Leio,
logo existo
O mais polêmico dos críticos
literários diz
por que ainda se deve ler num mundo
dominado pelas imagens
Flávio
Moura
Não falta quem considere o americano Harold Bloom,
de 70 anos, o mais importante crítico literário
em atividade. Autor de mais de vinte livros sobre literatura
e professor há mais de quarenta anos leciona
nas universidades Yale e de Nova York , ele é,
no mínimo, uma figura polêmica. Sem pruridos
em atacar seus pares acadêmicos, ele não se
cansa de chamá-los de ressentidos e os acusa de estarem
matando a literatura com a mania do politicamente correto.
Ferrenho defensor dos "valores estéticos", Bloom
autoproclamou-se guardião solitário da cultura
clássica e exalta os grandes nomes da literatura
mundial com uma energia admirável. No ambicioso O
Cânone Ocidental, livro lançado há
sete anos, ele mapeia o que há de fundamental na
história da literatura do Ocidente. Com o controverso
Shakespeare A Invenção do Humano,
defende a tese de que seríamos criaturas diferentes
se o famoso dramaturgo inglês não houvesse
existido. Agora Bloom quer ensinar a ler. É isso
que faz no livro Como e Por que Ler (Editora Objetiva),
que chega às livrarias do país nesta semana.
De sua casa em New Haven, nos Estados Unidos, ele concedeu
a seguinte entrevista a VEJA:
Veja Por que ler?
Bloom
A informação está cada vez mais ao
nosso alcance. Mas a sabedoria, que é o tipo mais
precioso de conhecimento, essa só pode ser encontrada
nos grandes autores da literatura. Esse é o primeiro
motivo por que devemos ler. O segundo motivo é que
todo bom pensamento, como já diziam os filósofos
e os psicólogos, depende da memória. Não
é possível pensar sem lembrar e são
os livros que ainda preservam a maior parte de nossa herança
cultural. Finalmente, e este motivo está relacionado
ao anterior, eu diria que uma democracia depende de pessoas
capazes de pensar por si próprias. E ninguém
faz isso sem ler.
Veja Como ler?
Bloom
Tente ler sem considerações políticas,
compromissos ideológicos ou preconceitos. Para o
livro que estou escrevendo agora, por exemplo, estou relendo
a Divina Comédia, de Dante Alighieri, em italiano.
Há certos moralismos em Dante que me irritam. Além
disso, há seu compromisso com a visão de mundo
católica, e eu não confio em nenhum tipo de
religião institucionalizada. Mas, ao lê-lo,
procuro me manter aberto. O frescor da língua e a
força das metáforas me obrigam a deixar todas
as minhas opiniões de lado e me render à força
daquele texto. É assim que se deve ler.
Veja O livro Como e Por que Ler foi
muito criticado na época do lançamento. Houve
quem dissesse que o senhor simplificou demais a questão,
outros o acusaram de posar de guardião da "alta cultura".
Como responderia a seus críticos?
Bloom
A maior parte das críticas negativas é proveniente
de acadêmicos anglo-americanos. Somos inimigos mortais.
Há 25 anos venho denunciando esse pessoal. O ensino
de literatura no mundo de língua inglesa foi para
o inferno. É dominado por ideólogos, por integrantes
daquilo que eu chamo de "escola do ressentimento". É
gente comprometida com assuntos extraliterários,
com mania de desconstruir e relativizar tudo. Eles não
se importam com o valor estético. É o politicamente
correto que interessa a eles. Por isso, não estou
nem aí, nem leio as críticas. Se você
tenta ser independente, se não adere a nenhum tipo
de moda, se fala honestamente e emite opiniões próprias,
se recusa ideologias, inevitavelmente será atacado.
É como diz o escritor americano Ralph Waldo Emerson,
um dos meus heróis: "O mundo tenta castigar os que
não se conformam". Minha maneira de responder aos
críticos é escrevendo outros livros.
Veja Qual o papel da literatura num mundo dominado
pelas mídias visuais?
Bloom
Há grandes autores, como William Shakespeare, Miguel
de Cervantes, Jane Austen e Charles Dickens, que conseguem
sobreviver nas adaptações para as mídias
visuais. Mas há outros, como Dante Alighieri, John
Milton, James Joyce, Marcel Proust ou Franz Kafka, cujo
futuro é completamente incerto. O grande autor português
José Saramago é outro por quem eu temo. Somos
amigos, escrevi um ensaio sobre o magnífico O
Evangelho Segundo Jesus Cristo. Ele é dos melhores
romancistas que conheço, não deixa nada a
dever aos grandes nomes da literatura. Mas, sinceramente,
acho que num mundo dominado pela imagem livros difíceis
como os dele poderão deixar de ser lidos em vinte
ou trinta anos. As crianças estão crescendo
cercadas por telas. A longo prazo, não sei qual pode
ser o efeito disso sobre a capacidade das pessoas de ler
para buscar não apenas informação,
mas sabedoria e autoconhecimento.
