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CINEMA

Divulgação

As Coisas Simples da Vida: ângulos inusitados


As Coisas Simples da Vida
(Yi Yi, Taiwan/Japão, 2000). Desde quinta-feira em São Paulo e a partir do dia 2 no Rio) – "O que é isso?", espanta-se o tio do menino Yang-Yang, ao ser presenteado com uma foto de sua própria nuca. "É a parte de trás da sua cabeça. Como você nunca a vê, eu a estou mostrando para você", argumenta o garoto. É isso também o que o diretor Edward Yang faz com a platéia. Ele retrata, muitas vezes por ângulos inusitados, as pequenas e grandes atribulações que compõem o dia-a-dia de uma família de Taiwan. A estrutura do filme é curiosa. Em vez de usar o recurso do flashback para abordar o passado dos protagonistas, o diretor encena no presente os episódios que eles viveram há muitos anos. Por exemplo, a paixão do garoto Yang-Yang por uma coleguinha de escola espelha o amor que seu pai, o quarentão N.J., experimentou na mesma época da vida. Convém avisar, no entanto, que a fita tem três horas e é muito lenta.

 

LIVROS

As Minas de Salomão, de Rider Haggard (tradução de Eça de Queiroz; Hedra; 190 páginas; 18 reais) – Grande sucesso de vendas no século XIX e inspiração para diversos filmes no século XX, esse romance tem por cenário a África, onde colonizadores empreendem uma caça ao tesouro. Leitura divertida, o livro também revela muito sobre a mentalidade imperialista: Haggard aproveita qualquer deixa para reafirmar a superioridade dos ingleses em relação aos "bárbaros". Eça de Queiroz (ele mesmo, o autor de Os Maias) deu cabo da tradução com notável desprendimento: cortou vários trechos e ainda modificou a personalidade do herói, tornando-o "mais refinado".

Leviatã, de Paul Auster (tradução de Rubens Figueiredo; Companhia das Letras; 312 páginas; 29,50 reais) – Esse romance já havia sido lançado no Brasil anteriormente, numa edição cheia de erros. Agora, por nova editora, ele volta a circular em tradução bem cuidada. O título faz referência ao texto clássico do filósofo inglês Thomas Hobbes, segundo o qual um Estado poderoso seria a única maneira de ordenar a vida em sociedade. Auster retoma a idéia em chave irônica, numa espécie de acerto de contas com o onipotente governo americano. Do lançamento da bomba atômica até o fim da era Reagan, a história política dos EUA serve de pano de fundo para a relação entre dois escritores: Peter Aaron, o protagonista, e Benjamin Sachs, cuja morte misteriosa dá início à trama.

 

INFANTIL

Os Risadinhas, de Roddy Doyle (tradução de Anthony Cleaver; Estação Liberdade; 112 páginas; 23 reais) – Esse é o primeiro livro juvenil de um dos maiores escritores irlandeses da atualidade. Autor de obras aclamadas, como Paddy Clarke Ha Ha Ha e The Commitments (que deu origem ao filme de mesmo título), Doyle mostra que subestimar a inteligência das crianças é um tremendo equívoco. Ele usa de ironia, cria enredos paralelos e faz cortes no tempo da história, mas com tal habilidade que em nenhum momento o texto se torna chato ou difícil. Pelo contrário: das brincadeiras com a forma sai boa parte da graça da história, que fala sobre criaturinhas adeptas de um método insólito para castigar pais briguentos. A edição é caprichada e traz ilustrações divertidas.

 

DISCO

Divulgação
Berimbrown: grupo mistura funk e tambores de congado mineiro


Berimbrown,
Berimbrown (Independente) – Nos anos 90, os roqueiros brasileiros descobriram os ritmos regionais, adicionando doses de maracatu e até de forró ao rock. O grupo Berimbrown propõe agora uma nova receita: tempera o funk e a soul music com berimbau e instrumentos típicos do congado mineiro. A mistura é interessante – e a dança está garantida. Em seu disco de estréia, o grupo recria uma canção do soulman James Brown (Payback) e apresenta boas músicas de própria lavra, como Zé Pereira Meu Brother. Mas o melhor do CD fica por conta do soulman carioca Gerson King Combo, convidado pela banda para ressuscitar seu sucesso Mandamentos Black.

 

LITERATURA BRASILEIRA

Concerto para corda e pescoço
Rocco,
125 páginas,
18 reais

A certa altura de seu terceiro livro, Concerto para Corda e Pescoço, o carioca Mauro Pinheiro enxertou um capítulo "metalingüístico" – daqueles que discutem a própria literatura. Trata-se do encontro entre dois romancistas. Um deles, o narrador da história, concluiu a duras penas sua primeira obra, mas, como está sem dinheiro e sonha em visitar o filhinho, que se mudou com a mãe para a França, cogita de vendê-la para o segundo escritor. Este último é velho, medíocre e sofre há anos de bloqueio criativo. Está em dívida com seu editor e por isso decide comprar o livro inédito do desconhecido e publicá-lo como se fosse seu. Enquanto ambos negociam, o autor mais velho tece considerações desiludidas sobre a literatura no Brasil. Quanto aos autores mais novos, ele é implacável. Acusa-os de ter digerido mal o nouveau roman e de ter sido contaminados pela linguagem cinematográfica. Além disso, não se preocupam com o conteúdo de seus livros – sem recheio, "são uns pastéis de vento".

Interpretar o romance a partir dessa passagem é uma tentação praticamente irresistível. Pois Mauro Pinheiro colocou na fala do velho escritor boa parte dos argumentos que um leitor mal-humorado poderia dirigir contra ele. Seu gosto literário, não resta dúvida, foi construído à base de leituras do nouveau roman francês, possivelmente alternadas com livros da geração beat americana. Sua técnica narrativa, feita de cortes e flashes, certamente deve muito ao cinema. E, quanto ao conteúdo, seu livro lida somente com o cotidiano mais banal. Mas é claro que existe um contraponto. O velho escritor é patético, hipócrita e está metido numa maracutaia. Não é fácil ver nele um guardião dos bons valores literários – e nesse ponto é preciso elogiar a ironia de Pinheiro, que soube montar uma situação divertida, na qual o veneno e o antídoto estão disponíveis ao mesmo tempo.

Infelizmente, porém, depois de completar a leitura do livro, a sensação que fica é de que as opiniões do velho são mais fortes do que o desagrado que ele possa provocar com sua falta de caráter. Sem grandes ousadias formais, nostálgico de referências literárias que parecem já pertencer ao passado e, principalmente, tomado por uma melancolia e por um apego ao comezinho, o livro de Mauro Pinheiro não desperta entusiasmo. Pode não ser um "pastel de vento". Mas certamente não é memorável.

Carlos Graieb

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Sulina, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Livraria Curitiba, Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Leitura, Siciliano.

 

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