Economia
e Negócios

 


1986 PLANO CRUZADO:
"Carro antigo está valendo
mais que carro zero. Boi magro
custa mais que boi gordo. Há
filas de até seis meses para
comprar automóveis. O Plano
Cruzado vem fazendo água"

Combustível
O sucesso do álcool

Passados quase sete anos do cataclisma provocado pela elevação desenfreada dos preços do petróleo e da desordem que se instalou na economia do mundo inteiro, já se pode dizer: o álcool, no Brasil, deu certo. Ele transforma o Brasil na primeira sociedade moderna que começa concretamente a eliminar a profecia do fim da civilização do automóvel.
(17 de setembro de 1980)

Dívida Externa
O sono de Delfim

No início do segundo semestre de 1982, o ministro do Planejamento, Antonio Delfim Netto, dormia, como de hábito, cinco horas por noite. Agora está dormindo duas, e dá esses números quando quer ilustrar a dureza da batalha em que está metido para evitar a quebra do Brasil — que na última quarta-feira estava com 850 milhões de dólares em pagamentos atrasados junto ao sistema financeiro internacional.
(1º de junho de 1983)

Empresas
Matarazzo na concordata

Milhares, milhões de vezes, uma frase incorporada à linguagem popular brasileira por um mítico sobrenome italiano foi declamada nos últimos oitenta anos por pais aborrecidos com filhos, parentes ou amigos que queriam gastar além da conta: "Ele pensa que é um Matarazzo". Na semana passada, a velha frase perdeu definitivamente a força, golpeada por um pedido de concordata preventiva formulado por onze empresas do Grupo Matarazzo.
(27 de julho de 1983)

Inflação
O dragão cresce

Ao entrar em vigor, ainda em outubro, a atual lei dos salários encontrou a inflação anual na marca dos 197,2%. Nove meses depois, apesar da inédita contenção dos salários, a inflação não só continuou a crescer, saltando para 226,5%, em doze meses, como dá mostras de que está longe de diminuir seu efeito devastador sobre o arrochado poder aquisitivo da classe média.
(18 de julho de 1984)

Surge o Cruzado

O Sarney que o país descobriu na manhã de 28 de fevereiro de 1986, quando ele anunciou a morte do cruzeiro e o congelamento de preços e salários, é a mesma pessoa de gestos tímidos de quem se cobravam atos de firmeza no ano passado — mas o presidente, agora, é outro. O presidente está mais forte do que nunca. Atendendo a seu apelo direto, uma multidão de milhões de pessoas saiu às ruas para impedir a remarcação dos preços nos supermercados e magazines — dando uma rara prova de confiança no chefe de Estado. O presidente não escondeu a alegria quando soube que um publicitário de São Paulo planejava distribuir 10 milhões de botões verde-amarelos com a frase: "Eu sou fiscal do Sarney".
(12 de março de 1986)

Acaba o Cruzado

Carro antigo está valendo mais que carro zero. Boi magro custa mais que boi gordo. Há filas de até seis meses para comprar automóveis. Fábricas deram férias coletivas ou licença remunerada devido à falta de peças. Multiplicam-se as filas para comprar leite e carne, e um número cada vez maior de produtos continua sumindo das prateleiras de lojas e supermercados. O Plano Cruzado vem fazendo água.
(30 de julho de 1986)

Moratória
Brasil não paga dívida

Nesta segunda-feira, a partir do momento em que quase 700 bancos de várias nacionalidades e tamanhos começarem a abrir suas portas ao redor do planeta, o dinheiro que têm a receber, em virtude dos juros, de um cliente que lhes deve no total 107 bilhões de dólares, deixará de entrar em seus guichês. Na última sexta-feira à noite, José Sarney, o presidente deste cliente chamado Brasil, comunicou em cadeia de rádio e televisão que o país, depois de ter ido à bancarrota pela última vez em 1982, voltara a quebrar — e entrara, oficialmente, de novo em moratória.
(25 de fevereiro de 1987)

Foto: Geraldo Guimarães




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