Veja Livros como os da série Harry
Potter não são uma boa porta de entrada,
um meio de despertar nas crianças o interesse pela
literatura?
Bloom
Você realmente acha que as crianças vão
ler coisas melhores depois de ler Harry Potter? Eu
acho que não. E um dos piores escritores da América,
Stephen King (ele é terrível, não consigo
ler nem dois parágrafos do que escreve), confirmou
minhas suspeitas numa resenha que escreveu para o jornal
The New York Times. Segundo ele, as crianças
que aos 12 anos estão lendo Potter aos 16 estarão
prontas para ler os seus livros. Preciso dizer mais? Os
Estados Unidos são um país em que a televisão,
o cinema, os videogames, os computadores e Stephen King
destruíram a leitura.
Veja Por que não ler os livros de J.K.
Rowling, a autora de Harry Potter?
Bloom
Li apenas uma das obras dessa autora. A linguagem é
um horror. Ninguém, por exemplo, "caminha" no livro.
Os personagens "vão esticar as pernas", o que é
obviamente um clichê. E o livro inteiro é assim,
escrito com frases desgastadas, de segunda mão. Escrevi
uma resenha para o Wall Street Journal falando mal
de Harry Potter. A polêmica foi imediata. Foram
enviadas mais de 400 cartas me xingando de todos os nomes.
A defesa de livros ruins como esses, que vem de todos os
lados dos pais, das crianças, da mídia
, é muito inquietante e nem um pouco saudável.
Veja Em seu livro anterior, Shakespeare
A Invenção do Humano, o senhor afirma
que o dramaturgo William Shakespeare "inventou o humano".
Poderia explicar um pouco melhor essa idéia?
Bloom
Grande parte do que hoje consideramos uma personalidade
humana foi invenção de Shakespeare. Há
hábitos que desenvolvemos, como o de parar de repente
e escutar a nós mesmos, que só passaram a
existir depois dele. Preste atenção na literatura
anterior, em forma de verso, prosa ou teatro. Você
simplesmente não encontra monólogos interiores
como os que vemos em Shakespeare. Aquilo que gostamos de
chamar de nossas "emoções" surgiram pela primeira
vez como pensamentos de Shakespeare. Nele, mais do que em
qualquer outro escritor, parece que os personagens não
foram inventados. É como se eles existissem desde
sempre. Assistir a uma peça de Shakespeare na China,
em termos de identificação do público
com o que se passa no palco, não é muito diferente
de assistir em Nova York ou Londres.
Veja No século XX, tornaram-se muito
comuns as leituras psicanalíticas de Shakespeare.
O próprio Freud escreveu a respeito da peça
Hamlet. Mas o senhor costuma fazer pouco dessas interpretações.
Por quê?
Bloom
O romântico Percy Shelley costumava dizer que o demônio
deve muito ao poeta John Milton, já que este o retratou
de maneira magnífica no livro Paraíso Perdido.
Pensaríamos no demônio de maneira diferente
se não fosse Milton. Acho que o mesmo ocorre com
Freud: ele deve tudo a Shakespeare. Freud é essencialmente
Shakespeare em forma de prosa. Se você ler atentamente
o que ele fala sobre complexo de Édipo, verá
que no fundo não está falando de Édipo,
mas de Hamlet. Por isso defendo uma leitura shakespeariana
de Freud, e não uma leitura freudiana de Shakespeare.
Não podemos negar a Freud, contudo, um lugar entre
as quatro ou cinco maiores figuras intelectuais do século
XX. E também entre os maiores escritores. Ele era
um ótimo ensaísta. Foi o Montaigne de nossa
era.
Veja Num de seus livros mais famosos, A
Angústia da Influência, de 1973, o senhor
dizia que, para uma geração de autores se
constituir, tinha de "matar" a anterior. Isso ainda vale
para os autores contemporâneos?
Bloom
Sim. A menos, é claro, que a literatura passe por
uma mudança radical, o que por enquanto acho muito
difícil. Essa mania atual de cyberliteratura, cyberpoema,
jogos verbais etc., tudo isso são erupções
tardias do que os dadaístas e surrealistas fizeram,
aliás muito melhor, 100 anos atrás. Saramago,
por exemplo, parece estar sempre envolvido numa complexa
competição com Eça de Queiroz e com
Fernando Pessoa, os dois grandes autores portugueses que
o precederam. Ainda acho que a literatura caminha por meio
de um confronto direto com a produção da geração
anterior. Isso não vai mudar. Arte é competição.
Veja Crítica também?
