Em foco

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Gustavo Franco

Convergência

"Existe um vasto conjunto de reformas de segunda geração, cuja natureza é diversificada
e essencialmente
microeconômica, que está
sendo objeto de atenção tanto em Davos
quanto em Porto Alegre"


Ale Setti


No meio político todos dizem que é prematuro definir candidaturas, programas e alianças para 2002. Mas no mercado financeiro a eleição esquentou nesta semana, quando o Tesouro vendeu títulos com vencimento no quarto mês do próximo governo. Consultores e oráculos debruçaram-se sobre diferentes cenários, e o que mais surpreendeu foi a descrença em mudanças radicais na economia no caso de uma vitória da oposição. Essa percepção baseia-se na dificuldade prática, para não falar da inconveniência política, de reverter, ainda que parcialmente, as principais reformas do período FHC: estabilização, abertura, privatização e responsabilidade fiscal. Mudou o mercado ou a oposição? Faria sentido para o novo governo de oposição abster-se de desfazer o que combateu durante oito anos?

O mercado acha que sim, e por vários motivos. Para começar, um novo governo dizendo-se mais preocupado com "o social" teria imensa dificuldade de mostrar-se leniente com a inflação. O brasileiro conheceu as dores da hiperinflação, sabe que estamos tratando de uma espécie de imposto sobre o pobre e que a estabilização, conforme revela o IBGE, colocou 7 milhões de brasileiros acima da linha de pobreza. Seria um enorme contra-senso usar a inflação para financiar políticas de combate à pobreza, pois a própria inflação recria a pobreza que se quer eliminar.

Portanto, é de duvidar que tenhamos políticas abertamente inflacionistas e que o Banco Central seja radicalmente modificado ou transformado em um banco de fomento, como sugere o tom raivoso das críticas da oposição à idéia de conceder mandatos aos dirigentes do BC. Otimista, mas não ingênuo, o mercado parece dar à oposição o benefício de uma dúvida: as políticas econômicas de um governo de esquerda não precisam estar contaminadas pela irresponsabilidade fiscal. É claro, todavia, que esta é uma proposição ainda à procura de sustentação empírica e que pode ser destroçada facilmente pelos candidatos durante a campanha.

A mesma benevolência pragmática prevalece com relação à abertura, cujo impacto foi semelhante ao da estabilização, ao beneficiar maiorias desorganizadas (consumidores) em detrimento de minorias privilegiadas. Assim foi percebida e acolhida pela população, de tal sorte que uma escalada protecionista com vista a proteger pesadamente a "indústria nacional", prejudicando o "consumidor nacional", não seria propriamente popular.

No que tange à privatização, o mercado parece adotar o preceito indisputável de que é difícil transformar presunto de volta em porco. Se o novo governo quiser reestatizar alguma empresa, uma alternativa seria expropriá-la, o que não se concebe no século em que estamos. Outra seria comprá-la de volta. Mas com que dinheiro? Um governo de esquerda gastaria 3 ou 4 bilhões para comprar de volta uma companhia de mineração, podendo usar este dinheiro em programas sociais? Que sentido faria recomprar, qualquer que fosse o preço, a rede ferroviária ou os terminais portuários? O novo governador de São Paulo compraria de volta o Banespa por 7 bilhões de reais?

O fato é que muita gente insuspeita de simpatias à esquerda acredita que a oposição faria uma enorme tolice em reabrir a agenda de reformas de "primeira geração" executada em boa medida pelo presidente Fernando Henrique. Há muito mais que fazer e o país precisa avançar em outros temas. Existe um vasto conjunto de reformas de "segunda geração", cuja natureza é diversificada e essencialmente microeconômica, que está sendo objeto de atenção tanto em Davos quanto em Porto Alegre. Ao leitor atento não terá escapado que os temas de ambos os convescotes, contrariamente à propaganda, são muito mais complementares que substitutos. O mercado acha que a oposição vai olhar para o futuro, para esses temas, e não para o passado. Mas não tem certeza, e sabe que pode sempre se enganar.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)

 

Copyright 2001
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Curitiba
Veja BH | Veja Fortaleza | Veja Porto Alegre | Veja Recife
Edições especiais | Especiais on-line | Estação Veja
Arquivos | Próxima VEJA | Fale conosco