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O boêmio em fase
cor-de-rosa

Cícero Dias, o pintor brasileiro que foi
amigo de Pablo Picasso, é uma atração
à parte no verão pernambucano

João Gabriel de Lima, do Recife

 
Alexandre Belém
Cícero Dias, na praça que ele mesmo projetou: explicando aos passantes que a rosa-dos-ventos é uma referência a Dante

A cidade do Recife teve, durante o mês de janeiro, um guia turístico inusitado. Quem fosse visitar o novo cartão-postal da cidade, a Praça do Marco Zero, recentemente reurbanizada, corria o risco de ser abordado por um nonagenário apoiado numa bengala: "O que o senhor achou do desenho da praça? Fui eu que fiz". Depois disso, vinha uma detalhada explicação de como aquela rosa-dos-ventos estilizada estampada no chão era inspirada em Dante Alighieri e sua concepção concêntrica do universo. O mesmo cicerone poderia ser encontrado nos principais eventos da noite recifense, como a festa de lançamento da folhinha de borracheiro de Valéria Valenssa, num restaurante chique da cidade. "Você é a verdadeira escultura brasileira", cochichou o veterano galanteador no ouvido da estonteante Globeleza, para depois arrematar, sem nenhuma sutileza: "Você é a mulher que eu queria ter na minha cama todas as noites". A cantada explícita fez os respectivos cônjuges, a francesa Raymonde e o austríaco Hans Donner, sorrirem amarelo.

Muitos dos que toparam com o nonagenário alegre não sabiam, mas estavam diante daquele que é provavelmente o maior pintor brasileiro vivo: Cícero Dias, último remanescente do modernismo, que escandalizou o país nos anos 30 pintando nus bem mais ousados que os de Valéria Valenssa em sua folhinha. Com 93 anos bem vividos, ele é do tempo em que as palavras "boêmio" e "artista" eram sinônimas. Como pintor, está praticamente aposentado, embora tenha interrompido seu descanso para criar o desenho que hoje adorna a Praça do Marco Zero. Como boêmio, continua em grande forma. Cícero, que acorda todos os dias por volta do meio-dia para poder dormir tarde, ainda é adepto de noitadas, desde que encontre companheiros dispostos a ajudá-lo a se locomover. Com problemas nas pernas, ele freqüentemente usa uma cadeira de rodas. Em Paris, onde mora até hoje, ou no Recife, onde constantemente passa férias, não falta quem queira levar Cícero para a gandaia. Os companheiros de bar esbaldam-se de rir com as tiradas do artista. "Aqui no Recife só bebo uísque de segunda. Por uma questão de lógica. O consumo de scotch em Pernambuco é maior do que a produção escocesa, o que significa que a maioria das garrafas vem do Paraguai", troça ele.

Prodígio com as tintas desde a infância, passada num engenho de cana-de-açúcar, Cícero aprendeu cedo que não bastava ter habilidade com os pincéis. Conviver com as turmas certas ajudava bastante. Estudante da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro nos anos 20, ele logo começou a freqüentar o Café Simpatia, numa esquina da Avenida Rio Branco. Lá, exercitava sua lábia com os escritores Manuel Bandeira e Murilo Mendes e os sociólogos Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre – Cícero seria o ilustrador da primeira edição do clássico Casa-Grande & Senzala. Em 1931, irrompeu no cenário modernista com o painel Eu Vi o Mundo... Ele Começava no Recife, uma tela de 15 metros de largura por 2,5 de altura, que chamava a atenção pelo tamanho e pela ousadia. Exibida no Salão Nacional de Belas Artes daquele ano, incluía entre suas imagens oníricas nus frontais escandalosos para a época. Os modernistas de São Paulo adoraram e admitiram Cícero em seu grupo. Foi Paulo Prado, mecenas da turma de Mário de Andrade, quem patrocinou a ascensão do pintor à primeira divisão da boemia. Em 1937, ele deixava o Café Simpatia para conquistar os bares de Paris.

De noitada em noitada, Cícero fez amigos como o espanhol Pablo Picasso. Durante anos, o telefone do malaguenho em Paris permaneceu em nome de Cícero. Picasso queria evitar os importunos que corriam atrás dele. Em retribuição, deu um quadro ao amigo pernambucano. Cícero vendeu a tela e com isso comprou um belo apartamento na cidade, onde passou a residir. Era o auge das vanguardas, e as diversas escolas se digladiavam. "Era complicado cumprimentar alguém na rua, porque você nunca sabia se ele ainda era um companheiro ou tinha passado para outro lado", lembra o artista. Cícero foi amigo do poeta francês Paul Éluard, brigou com o papa do surrealismo André Breton por causa dele, e tomou o partido de Mário na querela com Oswald de Andrade. Hoje todos são unanimidades – inclusive Cícero. Um óleo seu pode chegar a 100.000 dólares e uma gravura a 60.000, na avaliação de Jones Bergamin, da Bolsa de Arte do Rio de Janeiro. "Ninguém perde investindo em Cícero Dias. A valorização de suas obras é lenta e segura", afirma o especialista em mercado. Proporcionalmente, o Cícero das gravuras e desenhos é até mais valorizado que o Cícero pintor. Bem de vida, o artista dá-se ao luxo de não se preocupar com dinheiro. Deixa a administração de seus bens nas mãos da mulher e usufrui quanto pode de bons vinhos, bons restaurantes, boas companhias. Por onde anda, seja Recife ou Paris, leva com ele um pedaço do estilo de vida dos loucos anos 20 e 30. Privar de sua companhia é como entrar numa máquina do tempo.

 

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