Edição 1933 . 30 de novembro de 2005

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Fotografia
Imagens que revelam
o invisível

Mostra do fotógrafo Edison Russo reúne
retratos de moradores de rua de São Paulo,
em um trabalho que desvela a loucura e a
individualidade dos miseráveis que se
confundem com a paisagem urbana


Camila Pereira

 

O FILÓSOFO
O goiano Raimundo Arruda Sobrinho, de 66 anos, vive há 27 anos na rua. Já trabalhou como pedreiro e jardineiro. Hoje, passa o dia sentado em um banco improvisado num canteiro do bairro de Pinheiros, escrevendo "idéias soltas"


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São Paulo tem quase 11.000 moradores de rua, de acordo com o último censo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Eles são, em sua maioria, homens (84%), com idades que variam entre 26 e 55 anos (65%). Espalhados pelos canteiros e viadutos da cidade, formam uma massa silenciosa e invisível – um elemento da paisagem urbana do qual a sociedade se acostumou a desviar o olhar. O fotógrafo Edison Russo – que construiu sua carreira no mercado publicitário – fez o inverso. Durante seis meses, observou o universo das ruas e dedicou-se a garimpar aquilo que seus habitantes têm de mais oculto: suas singularidades. "Moradores de rua são sempre uma estatística. Busquei retratos que os individualizassem, que mostrassem o que cada um tem de peculiar", diz Russo. O resultado do trabalho está resumido na exposição Poetas de Almas Limpas, que abre nesta segunda-feira, em São Paulo. São dezenove retratos de seis moradores de rua, migrantes e paulistanos. Para produzi-los, Russo, de 53 anos, teve de levar equipamentos e cenários até as calçadas da cidade. A idéia inicial era fotografar os personagens em estúdio, mas eles se negaram a ir. "E também não me deixaram ter nenhum controle sobre a sessão de fotos", conta o fotógrafo. "Se decidissem que ela havia acabado, eu tinha de guardar o equipamento. Percebi que têm uma noção de tempo muito particular e nenhuma rotina."

Em sua busca pela individualidade camuflada sob cobertores velhos e roupas encardidas, o fotógrafo deparou com um elemento freqüente no cotidiano dos moradores de rua: a loucura. Presente nas falas, nas roupas e no comportamento de quase todos os personagens que participam da mostra, ela é assim explicada por um deles, Antonio Roberto de Souza Jorge, paulistano de 40 anos, dezenove dos quais vividos nas calçadas do centro de São Paulo: "Ou o sujeito vai para a rua porque é louco ou fica louco porque está na rua".

"ARIANO, ASCENDENTE TOURO"
Antonio de Souza Jorge, 40 anos, estuda astrologia e diz que procura andar sempre bem vestido. "Por que quem mora na rua não pode usar roupas combinando?"

A fotografia retratou a loucura pela primeira vez por iniciativa de um médico, o francês Jean-Martin Charcot, fundador da neurologia moderna e mestre do pai da psicanálise, o austríaco Sigmund Freud. No fim do século XIX, no Hospital Salpêtrière, em Paris, então dirigido por Charcot, foi registrada uma série de imagens de pacientes em ataques de histeria (veja quadro). No Brasil, o fotógrafo e psicanalista Hugo Denizart é uma das principais referências no tema. Sua obra inclui um ensaio com internos da Colônia Psiquiátrica Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, e um documentário sobre um de seus mais ilustres internos – o ex-marinheiro e artista plástico Arthur Bispo do Rosário, morto em 1989.

Os loucos e desvalidos de Russo proclamam sua individualidade ao se fantasiar de Lampião, escrever diários delirantes, relatar viagens intergalácticas e produzir quase alegorias transformando tiras de sacos de lixo em longos mantos negros. "A necessidade de existir no plano simbólico faz essas pessoas criar um mundo paralelo, uma realidade própria", diz Cláudia Turra, pesquisadora de populações de rua e doutora em antropologia social. "As caracterizações e os personagens que criam para si surgem dessa necessidade de ser vistos." Ao retratá-los magnificamente, Russo não se contenta em lhes dar visibilidade: confere a eles também dignidade.

 

NO MUNDO DA LUA
Mauro Queiroz, 55 anos (acima, à esq.), cata papéis. Jessé de Souza, 47 (acima, à dir.), se diz "detetive espacial". Luís de Oliveira (à esq.) veste-se de Lampião porque, segundo afirma, gosta de se "produzir para aparecer"

 

Retratos do inconsciente

Um ataque de histeria induzido pelo francês Jules Bernard Luys: clássico da fotografia

A loucura propiciou à fotografia a produção de imagens clássicas. No fim do século XIX, o médico francês Jean-Martin Charcot lançou mão da hipnose para demonstrar que os ataques de histeria não tinham nenhuma relação com a epilepsia e estavam longe de ser um fingimento de mulheres nervosas – as duas crenças então em voga. Charcot, por meio de técnicas hipnóticas, induzia suas pacientes a apresentar seus sintomas histéricos e logo os fazia desaparecer – o que serviu para demonstrar que eles não eram fruto de simulação ou de fundo epilético. Nesses experimentos, que marcariam profundamente Sigmund Freud, o pai da psicanálise, Charcot foi acompanhado por outros médicos, como Victor Dumont-Pallier e Jules Bernard Luys. Alguns dos ataques de histeria induzidos por eles foram registrados em fotografias impressionantes, pertencentes ao acervo do Hospital Salpêtrière, em Paris, do qual Charcot foi diretor. Elas mostram as pacientes em posições rígidas, com os olhos esbugalhados, inteiramente possuídas. O que as possuía? Freud viria a descobrir a resposta dali a alguns anos, na virada para o século XX. As imagens do Salpêtrière ajudavam a provar, de maneira paroxística e perturbadora, a existência de um vasto e escuro oceano que existe dentro de cada um de nós, histéricos ou não, ao sabor do qual fazemos nossas escolhas e levamos nossa vida. Um oceano chamado inconsciente.

 
 
 
 
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