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Home  »  Revistas  »  Edição 2145 / 30 de dezembro de 2009


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Economia limpa Perspectiva 2010

  8. Globalização 2.0

Éramos caubóis, somos astronautas

Antes, não tínhamos receio de desbravar o mundo. Hoje, estamos aprendendo a viver numa nave lotada, e de recursos restritos. O caminho para enfrentarmos as enrascadas globais passa pelo nascimento de uma cidadania planetária


Aron Belinky*

Getty Images
EM ÓRBITA
Na imagem feita pela Nasa em 2007, o voo acima da Terra

Soa como clichê, é imagem algo desgastada, mas o fato é que, em 1969, quando chegamos à Lua e de lá observamos nosso planeta, algo começou a mudar em nossa mente. Porém, apesar da contundente imagem na televisão e nas páginas de revistas e jornais, a vida real continuou a mesma. Afinal, éramos meros 3,6 bilhões de pessoas. Não pensávamos em nossa "pegada ecológica", mas, se o fizéssemos, veríamos que só 70% da capacidade da Terra era utilizada. Como caubóis, víamos um vasto mundo a ser ocupado e usufruído sem receio. Buscávamos nosso oeste apoiados nas descobertas da ciência. Em apenas quarenta anos, tudo mudou.

Hoje somos quase 7 bilhões de seres humanos, e tiramos da Terra 30% mais do que ela pode dar, exaurindo rapidamente o patrimônio de cuja renda dependemos. Descobrimos que já não somos caubóis, mas astronautas. Vivemos isolados numa grande nave, com recursos finitos e limitado espaço para dejetos. A realidade que conhecíamos – mas não sentíamos – agora se impõe, sob a forma de mudanças climáticas, montanhas de lixo, conflitos por água, petróleo e outros recursos.

Existem saídas para esse impasse? Certamente sim, e somos capazes de construí-las, apesar dos enormes obstáculos a superar. Um deles, talvez o maior, é o desafio institucional, do qual pouco se fala. A imagem da Terra vista do espaço revela, também, que o mundo não tem fronteiras. E esse é mais um dado da realidade que ainda insistimos em ignorar. Os 192 países que hoje compõem a ONU nada mais são que invenções humanas, criadas há poucas centenas de anos. Conceitos hoje quase sagrados – como pátria e soberania nacional – só foram consolidar-se em meados do século XVII, com a Paz de Vestfália. Foi nesse conjunto de tratados que, finalmente, os potentados da nobreza europeia, incluindo o Sacro Império Romano-Germânico, reconheceram mutuamente seus respectivos poderes, estabelecendo o que hoje chamamos de estados nacionais: parcelas do planeta sobre as quais existiria uma e apenas uma autoridade central, soberana. O tempo passou, e a globalização atual torna cada dia mais evidente que falta algo nesse modelo: falta combinar como pilotaremos nossa nave, nosso planeta sem fronteiras – sem esquecer, obviamente, a autonomia de cada país.

Além de elementos naturalmente globais – como o clima, as aves migratórias e os vírus –, temos hoje criações globais humanas, como a poluição, os mercados, as telecomunicações e a cultura de massa. Já sentimos na pele a necessidade de enfrentar unidos os desafios planetários. Mas, para isso, dispomos apenas de instituições nacionais ou, na melhor das hipóteses, de um sistema internacional. O problema: ele não é de fato global, acima das nacionalidades, pois apenas junta países, que continuam inevitavelmente enredados em suas agendas nacionais, quando não reféns da desonestidade ou do egoísmo de lideranças locais. Os tropeços e impasses na recente conferência do clima – a COP15, em Copenhague – são o mais recente e dramático exemplo desse cenário.

A necessidade de instituições verdadeiramente globais é evidente. Mas construí-las será um desafio gigantesco. A crise de representatividade dos estados nacionais e dos políticos que os dirigem é gritante no mundo todo. Mas confiar apenas na "mão invisível" do mercado, sem regulamentações, também é perigoso, como mostrou a recente crise financeira que nasceu dos exageros de Wall Street. Intensificadas pelas modernas tecnologias da informação, navegando no espaço criado pela internet, iniciativas mundiais de cooperação e articulação são cada vez mais frequentes. Elas mesclam estados nacionais com representantes de segmentos auto-organizados da sociedade planetária – como empresários, investidores, cientistas, trabalhadores, consumidores e ONGs. Um exemplo disso é a ISO 26 000, norma internacional de responsabilidade social que já está praticamente pronta e deve ser publicada em fins de 2010. Ela representa um magnífico passo rumo à globalização 2.0.

Trabalhando juntas num processo altamente inovador, centenas de pessoas de todo o mundo dedicam-se, há mais de cinco anos, a compilar as expectativas embutidas nos acordos internacionais produzidos pelo sistema Nações Unidas e a combiná-las com as mais consagradas práticas da boa gestão administrativa. O resultado é um guia de diretrizes inédito, que mostra a qualquer organização – empresarial ou não – o que espera dela a comunidade global, além de orientá-la sobre como aplicar essa conduta no seu dia a dia.

Como esse da ISO 26 000, vários outros exemplos demonstram que está em plena construção um novo paradigma, uma cidadania global. De que esse é o caminho, não há dúvida. Em que resultará é uma pergunta ainda em aberto.

Print Collector / Diomedia.com
PAZ DE VESTFÁLIA
Conceitos hoje quase sagrados como pátria e soberania são razoavelmente recentes, de meados do século XVII

 

 

* Aron Belinky é representante das ONGs de países em desenvolvimento no comitê redator da ISO 26 000

 

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