|
|
A semana: INTERNACIONAL
Encontro marcado com a forca
Reuters  | | Saddam:
depois da confirmação da pena
máxima, apelo em nome do "amor e da convivência fraterna"
| Até
o fim da semana, faltava só um carimbo para Saddam Hussein subir o cadafalso
e, com uma corda no pescoço, pender da forca até a morte. Por decisão
de última instância, na terça-feira passada, as autoridades
penitenciárias teriam um prazo máximo de trinta dias para executar
a sentença de morte, uma vez recebida a autorização final
da Presidência da República do Iraque a idéia era apressar
os trâmites. O crime que lhe valeu a forca foi o massacre retaliatório
de 148 xiitas na cidade de Dujail, em 1982. Embora horrenda, essa carnificina
é quase uma gota d'água no oceano de barbaridades cometidas pelo
tirano não só a perseguição implacável
dos inimigos internos (e dos amigos suspeitos também, pois essa é
a regra dos déspotas), como as duas guerras que ele desfechou, contra o
Irã e contra o Kuwait, que redundaram numa conta total de mais de 1 milhão
de mortos e na desgraça do próprio Iraque. Diante desses horrores,
quem vai chorar por Saddam? Primeiro, a parcela do mundo civilizado que não
aceita a pena de morte em nenhuma circunstância. Segundo, aqueles que se
preocupam sinceramente com o destino do Iraque e não acreditam que o enforcamento
de Saddam vá contribuir para melhorar a situação caótica
do país. O grande drama hoje do Iraque é o conflito étnico-religioso
cada vez mais grave, que coloca curdos e xiitas os vencedores pós-invasão
americana contra os sunitas. Durante o reinado de Saddam, os primeiros
foram impiedosamente perseguidos, o que não significa que os outros tenham
vivido num mar de rosas. Ainda assim, são os sunitas, cerca de 20% da população
iraquiana, que estão na posição de perdedores tanto
que, ironicamente, a única garantia que têm no momento contra massacres
em massa é a presença das forças de ocupação
dos Estados Unidos. Em favor da pena capital, poder-se-ia argumentar com o fator
Nuremberg: o fim de um regime autoritário de natureza hedionda, mas com
raízes em pelo menos parte da população, precisa ser sacramentado
com o sangue de seus representantes máximos, como aconteceu com o julgamento
de parte da cúpula nazista depois da II Guerra Mundial. Ocorre que o Iraque
de hoje não é a Alemanha do pós-guerra, e a relevância
simbólica de Saddam praticamente desapareceu fora dos limites de sua região
tribal. Além disso, a resistência às forças americanas
é travada majoritariamente por radicais de inspiração religiosa
que jamais tiveram a menor simpatia pelo ditador. "Saddam ainda é um símbolo,
mas não é tão importante como há três anos.
Os sunitas se acostumaram com o fato de ele estar fora do poder e atuam de forma
independente", disse a VEJA o americano Richard Stoll, professor de ciência
política da Universidade Rice, em Houston. O que o Iraque mais precisa
hoje é de conciliação, hipótese que parece uma miragem
diante do crescendo de ódio sectário e para a qual a execução
do tirano em nada contribuirá. Um apelo surrealista pela harmonia foi feito
pelo próprio Saddam, depois da sentença final, conclamando os iraquianos
a dar um "exemplo de amor, clemência e coexistência fraterna". Só
mesmo a perspectiva da forca para concentrar a atenção do déspota
caído naquilo que ele nunca promoveu. |