Eco ao
ego
É
o que Woody Allen faz em
Poucas e Boas
Isabela
Boscov
Se alguém ainda acredita que os verdadeiros artistas
são necessariamente pessoas "elevadas", Woody Allen
está aí para desfazer essa ilusão. No
ótimo Poucas e Boas (Sweet and Lowdown,
Estados Unidos, 1999), que estréia nesta sexta-feira
em São Paulo e outras capitais, ele adota o tom de
documentário para "reviver" a trajetória do
fictício Emmet Ray (interpretado por Sean Penn), que
só não é o maior guitarrista de swing
dos anos 30 porque o cigano Django Reinhardt reina absoluto.
Emmet, aliás, tem o tique inconveniente de desmaiar
sempre que está na presença do rival, tanta
a emoção de pressentir um gênio maior
que o seu. O protagonista é, de fato, um grande artista
mas é também ignorante, covarde, oportunista
e, no geral, um ser humano patético. Obrigado a fazer
economia, ele sugere à namorada, uma pobre lavadeira
muda, que abandone seu médico e passe a consultar um
veterinário. Allen, que é um egocêntrico
assumido, deita e rola com essa história. Sean Penn
também se encontrou no filme. Conhecido por ser tão
"difícil" quanto talentoso, ele carrega na caricatura,
mas sem nunca torná-la irritante. É um de seus
melhores desempenhos nos últimos anos. Como Emmet,
porém, ele é obrigado a enfrentar um Django:
a novata inglesa Samantha Morton, que interpreta a moça
muda, consegue roubar boa parte das cenas e sem dizer
uma palavra.
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