Edição 1933 . 30 de novembro de 2005

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Crime
País de fraudadores

Golpes pela internet são a terceira
maior fonte de divisas da Nigéria


José Eduardo Barella


AP
Nigerianos num cibercafé de Lagos: avisos contra o golpe 419, o 171 deles

A Nigéria é a campeã mundial de fraudes pela internet. Estima-se que a roubalheira on-line represente a terceira maior fonte de divisas do país, depois das exportações de petróleo e de cacau. Só nos Estados Unidos, onde se concentra a maioria das vítimas, os golpistas nigerianos arrancam a cada ano 1 bilhão de dólares de pessoas e empresas. Uma comissão criada pelo governo da Nigéria para combater esse tipo de fraude estimou que pelo menos 1,3 milhão de pessoas, 1% da população, vivam desses golpes. O conto-do-vigário eletrônico é conhecido por lá pelo apelido de 419, referência ao número do artigo do código penal que trata desse tipo de delito. O equivalente ao 171 no Brasil. A lei prevê penas de até dez anos de cadeia para os golpistas.

O esquema nigeriano é simples, óbvio e vem se repetindo há tanto tempo que causa espanto que ainda engane alguém. Tem variações, mas se trata basicamente do mesmo golpe. O mais utilizado consiste em fisgar a vítima pedindo ajuda para movimentar uma grande quantia em dinheiro de uma conta para outra, com a promessa de dar uma porcentagem do valor. Nesse caso, os fraudadores se identificam, no e-mail, como parentes de políticos corruptos que estão com dificuldade para sacar o dinheiro da herança por se tratar de dinheiro ilícito. As pessoas que aceitam entrar no falso esquema são instruídas a enviar uma determinada quantia aos fraudadores, com a desculpa de que é preciso abrir uma conta em um banco ou pagar taxas para concluir a transação. Obviamente, depois que as vítimas entregam o dinheiro, os vigaristas desaparecem.

Outra fraude comum é a de nigerianos que se fazem passar por mulheres em busca de marido em países ricos. A isca utilizada na internet são fotos de mulheres atraentes. Os golpistas pedem que o pretendente envie o dinheiro para a passagem aérea e em seguida desaparecem. Calcula-se que cerca de 70% das pessoas que respondem ao primeiro e-mail acabam caindo em um golpe. Num país em que a corrupção é endêmica – a Nigéria está entre as dez nações mais corruptas do planeta, segundo a ONG Transparência Internacional –, os golpes envolvem desde funcionários do governo e de bancos, que falsificam documentos e encobrem os delitos, até os milhares de ratos de internet, que chegam a enviar 500 e-mails por dia a potenciais vítimas em todo o mundo. Nos golpes mais sofisticados, a vítima chega a se encontrar com os golpistas dentro de instituições oficiais da Nigéria, como bancos e órgãos públicos, o que dá credibilidade às histórias inventadas. Apenas nos últimos dois anos, depois de ser pressionado pelo governo americano para controlar as movimentações financeiras feitas a partir do país, o governo da Nigéria começou a tomar as primeiras medidas de combate às fraudes de internet. Há duas semanas, a Justiça do país condenou dois nigerianos que deram um golpe de 242 milhões de dólares no extinto Banco Noroeste, de São Paulo – a maior fraude via internet de que se tem notícia no mundo.

 
 
 
 
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