Evangelho
moderninho
Como
os Beatles viraram os apóstolos
de uma revolução
Isabela
Boscov
Lá se vai o tempo em que Beatles Os Reis
do Iê-Iê-Iê (A Hard Day's Night,
Inglaterra, 1964) dispensava esse "Beatles" explicatório
no início do título ou que o termo iê-iê-iê
ainda fazia parte do vocabulário corrente. Mas isso
não é desculpa para encarar este relançamento
(a partir de sexta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro,
em cópia restaurada e remasterizada) como uma peça
de bricabraque. Melhor é vê-lo como uma espécie
de primeiro capítulo do evangelho que revolucionou
o século XX. Sua mensagem: ser jovem não é
mofar no limbo que separa a infância da maturidade.
É, sim, estar no paraíso da libertação,
da rebeldia, da falta de compromisso. É claro que os
Beatles (ou os Rolling Stones, ou Elvis Presley) não
inventaram essa idéia. Mas foram seus apóstolos
mais inspirados e, de longe, os mais magnéticos.
Rodado num preto-e-branco cheio de estilo, esse misto de pastelão
e nouvelle vague transporta a platéia para a época
em que viver a juventude ainda era uma novidade eletrizante.
Toda a ação se passa ao longo de um dia. Os
Beatles embarcam num trem (acompanhados, veja só, do
avô de Paul), gravam um especial para a TV, aprontam
muito, exasperam os "mais velhos", confundem os jornalistas
com suas respostas mordazes e atraem multidões de mocinhas
histéricas a beatlemania, é bom lembrar,
já estava varrendo o planeta. As canções,
como A Hard Day's Night, I Should Have Known Better
e Can't Buy Me Love, continuam acima do bem e do mal.
Do ponto de vista do cinema, o resultado oscila entre o criativo
e o passável. Como testamento, é incomparável.
Embora ainda estivessem em sua fase ingênua, os Beatles
já dão mostras do que se seguiria. Não
só as experiências místicas, alucinógenas
e musicais de álbuns como Revolver e Sgt.
Pepper's, como também as fraturas que levariam
à sua separação, em 1970. A juventude,
infelizmente, dura pouco.
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