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Roberto Pompeu de Toledo

O circo de todos
os desatinos

Uma palavra de consolo ao imitador
de Guilherme
Tell que errou o alvo:
"Jamet amigo, você não está só"

Pode ocorrer desastre profissional pior do que o que ocorreu a Alain Jamet? O francês Jamet é um cinqüentão de cabelos até os ombros, que costuma – ou costumava – se apresentar metido numa roupa escura, botas e luvas. Seu instrumento de trabalho era uma besta, aquela arma antiga, feita de um arco e uma corda que se retesa, para disparar flechas. A profissão de Jamet é – ou era – a de circense, e sua especialidade praticar o tiro ao alvo contra uma moldura humana. Qual seja, Alain Jamet fazia-se de Guilherme Tell. Em vez de maçã usava uma laranja, em vez do filho punha a laranja sobre a cabeça da mulher, Catherine, e reproduzia o número que tanto suspense – trtrtr!, soavam os tambores – causava na platéia. Catherine, de 39 anos, apresentava-se num modelo parecido com o do marido. Uma roupinha preta que lhe deixava as pernas de fora, luvas, botas até os joelhos. Há treze anos – praticamente desde que se conheceram, num mercado na cidade normanda de Caen – eles encenavam o número, e o levaram em andanças sem conta, mundo afora. Sempre com sucesso. Difícil decidir o que mais admirar, se a precisão milimétrica da pontaria de Jamet, se o sangue-frio de Catherine. Até que...

Até que no último dia 14, durante o Festival Mundial do Circo, que se desenrolava em Paris, deu-se o que tantas vezes se teme, mas nunca acontece. Jamet atirou e... Um grito. Catherine continuava ajoelhada, na posição em que habitualmente ficava para o número, mas... Foi difícil compreender, a princípio, o que ocorria. A flecha atravessara-lhe a cabeça! A própria Catherine, num movimento reflexo, arrancou a flecha. Depois caiu. Fora atingida pouco abaixo do olho. Catherine escapou com vida do episódio. Na semana passada não corria mais perigo. Jamet diz que só não queimou a besta, as flechas, as roupas, e tudo, porque esse material vale algum dinheiro, e ele quer vendê-lo para começar outra vida. Não atirará mais.

Se se conta esta história, aqui, é para lembrar a que descaminhos pode ser arrastada uma pessoa quando usurpada, por um momento que seja, um fugaz mas fatídico momento, das habilidades com que mais foi distinguida na vida. Um Guilherme Tell que perde a pontaria é um caso de patético aniquilamento de si mesmo, um cão que perde os dentes, ou gato que perde as unhas. Imagine-se quantos males do mesmo gênero podem acometer um circo. Imagine-se, só por imaginar, pois a imaginação é livre, uma contorcionista que se vê atacada de cãibras. Ela geme, durante o número, dá cabriolas, para tentar aplacar a dor, depois urra, quando não agüenta mais... Imagine-se o trapezista fulminado pela vertigem. Ele tampa os olhos, agarra-se às cordas como um náufrago à tábua. Ou então o domador que adquire um medo pânico dos leões. Sua frio, empalidece, treme, implora: "Mamãe!, mamãe!" Agora é a vez do equilibrista na corda bamba, e ele sofre um ataque de labirintite. Vem o malabarista e quebra todos os pratos que, espetados numa haste, deveria fazer girar como piões, na ponta dos dedos, na testa e na boca. Todos esses profissionais, e mais Alain Jamet, reunidos num só espetáculo, comporiam o circo de todos os desatinos. Para boa parte da platéia, esse sim seria o verdadeiro circo, pois o que se deseja mesmo é vê-lo pegar fogo. Para completar, o palhaço... não, não que o palhaço perca a graça, pois eles nunca têm graça. Para completar, o palhaço não provoca mais aquela tristeza de costume. Em vez disso, fica engraçado!

Pode-se imaginar muitas outras situações em que, por imperícia ou azar, advenham desastrosos efeitos, para diferentes profissionais. Imagine-se uma stripper que, traída por adversas correntes de ar, não pára de espirrar e precisa cobrir-se. Ou um crítico gastronômico vitimado pela anorexia. Imagine-se agora, num outro plano, menos sujeito às fortuitas investidas do acaso, mas a vírus mais inerentes a certas categorias profissionais, chefes de governo a quem o poder deixa cegos, juízes a quem a toga castra o senso moral, legisladores em quem... Mas isso, dirá o leitor, não precisa imaginar: já existe. Sim, e existe o médico cujo exibicionismo mata mais que as infecções, e economista cujos planos de salvação nacional ocasionam mais fome que praga de gafanhotos. Existe até jornalista que, aboletado na última página de certas revistas, julga-se credenciado a apontar o dedo para os defeitos dos profissionais que lhe desfilam à frente.

Tudo isso é para dizer que Alain Jamet não está sozinho. O grande circo de todos os desatinos está armado aqui mesmo. O mundo como um todo é o território livre dos trapezistas com tontura, dos contorcionistas com cãibras, dos domadores com medo. Ou, então, dos atiradores que erram a laranja e acertam o olho da própria mulher. No caso de Jamet, tão logo se deu o desastre, e a infeliz Catherine foi retirada do palco, os palhaços entraram em cena. O espetáculo tinha de continuar. Por aqui, ao contrário, não está escrito em nenhum lugar que o espetáculo tem de continuar. E, no entanto, continua.

 

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