outras pessoas é essencial. Quando levamos o riso para um
quarto de hospital, é como se déssemos permissão
aos pais para se descontrair um pouco, deixar as tensões
de lado, ao menos por alguns momentos, e relaxar. Faz bem a eles
ver a criança alegre entrar em contato com a parte
saudável do filho que ainda está lá.
QUAL A SITUAÇÃO
MAIS DELICADA QUE O GRUPO JÁ ENFRENTOU?
O parente de uma criança que acabara de morrer pediu a dois
de nossos atores que se aproximassem. "Não podemos fazer
mais nada", pensaram. Mesmo assim eles foram. A mãe estava
sentada com o bebê morto no colo. Ela olhou para aquele casal
vestido de palhaço e pediu a eles que cantassem algo que
ajudasse seu filho "na travessia". Ao som de uma flauta e de um
acordeão, eles cantaram The Daring Young Man on the Flying
Trapeze (O Homem Jovem e Ousado sobre o Trapézio Voador).
Vejo essa cena como um quadro, um poema de enorme beleza.
QUAL A REAÇÃO
DOS MÉDICOS À CLOWN CARE UNIT?
No início do programa, certa vez, numa UTI, um médico
me disse: "Palhaços não pertencem a este lugar". E
eu respondi: "Nem as crianças". Mas a maioria nos apóia.
Eles sabem que as crianças que sorriem sentem-se mais seguras,
têm menos medo e são mais fáceis de tratar.
Um dos episódios mais bonitos presenciados por nós
aconteceu na sala de fisioterapia de um hospital infantil. Uma menina
de 8 anos chamada Maria, em atendimento havia meses porque não
conseguia abrir as mãos, fazia fisioterapia. As outras crianças
começaram a prestar atenção. Num determinado
momento, o médico propôs a Maria que empurrasse um
carrinho e simulasse fazer compras num supermercado. Outra garotinha,
que não conseguia andar, pediu para participar da brincadeira.
Para satisfazer o desejo da colega, Maria, como se nunca tivesse
tido nenhum problema de saúde, abriu as mãos, segurou
o carrinho e levou o brinquedo até a outra menina. Todos
na sala ficaram atônitos.
COMO FUNCIONA O PROJETO PARA
IDOSOS RECÉM-CRIADO PELO SENHOR?
É um pouco diferente do programa com crianças. Não
há palhaços, mas personagens. Muitos idosos são
descartados pelos parentes, que não vêem mais utilidade
neles. Quando eles se sentem úteis, sua qualidade de vida
melhora muito. Uma vez, encontramos um idoso irlandês jogado
numa cama. Os atores disseram que queriam saber como era uma música
típica de seu país. Um minuto e meio depois, ele estava
sentado na cama, cantando a plenos pulmões, animado. As pessoas
são alimentadas pela alegria.
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