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Edição 1989 . 30 de dezembro de 2006

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A semana: INTERNACIONAL
Encontro marcado com a forca

Reuters
Saddam: depois da confirmação da pena máxima, apelo em nome do "amor e da convivência fraterna"

Até o fim da semana, faltava só um carimbo para Saddam Hussein subir o cadafalso e, com uma corda no pescoço, pender da forca até a morte. Por decisão de última instância, na terça-feira passada, as autoridades penitenciárias teriam um prazo máximo de trinta dias para executar a sentença de morte, uma vez recebida a autorização final da Presidência da República do Iraque – a idéia era apressar os trâmites. O crime que lhe valeu a forca foi o massacre retaliatório de 148 xiitas na cidade de Dujail, em 1982. Embora horrenda, essa carnificina é quase uma gota d'água no oceano de barbaridades cometidas pelo tirano – não só a perseguição implacável dos inimigos internos (e dos amigos suspeitos também, pois essa é a regra dos déspotas), como as duas guerras que ele desfechou, contra o Irã e contra o Kuwait, que redundaram numa conta total de mais de 1 milhão de mortos e na desgraça do próprio Iraque. Diante desses horrores, quem vai chorar por Saddam? Primeiro, a parcela do mundo civilizado que não aceita a pena de morte em nenhuma circunstância. Segundo, aqueles que se preocupam sinceramente com o destino do Iraque e não acreditam que o enforcamento de Saddam vá contribuir para melhorar a situação caótica do país. O grande drama hoje do Iraque é o conflito étnico-religioso cada vez mais grave, que coloca curdos e xiitas – os vencedores pós-invasão americana – contra os sunitas. Durante o reinado de Saddam, os primeiros foram impiedosamente perseguidos, o que não significa que os outros tenham vivido num mar de rosas. Ainda assim, são os sunitas, cerca de 20% da população iraquiana, que estão na posição de perdedores – tanto que, ironicamente, a única garantia que têm no momento contra massacres em massa é a presença das forças de ocupação dos Estados Unidos. Em favor da pena capital, poder-se-ia argumentar com o fator Nuremberg: o fim de um regime autoritário de natureza hedionda, mas com raízes em pelo menos parte da população, precisa ser sacramentado com o sangue de seus representantes máximos, como aconteceu com o julgamento de parte da cúpula nazista depois da II Guerra Mundial. Ocorre que o Iraque de hoje não é a Alemanha do pós-guerra, e a relevância simbólica de Saddam praticamente desapareceu fora dos limites de sua região tribal. Além disso, a resistência às forças americanas é travada majoritariamente por radicais de inspiração religiosa que jamais tiveram a menor simpatia pelo ditador. "Saddam ainda é um símbolo, mas não é tão importante como há três anos. Os sunitas se acostumaram com o fato de ele estar fora do poder e atuam de forma independente", disse a VEJA o americano Richard Stoll, professor de ciência política da Universidade Rice, em Houston. O que o Iraque mais precisa hoje é de conciliação, hipótese que parece uma miragem diante do crescendo de ódio sectário e para a qual a execução do tirano em nada contribuirá. Um apelo surrealista pela harmonia foi feito pelo próprio Saddam, depois da sentença final, conclamando os iraquianos a dar um "exemplo de amor, clemência e coexistência fraterna". Só mesmo a perspectiva da forca para concentrar a atenção do déspota caído naquilo que ele nunca promoveu.
 
 
 
 
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