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Cinema O
paraíso perdido Em O Mundo
de Jack e Rose, um pai e uma filha vivem um idílio fadado a
não ser eterno  Isabela
Boscov
Numa ilha que é uma espécie
de paraíso, isolada pelo Atlântico, intocada pelo progresso e pontilhada
por flores de cores extravagantes, Jack e Rose vivem como se fossem o único
homem e a única mulher sobre a terra. Os dois amam-se profundamente, também.
Talvez até demais. Último remanescente de uma comunidade hippie
da qual foi o líder, Jack (Daniel Day-Lewis) está entrando na casa
dos 50 anos com um coração prestes a falhar, um temperamento cada
vez mais inflexível e uma paixão intensa, a caminho de se tornar
incestuosa, pela filha Rose (Camilla Belle) que, por sua vez, está
chegando à adolescência num estado quase primitivo de inocência.
Tendo então essa serpente se insinuado no seu éden, Jack decide
combatê-la com outra, de veneno semelhante. Num impulso, convida sua amante
(Catherine Keener), mãe solteira de dois rapazes, para morar com ele. E,
assim, precipita deliberadamente o fim de seus sonhos, em O Mundo de Jack
e Rose (The Ballad of Jack and Rose, Estados Unidos, 2005), desde sexta-feira
em cartaz em São Paulo e Brasília.
A diretora Rebecca Miller, filha temporã do dramaturgo Arthur Miller (1915-2005)
e mulher de Day-Lewis, sabe uma coisa ou outra sobre figuras paternas colossais,
sobre homens complicados e sobre ser o objeto maior de afeição de
uns e de outros. É tentador, portanto, olhar esse seu filme singular pelo
ângulo biográfico. O exercício não é fútil,
mas não basta para dar conta do que Rebecca conseguiu aqui: uma fábula
quase expressionista, magnificamente dirigida, sobre as partes iguais de dor e
excitação que seus personagens sofrem quando essa bolha de sabão
que é sua vida a dois se rompe. O mundo que está além dessa
redoma, afinal, não é tão ameaçador quanto Jack se
lembrava e por isso mesmo pode roubar dele a filha mais facilmente. Também
o amor do pai por Rose não pode ser tão completo quanto ela quer
a e por isso ela se entrincheira nele, como uma Eva que se recusa,
contra toda força e todas as evidências, a ser expulsa de seu paraíso.
Jack, um escocês que se encantou com a promessa que os Estados Unidos pareciam
ser no fim dos anos 60, serve também como comentário de Rebecca
sobre os ideais exauridos de uma geração. Mas esse é quase
que um aparte ao tema que ocupa a diretora: a admiração, o respeito
e a gratidão pelo sacrifício, que não é pequeno, de
um pai em expelir uma filha de seu mundo e entregá-la ao mundo dos outros.
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