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Fotografia Imagens
que revelam o invisível Mostra
do fotógrafo Edison Russo reúne retratos de moradores de rua
de São Paulo, em um trabalho que desvela a loucura e a individualidade
dos miseráveis que se confundem com a paisagem urbana
 Camila
Pereira  | O
FILÓSOFO O goiano Raimundo Arruda Sobrinho,
de 66 anos, vive há 27 anos na rua. Já trabalhou como pedreiro e
jardineiro. Hoje, passa o dia sentado em um banco improvisado num canteiro do
bairro de Pinheiros, escrevendo "idéias soltas" |
São
Paulo tem quase 11.000 moradores de rua, de acordo com o último censo da
Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Eles são,
em sua maioria, homens (84%), com idades que variam entre 26 e 55 anos (65%).
Espalhados pelos canteiros e viadutos da cidade, formam uma massa silenciosa e
invisível um elemento da paisagem urbana do qual a sociedade se
acostumou a desviar o olhar. O fotógrafo Edison Russo que construiu
sua carreira no mercado publicitário fez o inverso. Durante seis
meses, observou o universo das ruas e dedicou-se a garimpar aquilo que seus habitantes
têm de mais oculto: suas singularidades. "Moradores de rua são sempre
uma estatística. Busquei retratos que os individualizassem, que mostrassem
o que cada um tem de peculiar", diz Russo. O resultado do trabalho está
resumido na exposição Poetas de Almas Limpas, que abre nesta
segunda-feira, em São Paulo. São dezenove retratos de seis moradores
de rua, migrantes e paulistanos. Para produzi-los, Russo, de 53 anos, teve de
levar equipamentos e cenários até as calçadas da cidade.
A idéia inicial era fotografar os personagens em estúdio, mas eles
se negaram a ir. "E também não me deixaram ter nenhum controle sobre
a sessão de fotos", conta o fotógrafo. "Se decidissem que ela havia
acabado, eu tinha de guardar o equipamento. Percebi que têm uma noção
de tempo muito particular e nenhuma rotina."
Em sua busca pela individualidade camuflada sob cobertores velhos e roupas encardidas,
o fotógrafo deparou com um elemento freqüente no cotidiano dos moradores
de rua: a loucura. Presente nas falas, nas roupas e no comportamento de quase
todos os personagens que participam da mostra, ela é assim explicada por
um deles, Antonio Roberto de Souza Jorge, paulistano de 40 anos, dezenove dos
quais vividos nas calçadas do centro de São Paulo: "Ou o sujeito
vai para a rua porque é louco ou fica louco porque está na rua".
 | "ARIANO,
ASCENDENTE TOURO" Antonio de Souza Jorge, 40 anos,
estuda astrologia e diz que procura andar sempre bem vestido. "Por que quem mora
na rua não pode usar roupas combinando?" |
A
fotografia retratou a loucura pela primeira vez por iniciativa de um médico,
o francês Jean-Martin Charcot, fundador da neurologia moderna e mestre do
pai da psicanálise, o austríaco Sigmund Freud. No fim do século
XIX, no Hospital Salpêtrière, em Paris, então dirigido por
Charcot, foi registrada uma série de imagens de pacientes em ataques de
histeria (veja quadro). No Brasil, o fotógrafo
e psicanalista Hugo Denizart é uma das principais referências no
tema. Sua obra inclui um ensaio com internos da Colônia Psiquiátrica
Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, e um documentário sobre um de seus
mais ilustres internos o ex-marinheiro e artista plástico Arthur
Bispo do Rosário, morto em 1989. Os
loucos e desvalidos de Russo proclamam sua individualidade ao se fantasiar de
Lampião, escrever diários delirantes, relatar viagens intergalácticas
e produzir quase alegorias transformando tiras de sacos de lixo em longos mantos
negros. "A necessidade de existir no plano simbólico faz essas pessoas
criar um mundo paralelo, uma realidade própria", diz Cláudia Turra,
pesquisadora de populações de rua e doutora em antropologia social.
"As caracterizações e os personagens que criam para si surgem dessa
necessidade de ser vistos." Ao retratá-los magnificamente, Russo não
se contenta em lhes dar visibilidade: confere a eles também dignidade.  |  |  | NO
MUNDO DA LUA Mauro Queiroz, 55 anos (acima, à
esq.), cata papéis. Jessé de Souza, 47 (acima, à dir.),
se diz "detetive espacial". Luís de Oliveira (à esq.) veste-se
de Lampião porque, segundo afirma, gosta de se "produzir para aparecer"
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Retratos do inconsciente
 | | Um
ataque de histeria induzido pelo francês Jules Bernard Luys: clássico
da fotografia |
A loucura
propiciou à fotografia a produção de imagens clássicas.
No fim do século XIX, o médico francês Jean-Martin Charcot
lançou mão da hipnose para demonstrar que os ataques de histeria
não tinham nenhuma relação com a epilepsia e estavam longe
de ser um fingimento de mulheres nervosas as duas crenças então
em voga. Charcot, por meio de técnicas hipnóticas, induzia suas
pacientes a apresentar seus sintomas histéricos e logo os fazia desaparecer
o que serviu para demonstrar que eles não eram fruto de simulação
ou de fundo epilético. Nesses experimentos, que marcariam profundamente
Sigmund Freud, o pai da psicanálise, Charcot foi acompanhado por outros
médicos, como Victor Dumont-Pallier e Jules Bernard Luys. Alguns dos ataques
de histeria induzidos por eles foram registrados em fotografias impressionantes,
pertencentes ao acervo do Hospital Salpêtrière, em Paris, do qual
Charcot foi diretor. Elas mostram as pacientes em posições rígidas,
com os olhos esbugalhados, inteiramente possuídas. O que as possuía?
Freud viria a descobrir a resposta dali a alguns anos, na virada para o século
XX. As imagens do Salpêtrière ajudavam a provar, de maneira paroxística
e perturbadora, a existência de um vasto e escuro oceano que existe dentro
de cada um de nós, histéricos ou não, ao sabor do qual fazemos
nossas escolhas e levamos nossa vida. Um oceano chamado inconsciente. |
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