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Paraíso maculado

Navio faz barbeiragem e derrama
700 000
litros de óleo em santuário
ecológico

Ana Santa Cruz

 
Fotos AP
Iguana da Ilha de San Cristóbal, no arquipélago de Galápagos: barriga suja de petróleo

O arquipélago de Galápagos, lugar que serviu de laboratório para Charles Darwin colher os dados decisivos para colocar de pé a teoria da evolução, virou cenário de tragédia ecológica na semana passada. Um velho petroleiro de bandeira equatoriana que passava junto à Ilha de San Cristóbal, no extremo leste do arquipélago, fez uma manobra infeliz e acabou com fissuras de até 1 metro no casco. O navio chamado Jessica, com quase trinta anos de uso e nenhuma manutenção, adernou a 500 metros da praia e despejou 700.000 litros de óleo combustível no mar de águas transparentes. A maré viscosa chegou a se estender por 100 quilômetros quadrados, o equivalente à metade da área da cidade do Recife. Antes de se dispersar em manchas menores pelas águas do Pacífico, emporcalhou dezenas de focas, aves e iguanas, num dos mais delicados ecossistemas do planeta. O governo equatoriano, a quem pertencem as ilhas, pediu ajuda aos Estados Unidos para que enviasse técnicos capazes de conter o vazamento e limpar a sujeira. Estima-se que a faxina se estenda pelas próximas cinco semanas e custe 1 milhão de dólares. "A situação é grave porque a carga de óleo derramado e de produtos químicos usados para dissolvê-lo pode destruir formas de vida mais frágeis, como corais e algas", disse Christiane Linet, pesquisadora belga da World Wide Fund for Nature. "Ver essas ilhas poluídas equivale a encontrar um borrão de tinta na Mona Lisa."

Pode-se até discordar da comparação da especialista do WWF. Mas a atração que o arquipélago exerce é indiscutível. Galápagos conquistou lugar privilegiado na ciência depois que Charles Darwin passou por lá em 1835. A partir da observação da existência de animais nativos muito parecidos, mas de espécies totalmente distintas daquelas que viviam no continente, o cientista inglês elaborou a teoria que viria a mudar os rumos da ciência, até então dominada por dogmas criacionistas, segundo os quais a explicação para a origem da vida é a que está na Bíblia. Situado no Oceano Pacífico a 1.000 quilômetros da costa do Equador, o arquipélago é formado por treze ilhas, dezessete ilhotas e 47 recifes de origem vulcânica. São formações que estiveram isoladas do continente durante milhões de anos, fazendo com que a vida por lá evoluísse de modo diferente em relação ao resto do mundo. Das 5.000 espécies que vivem em Galápagos, 2.000 só existem lá. São bichos estranhos, como aves de patas azuis ou iguanas que sobrevivem até um ano sem água e são capazes de retirar nutrientes do próprio esqueleto. Ciosos da importância do lugar, ecologistas do mundo inteiro ofereceram-se para varrer a praia e lavar os bichos. A ilha ficou abarrotada de centenas de pessoas vindas de todos os cantos para ajudar. No fim da semana, as ONGs que realizam estudos no arquipélago passaram a dispensar as ofertas de ajuda. Não há nada pior que praia poluída e lotada de gente.

 

O tamanho do estrago

O petroleiro Jessica despejou 700 000 litros de óleo na costa das Ilhas Galápagos.

Compare com outros grandes vazamentos:

Duto da Petrobras, Baía de Guanabara, janeiro de 2000 – 1,3 milhão de litros

Petroleiro Erika Valletta, costa da França, dezembro de 1999 – 10 milhões de litros

Petroleiro Exxon Valdez, costa do Alasca, abril de 1989 – 40 milhões de litros

 

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