Bloom
Acho
que toda crítica equilibrada, mais do que competitiva,
tem de ser pessoal e excêntrica. É o que Oscar
Wilde, outro de meus heróis, costumava dizer: a crítica
é a única forma civilizada de autobiografia.
Não tenho pretensões de fazer crítica
científica. Gostaria muito que meus livros, lidos
em conjunto, fossem considerados minha autobiografia.
Veja Em 1979, o senhor publicou The Flight
to Lucifer A Gnostic Fantasy (Vôo para Lucífer
Uma Fantasia Gnóstica), sua única
tentativa de escrever ficção. Por que não
voltou a ela?
Bloom
Foi um erro. Não devia ter publicado esse livro.
Você o conhece? É uma ficção
científica na qual o protagonista, uma espécie
de Prometeu, vai em busca de seu destino num planeta chamado
Lúcifer. Reli a obra numa noite dessas e vi que ela
era realmente horrível, fria, sem vida. Os personagens
eram todos sobrecarregados. Era pesado, não tinha
nada da "vida local" que uma narrativa de verdade deve ter.
E aí percebi que eu não era um contador de
história, que não podia criar bons personagens.
Gostaria que esse livro fosse esquecido de vez. Todo mundo
tem a chance de errar uma vez. Essa foi a minha.
Veja Temas religiosos, como a cabala e o gnosticismo,
aparecem também em seus livros de ensaios. Onde termina
o crítico e começa o místico?
Bloom
Cresci como judeu ortodoxo, mas continuo achando, e isso
já irritou muita gente, que o judaísmo ortodoxo
não é mais do que uma leitura equivocada da
Bíblia hebraica, feita há 1.800
anos. Foi uma forma de adequar a religião à
realidade dos judeus que viviam sob ocupação
romana. Hoje não vejo por que agir da mesma forma
que naquele tempo. Considero as tradições
religiosas como produto de uma época e a criação
do universo como uma grande separação, o criador
distanciando-se irremediavelmente de suas criaturas. Até
imagino, para além do sistema solar, algo parecido
com um deus de verdade. Mas ele, ou ela, certamente não
pode nos ouvir. É como diz a máxima: se as
preces do homem são uma doença da vontade,
então seus credos são uma doença do
intelecto.
Veja O enfoque literário na leitura
da Bíblia é mais interessante do que
o religioso?
Bloom
Sem dúvida. O texto original do que hoje chamamos
de Gênesis, Exodo e Números é trabalho
de um narrador magnífico, certamente um dos maiores
contadores de história do mundo ocidental. Aliás,
em O Livro de J, observo que o autor desses textos
foi uma mulher que viveu 3.000
anos atrás, na corte do rei Salomão, um lugar
de alta cultura, ceticismo e muita sofisticação
psicológica. Pense em figuras como José, Jacó
e Jeová. São todos personagens maravilhosos.
E os efeitos poéticos do texto são extraordinários,
comparáveis a Píndaro. Os profetas Isaías,
Jeremias e Ezequiel também eram grandes escritores,
assim como os autores do Evangelho de Marcos e do
Livro de Jó. A Bíblia é
uma vasta antologia da literatura de toda uma cultura.
Veja E hoje, há algo que preste nesse
filão crescente de literatura religiosa e new age?
Bloom
Não. Não temos um grande místico. Haveria
espaço para um, sem dúvida, e até clamo
por isso em meu livro Presságios do Milênio,
mas não há quem se salve. Só lixo,
em qualquer língua que conheço. É preciso
deixar claro que nos últimos trinta ou quarenta anos
não surgiu nenhum autor religioso com alguma força
ou originalidade.
Veja Como o senhor situaria a literatura brasileira
em relação à literatura mundial? Que
nomes destacaria?
Bloom
Comecei a estudar português não faz muito tempo,
e ainda não consegui me familiarizar direito com
a língua. Não posso dizer que conheço
a produção literária contemporânea
do Brasil. Quanto aos autores mais antigos, como Machado
de Assis, só agora começaram a aparecer boas
versões de suas obras para o inglês. Foi por
isso, também, que não o incluí em O
Cânone Ocidental.
Veja No fim desse livro, o senhor faz uma longa
enumeração daqueles que seriam os autores
mais importantes do Ocidente, em todas as épocas.
Qual o sentido desse tipo de lista?
Bloom
Nenhum. Fiquei muito arrependido de incluir essa lista no
livro. Ele ficaria melhor sem ela. Fiz sob protesto, por
insistência do meu editor e da agente literária,
que achavam que assim o livro venderia mais. Acho perniciosas
todas as listas de "melhores livros". São baseadas
em leituras apressadas, em premissas equivocadas e sempre
acabam deixando de lado algo importante. Portanto, sou completamente
contra listas. Inclusive a minha.
Saiba
mais |
|
|
|