Edição 1933 . 30 de novembro de 2005

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Cinema
O paraíso perdido

Em O Mundo de Jack e Rose,
um pai e uma filha vivem um idílio
fadado a não ser eterno


Isabela Boscov

Numa ilha que é uma espécie de paraíso, isolada pelo Atlântico, intocada pelo progresso e pontilhada por flores de cores extravagantes, Jack e Rose vivem como se fossem o único homem e a única mulher sobre a terra. Os dois amam-se profundamente, também. Talvez até demais. Último remanescente de uma comunidade hippie da qual foi o líder, Jack (Daniel Day-Lewis) está entrando na casa dos 50 anos com um coração prestes a falhar, um temperamento cada vez mais inflexível e uma paixão intensa, a caminho de se tornar incestuosa, pela filha Rose (Camilla Belle) – que, por sua vez, está chegando à adolescência num estado quase primitivo de inocência. Tendo então essa serpente se insinuado no seu éden, Jack decide combatê-la com outra, de veneno semelhante. Num impulso, convida sua amante (Catherine Keener), mãe solteira de dois rapazes, para morar com ele. E, assim, precipita deliberadamente o fim de seus sonhos, em O Mundo de Jack e Rose (The Ballad of Jack and Rose, Estados Unidos, 2005), desde sexta-feira em cartaz em São Paulo e Brasília.

A diretora Rebecca Miller, filha temporã do dramaturgo Arthur Miller (1915-2005) e mulher de Day-Lewis, sabe uma coisa ou outra sobre figuras paternas colossais, sobre homens complicados e sobre ser o objeto maior de afeição de uns e de outros. É tentador, portanto, olhar esse seu filme singular pelo ângulo biográfico. O exercício não é fútil, mas não basta para dar conta do que Rebecca conseguiu aqui: uma fábula quase expressionista, magnificamente dirigida, sobre as partes iguais de dor e excitação que seus personagens sofrem quando essa bolha de sabão que é sua vida a dois se rompe. O mundo que está além dessa redoma, afinal, não é tão ameaçador quanto Jack se lembrava – e por isso mesmo pode roubar dele a filha mais facilmente. Também o amor do pai por Rose não pode ser tão completo quanto ela quer –a­ e por isso ela se entrincheira nele, como uma Eva que se recusa, contra toda força e todas as evidências, a ser expulsa de seu paraíso. Jack, um escocês que se encantou com a promessa que os Estados Unidos pareciam ser no fim dos anos 60, serve também como comentário de Rebecca sobre os ideais exauridos de uma geração. Mas esse é quase que um aparte ao tema que ocupa a diretora: a admiração, o respeito e a gratidão pelo sacrifício, que não é pequeno, de um pai em expelir uma filha de seu mundo e entregá-la ao mundo dos outros.

 
 
 
 
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