Gustavo
Franco
Convergência
"Existe
um vasto conjunto de
reformas de segunda geração,
cuja natureza é diversificada
e essencialmente microeconômica, que
está
sendo objeto de atenção tanto em Davos
quanto em Porto Alegre"
Ale Setti
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No meio político todos dizem que é prematuro
definir candidaturas, programas e alianças para 2002.
Mas no mercado financeiro a eleição esquentou
nesta semana, quando o Tesouro vendeu títulos com
vencimento no quarto mês do próximo governo.
Consultores e oráculos debruçaram-se sobre
diferentes cenários, e o que mais surpreendeu foi
a descrença em mudanças radicais na economia
no caso de uma vitória da oposição.
Essa percepção baseia-se na dificuldade prática,
para não falar da inconveniência política,
de reverter, ainda que parcialmente, as principais reformas
do período FHC: estabilização, abertura,
privatização e responsabilidade fiscal. Mudou
o mercado ou a oposição? Faria sentido para
o novo governo de oposição abster-se de desfazer
o que combateu durante oito anos?
O mercado acha que sim, e por vários motivos. Para
começar, um novo governo dizendo-se mais preocupado
com "o social" teria imensa dificuldade de mostrar-se leniente
com a inflação. O brasileiro conheceu as dores
da hiperinflação, sabe que estamos tratando
de uma espécie de imposto sobre o pobre e que a estabilização,
conforme revela o IBGE, colocou 7 milhões de brasileiros
acima da linha de pobreza. Seria um enorme contra-senso
usar a inflação para financiar políticas
de combate à pobreza, pois a própria inflação
recria a pobreza que se quer eliminar.
Portanto, é de duvidar que tenhamos políticas
abertamente inflacionistas e que o Banco Central seja radicalmente
modificado ou transformado em um banco de fomento, como
sugere o tom raivoso das críticas da oposição
à idéia de conceder mandatos aos dirigentes
do BC. Otimista, mas não ingênuo, o mercado
parece dar à oposição o benefício
de uma dúvida: as políticas econômicas
de um governo de esquerda não precisam estar contaminadas
pela irresponsabilidade fiscal. É claro, todavia,
que esta é uma proposição ainda à
procura de sustentação empírica e que
pode ser destroçada facilmente pelos candidatos durante
a campanha.
A mesma benevolência pragmática prevalece com
relação à abertura, cujo impacto foi
semelhante ao da estabilização, ao beneficiar
maiorias desorganizadas (consumidores) em detrimento de
minorias privilegiadas. Assim foi percebida e acolhida pela
população, de tal sorte que uma escalada protecionista
com vista a proteger pesadamente a "indústria nacional",
prejudicando o "consumidor nacional", não seria propriamente
popular.
No que tange à privatização, o mercado
parece adotar o preceito indisputável de que é
difícil transformar presunto de volta em porco. Se
o novo governo quiser reestatizar alguma empresa, uma alternativa
seria expropriá-la, o que não se concebe no
século em que estamos. Outra seria comprá-la
de volta. Mas com que dinheiro? Um governo de esquerda gastaria
3 ou 4 bilhões para comprar de volta uma companhia
de mineração, podendo usar este dinheiro em
programas sociais? Que sentido faria recomprar, qualquer
que fosse o preço, a rede ferroviária ou os
terminais portuários? O novo governador de São
Paulo compraria de volta o Banespa por 7 bilhões
de reais?
O fato é que muita gente insuspeita de simpatias
à esquerda acredita que a oposição
faria uma enorme tolice em reabrir a agenda de reformas
de "primeira geração" executada em boa medida
pelo presidente Fernando Henrique. Há muito mais
que fazer e o país precisa avançar em outros
temas. Existe um vasto conjunto de reformas de "segunda
geração", cuja natureza é diversificada
e essencialmente microeconômica, que está sendo
objeto de atenção tanto em Davos quanto em
Porto Alegre. Ao leitor atento não terá escapado
que os temas de ambos os convescotes, contrariamente à
propaganda, são muito mais complementares que substitutos.
O mercado acha que a oposição vai olhar para
o futuro, para esses temas, e não para o passado.
Mas não tem certeza, e sabe que pode sempre se enganar.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente
do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)