Ao vivo,
mas não muito
Chocado porque Britney Spears usa
playback? Pois saiba que o pessoal
da terra também o faz
Sérgio
Martins
Márcio Mercante
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| Sandy
e Junior, no Rock in Rio: código de gestos e guitarra
de mentirinha |
O
playback é um velho truque dos programas de TV. Trata-se,
basicamente, do emprego de dublagem: o artista finge cantar,
mas na verdade o que se ouve é sua voz gravada. Os
espectadores já se acostumaram e nenhuma emissora faz
segredo ao usar playback até porque muitos auditórios
não têm espaço para instrumentos musicais
nem acústica para uma boa apresentação.
Em shows, no entanto, a história é diferente.
Quem paga o ingresso quer ouvir música ao vivo. Por
isso causou tanto escândalo uma apresentação
como a da loirinha Britney Spears no Rock in Rio 3. Ela dançou,
fez caras e bocas, mas poucas vezes soltou a voz. Preferiu
usar gravações. O público notou e se
sentiu traído. Coisa de americana espertalhona? Nem
tanto. Alguns astros da música nacional lançam
mão desse recurso com freqüência. A dupla
Sandy & Junior, por exemplo, que participou do festival
na mesma noite de Britney, recorre às dublagens em
alguns trechos mais movimentados de seus shows, quando cantar
e dançar dá trabalho além da conta. Fora
do universo teen, outros artistas têm descoberto as
maravilhas do playback especialmente aquele gerado
por programas de computador como o Pro Tools, que também
produz efeitos especiais em tempo real (veja
quadro). Entre eles, a dupla sertaneja Chitãozinho
& Xororó e a veterana roqueira Rita Lee.
A primeira reação dos responsáveis pelas
apresentações de Sandy & Junior é
negar a existência de qualquer artifício. Mas
Sérgio Carrer, ex-produtor musical da dupla, reconhece
o uso do truque. "Eles passam duas horas se arrebentando no
palco. Numa apresentação desse porte, tem de
haver dublagem", diz. Em As Quatro Estações,
o mais recente show dos garotos, Sandy canta de verdade em
boa parte do tempo. Os vocais de Imortal, tenebrosa
balada da canadense Celine Dion, e de Fascinação,
famosa na interpretação de Elis Regina, são
ao vivo. Mas o playback é acionado nos números
que exigem canto e dança. Sandy inclusive elaborou
um código de gestos para comunicar-se com os técnicos
de som. Toda vez que aponta para o horizonte, quer dizer que
precisa ser socorrida pelo playback. Colocar as mãos
singelamente sobre o peito é a senha para que seu microfone
seja ligado novamente. O caso de Junior é ainda mais
escandaloso. Para provar que tem luz própria e não
é mero acompanhante da irmã, ele ganhou recentemente
um número especial para mostrar seus dotes. Junior
canta Smooth, sucesso do guitarrista mexicano Santana,
ao mesmo tempo em que ataca na percussão. Como é
praticamente impossível fazer isso sem ofegar, optou-se
pelo playback de voz. O rapaz também dá show
de mentirinha na canção A Lenda, em que
seduz a multidão com um emocionante solo de guitarra.
Samuel Chaves/divulgação
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| Rita
Lee e Chitãozinho e Xororó: o rock e o gênero sertanejo
têm, sim, algo em comum |
Chitãozinho e Xororó, respectivamente tio e
pai de Sandy e Junior, recorreram a mágicas digitais
no show que deram em setembro de 2000, durante o qual foi
gravado um DVD a ser lançado em março. O som
do violão de Chitãozinho foi "encorpado" pelo
Pro Tools. Em vez de um instrumento, ouvem-se quatro. Os solos
de saxofone também não foram ao vivo. Aliás,
são os mesmos do disco anterior da dupla, Alô.
Outra canção, Rebola, trouxe um festival
de percussão. O problema é que não havia
nem sequer um batuqueiro entre os músicos de apoio.
"Só não aceitamos dublar os vocais, até
mesmo porque não dançamos. O povo gosta de ver
a gente suar", diz Chitãozinho. Já a roqueira
Rita Lee, segundo um técnico de som respeitado no mercado,
anda utilizando o Pro Tools para aumentar a potência
de sua voz que nunca foi grande coisa, mas perdeu ainda
mais alcance com a idade provecta. Nos discos, ela costuma
empregar um recurso antigo, conhecido como "dobrar vocais".
Ao vivo, isso é impossível. Por isso, em suas
apresentações, ela aciona o programa de computador
para deixar seu timbre encorpado. "Rita Lee não usa
nem nunca usou o Pro Tools", afirma Oswaldo Thomaz, produtor
da cantora.
Nos Estados Unidos, a dublagem em grandes espetáculos
tornou-se corriqueira. Artistas como Michael Jackson e Madonna
a fazem sem nenhum pudor. A própria Britney Spears
foi chamada de "rainha do playback" na entrega do Prêmio
Grammy do ano passado. Quando alguém aborda a questão,
eles se justificam dizendo que, numa superprodução,
o canto é apenas um elemento entre outros, como a dança,
os cenários e a iluminação. O assunto
poderia levar a um debate sem fim, mas há um ponto
inquestionável. Uma coisa é lançar mão
de uma maravilha tecnológica como o Pro Tools para
corrigir pequenos deslizes em gravações. "Mesmo
grandes cantoras passam pelo Pro Tools, enquanto estão
em estúdio", informa o DJ e produtor carioca Memê.
Sem dúvida é bom que belas interpretações
com um ou outro momento de afinação imperfeita
possam ser salvas pela aparelhagem. Coisa bem diferente, no
entanto, é substituir em segredo, numa apresentação
ao vivo, a voz e o som dos instrumentos por uma gravação
cheia de truques. Isso se chama enganação.
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O
programa que não está no programa
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| Pro
Tools: a engenhoca salva cantores sem afinação |
O
Pro Tools é um programa de computador que, acoplado
a uma mesa de som, proporciona vários recursos
ao seu usuário, tanto para gravações
de discos quanto para apresentações ao
vivo. Em estúdio, o recurso mais popular é
o "auto-tune". Virou a salvação do pessoal
de TV que fatura também no mercado fonográfico.
Xuxa, Angélica e Tiazinha já foram afinadas
digitalmente. Ao lado do "auto-tune", o Pro Tools também
tem comandos que permitem ajustar uma interpretação
ao tempo certo da música e consertar eventuais
erros de pronúncia. Os "esses" que os pagodeiros
insistem em comer no final das palavras, por exemplo,
são corrigidos no estúdio pelo computador.
Produtores musicais adoram a função de
edição sonora, que lhes permite montar
uma música como quem brinca com tesoura e cola.
Os técnicos dizem que assim foi escrita boa parte
da história recente do pop nacional. Em shows,
o Pro Tools faz mágicas diferentes. É
usado como arquivo de vozes, sons de instrumentos e
efeitos especiais. Dá um playbackão daqueles.
A aparelhagem completa sai por 20 000 reais.
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