Nostalgia
do quê?
Ilustração Pepe Casals
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Pesquisa da Escola de Negócios da PUC do Rio de Janeiro
revela que os jovens são mais nostálgicos do
que os velhos. Não sei se a pesquisa é confiável.
Em geral, não confio muito em nenhum número
divulgado no Brasil. Sempre fazemos a maior confusão
com números. Nossos índios só sabiam
contar até dois. Essa dificuldade para lidar com números
acabou por se perpetuar na nossa cultura, como demonstram
a dívida da Previdência, os juros do cheque especial
e a dificuldade dos políticos em explicar o crescimento
vertiginoso de seus patrimônios. Em todo caso, a pesquisa
da PUC afirma que a rapaziada na faixa etária entre
18 e 24 anos é mais nostálgica do que a velharada
de 59 a 70 anos.
Nostalgia do quê, exatamente? Um jovem de 24 anos
nasceu em 1977. O fato mais memorável daquele ano
foi o pacote de abril, quando o governo do general Ernesto
Geisel, para garantir a maioria parlamentar, fechou o Congresso
e nomeou 22 senadores biônicos, um por Estado. É
disso que os jovens sentem nostalgia? Eu sempre imaginei
que os únicos nostálgicos daquele período
fossem os próprios senadores biônicos. Mas
estava enganado. Fui conferir o que cada um deles faz hoje
em dia. Descobri que esse negócio de se tornar senador
biônico deu um certo azar. Enquanto vários
dos governadores eleitos indiretamente durante a ditadura
continuam na vida política ativa, com posições
de absoluto relevo, como Maluf, ACM, Marco Maciel e Jorge
Bornhausen, os senadores biônicos simplesmente faleceram.
Isso mesmo: dos 22, sobrevivem apenas dois ou três.
Uma mortandade anormal. Conclui-se que não eram tão
biônicos assim.
Em compensação, há quem sinta muita
nostalgia deles. Nabor Júnior, atual senador do Acre,
especializou-se em elogios fúnebres dos ex-senadores
biônicos. Nos últimos anos, homenageou Lourival
Baptista, Saldanha Derzi e João Calmon. Alguns senadores
biônicos também deixaram herdeiros. O coronel
César Cals, ainda hoje recordado por suas duas maiores
realizações, o garimpo de Serra Pelada e a
usina nuclear de Angra dos Reis, legou-nos dois filhos deputados
e uma filha nomeada para o Conselho de Justiça Federal.
Além disso, graças à benemérita
ação de admiradores espalhados pela administração
pública, todos os senadores biônicos tiveram
a honra de virar nome de rua, avenida, escola ou hospital.
Amaral Furlan mereceu uma biblioteca na cidade de Bairrinha.
Gabriel Hermes, um teatro no Pará. Amaral Peixoto,
uma rodovia no Rio de Janeiro, onde se encontram o Subir
Café & Sorvete e a churrascaria Coração
Express. Surpreendente é o caso de José Guiomard,
cujo nome foi dado à sede do Poder Legislativo do
Acre. Não é esquisito que o fulcro da democracia
acreana seja representado por um senador imposto pelo regime
ditatorial? O mesmo vale para o edifício do Senado
Federal, em Brasília, onde há alas com nomes
de dois ex-senadores biônicos, Alexandre Costa e Dinarte
Mariz, além de uma terceira chamada Filinto Müller,
chefe da repressão da ditadura Vargas e pai de um
senador biônico, Gastão Müller.