Economia limpa • Perspectiva 2010
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| 6. Responsabilidade |
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Renata Moraes
Orlando Brito![]() |
| CUBATÃO, 1984 Poluentes, chuva ácida e erosão da Serra do Mar no símbolo do descaso ambiental de um tempo em que só importava crescer |
O fracassado balé diplomático da COP15, em Copenhague,
foi um baile de gala se o compararmos à Conferência das Nações
Unidas sobre o Meio Ambiente Humano de Estocolmo, em 1972. O ministro do Interior
brasileiro, general José Costa Cavalcanti, futuro presidente da Itaipu
Binacional, foi ao microfone, há 38 anos, com uma frase que resumia a
postura das nações em desenvolvimento, então jurassicamente
chamadas de países do Terceiro Mundo. "Desenvolver primeiro e pagar
os custos da poluição depois", disse Cavalcanti. Hoje isso
soa absurdo, naquele tempo era apenas nacionalismo, e não produziu muita
celeuma. Chaminés fumegando 24 horas representavam crescimento econômico,
e as questões ambientais - mesmo tragédias como o vazamento
de gases letais de uma fábrica de agrotóxicos na cidade indiana
de Bhopal - podiam ser lavadas com o tempo. "Por muitos anos, as empresas
atuaram sem pensar no impacto de seu negócio no ambiente e na sociedade",
diz o pesquisador Alexandre Lerípio, da Universidade Federal de Santa
Catarina.
Fernando Cavalcanti![]() |
| CUBATÃO, 2009 Depois de quinze anos, a pressão da sociedade e novas tecnologias permitiram que a natureza ao redor reagisse |
Hoje, o passado é passado a limpo. Não fazê-lo
equivale a entrar num acostamento, ficar à margem dos bons negócios.
Nos padrões atuais da legis-lação brasileira, siderúrgicas
e petroquímicas dos anos 1970 e 1980 não conseguiriam licença
ambiental para funcionar. Ícones desse tempo sujo tiveram de se reinventar
- modernizar os processos foi o atalho para melhorar a imagem e, atrelado
a esse movimento, ter bons resultados financeiros. A antiga Companhia Siderúrgica
Paulista (Cosipa) é o mais notável caso de sucesso dessa mudança.
Localizada no polo industrial de Cubatão, na Baixada Santista, em São
Paulo, durante muito tempo foi o Armagedon, a empresa mais poluidora do Brasil,
símbolo negativo de tudo o que não se desejava.
Responsável por quase um terço da produção de aço nacional, contaminava o ar com uma vasta família de partículas sólidas de óxidos e a água do Rio Mogi com óxido de ferro, resíduo da laminação das chapas. Contribuiu com uma parcela tristemente fundamental para a construção do cenário caótico da região: uma nuvem densa de poluentes pairava sempre sobre a cidade; a Serra do Mar sofreu erosão por causa da chuva ácida; espécies animais desapareceram; e o nascimento de bebês anencéfalos se tranformou no rosto da tragédia. A pressão da comunidade local e as primeiras regulamentações da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) forçaram uma reviravolta de postura. Era isso ou morrer.
No fim da década de 80, a siderúrgica começou a investir em tecnologias de controle ambiental, estratégia reforçada com a compra da ex-estatal pela Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais (Usiminas). A empresa mineira empregou 430 milhões de dólares em equipamentos que minimizaram a poluição nos últimos dezesseis anos. As duas principais fontes de danos ambientais foram neutralizadas. As partículas sólidas, antes jogadas no ar, são agora filtradas e recuperadas como combustível na etapa de fabricação do aço. A água que antes poluía o Rio Mogi passou a ser tratada.
Atualmente, a companhia tem certificação de gestão ambiental e já ganhou prêmios por redução das emissões de CO2. "Foi difícil combinar preocupações sociais e ambientais em uma cultura focada apenas no crescimento econômico", diz José Erasmo Andrade, superintendente da Usiminas em Cubatão. "Trinta anos atrás não havia nem essa consciência nem tecnologia para produzir nos padrões atuais."
As empresas já nascem e crescem com cuidados ambientais - mas a urgência ainda é regra. Quase sempre, só há reação depois de crises. Foi o caso da Petrobras. Em 2000, a imagem da companhia ruiu depois de dois grandes acidentes ambientais no período de seis meses: um vazamento de 1,3 milhão de litros de óleo de uma plataforma na Baía de Guanabara e outro de 4 milhões de litros de óleo no Rio Barigui, afluente do Iguaçu, no Paraná. De imediato, criou-se o Programa de Excelência em Gestão Ambiental e Segurança Operacional, em que foram investidos 10 bilhões de reais até 2007 em treinamento, tecnologia e melhoria dos processos. Desde 2006, a empresa faz parte do Índice Dow Jones de Sustentabilidade, da Bolsa de Nova York. No Brasil, integrou o Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa nos anos de 2006 e 2007. A permanência nos seletos grupos de companhias mais sustentáveis segundo os rankings do mercado financeiro é como um selo de acesso ao futuro economicamente limpo.
Empresas que não estão associadas às boas regras da sustentabilidade aos poucos são catalogadas como predatórias também em outros segmentos do sistema financeiro, como os bancos. O Santander, por exemplo, não financia projetos que desrespeitem o ecossistema da Amazônia. Tem linhas de financiamento especiais para negócios com baixo impacto ambiental, ideias nascidas na gestão do presidente Fábio Barbosa, reconhecido como o primeiro "banqueiro verde" do Brasil, profissional que representa no país o aspecto mais avançado de uma tendência global. "No passado, o Banco Mundial financiava barragens que arrasavam cidades inteiras", afirma o engenheiro ambiental Fernando Almeida, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável. "Hoje, não se financiam projetos sem controle rígido de impacto social e ambiental."
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