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Retrospectiva
2006: CARTA DO EDITOR
A verdadeira
questão é como fazer

Roberto Civita
No limiar de não apenas mais um ano
novo, mas também do segundo mandato do presidente Lula, elenco
a seguir algumas reflexões e convicções que
constituem a base do que VEJA
e seu editor pensam sobre os desafios que o Brasil enfrenta agora.
Do nosso ponto de vista, a recente campanha
eleitoral demonstrou que existe um vasto consenso referente à
necessidade de acelerar o crescimento econômico do país
e, ao mesmo tempo, melhorar a sua distribuição de
renda. Entre aqueles que pensam o Brasil, há animadora concordância
em que isso exige manter a estabilidade e a previsibilidade econômicas,
eliminar as já conhecidíssimas barreiras ao desenvolvimento,
combater a corrupção para valer, reduzir drasticamente
a ineficiência e o desperdício da administração
pública e avançar com energia na melhoria do nosso
deplorável sistema de educação. Todas as declarações
do presidente Lula, desde sua triunfante reeleição,
confirmam que ele compartilha essa visão e está empenhado
em desta vez fazer todo o possível para implementá-la.
A verdadeira questão, portanto,
não está mais no que fazer, mas no como.
Já aprendemos que não bastam
boas idéias, discursos e "vontade política" para fazer
mudanças. É preciso competência, persistência
e a verdadeira capacidade de liderar que consiste em persuadir
as pessoas a seguir o caminho traçado pelo próprio
líder. Ou seja, embora nenhum presidente (ou outro governante)
possa sozinho mudar nada, ele pode e deve apontar
o caminho, arregimentar apoios, escolher ministros e assessores
competentes, disciplinar quem sair da linha... Enfim, dar o tom
e o exemplo.
De seu lado, o novo Congresso precisa mostrar
que está aí para algo além de cuidar dos interesses
dos seus integrantes ou de suas regiões eleitorais. Precisa
demonstrar pelo menos de vez em quando que coloca
os interesses do futuro do país à frente dos pessoais,
políticos ou partidários.
Paralelamente, os responsáveis pelo
Judiciário podem e devem colaborar para arrastar o nosso
arcaico, excessivamente complexo e desastrosamente demorado sistema
para dentro do século XXI, por meio da simplificação,
da racionalização e da informatização.
É óbvio que isso tudo não
é apenas tarefa da esfera federal: os governos estaduais
e municipais também precisam se engajar nas reformas indispensáveis
e na gestão responsável do volumoso e sofrido dinheiro
público que lhes é confiado.
Aliás, gestão é
a palavra-chave para todo o setor público. Enquanto a iniciativa
privada nacional avança a passos largos, aplicando os princípios
básicos que compõem a essência da boa gestão,
o setor público continua ignorando que nada pode funcionar
bem enquanto não forem estabelecidas metas claras, prazos
para a sua realização, processos inteligentes, controle
sistemático, medidas corretivas onde e quando necessário,
sanções para os infratores e incentivos para quem
merece.
Enquanto não acompanharmos, não
medirmos e não cobrarmos, não faremos. Ou, pelo menos,
não faremos direito.
Idealmente, toda a sociedade e todos os
eleitores deveriam integrar um vasto leque de medidores e cobradores.
Não apenas para apontar erros e falhas, mas também
para reconhecer, aplaudir e reeleger os governantes e os partidos
que entregarem o que prometeram. Sendo, entretanto, que isso é
quase impossível nas sociedades de massa, mesmo nas democracias
mais avançadas, cabe aos meios de comunicação,
e especialmente à grande imprensa, servir como os olhos
e, sempre que possível, a consciência da nação.
É o que VEJA pretende continuar
fazendo, na torcida para que tenha cada vez menos para denunciar
e cada vez mais para aplaudir.
Roberto Civita é presidente
da Abril e editor de VEJA
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