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Brasil
O paradoxo do homem forte
Após duas semanas de luta
interna e dezoito
horas de depoimento no Congresso, Palocci
fica ainda mais forte mas vira um caso raro:
o ministro mais "imprescindível" do governo
é também o mais vulnerável

Otávio Cabral e Julia Duailibi
Alana Marques/Folha Imagem
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NO HORIZONTE
Palocci, após uma semana duríssima: ele
fica mais forte, mas até quando? |
Antonio Palocci é o homem
forte do governo Lula. Com seu poder incontrastável na Esplanada
dos Ministérios, sobretudo depois que José Dirceu
foi enxotado da Casa Civil pela avalanche de corrupção,
Palocci já foi alvo de inúmeras manifestações
de apreço do presidente. Na semana passada, para desarmar
um clima de crescente desconfiança quanto à sua permanência
no governo, Palocci voltou a ser fartamente elogiado pelo presidente.
Num dia, para garantir que o ministro seguiria no comando do Ministério
da Fazenda, Lula disse que Palocci estava "mais firme do que nunca"
no cargo. No outro, afirmou que o ministro era "imprescindível"
e voltou a garantir que ficaria ministro até o fim do governo.
"As pessoas deveriam ser agradecidas pelo que o Palocci fez pela
economia deste país", disse. O presidente terminou a semana
comparando seu ministro ao jogador Ronaldinho, do Barcelona, a maior
unanimidade mundial no futebol de hoje. Está claríssimo,
portanto, que Antonio Palocci é um ministro fundamental.
Exerce uma função vital para o governo e o país
e a excelência de seu desempenho é notória.
E é aí que começam os problemas.
Tudo estaria serenamente resolvido
se Antonio Palocci, o ministro imprescindível, não
fosse ao mesmo tempo o ministro mais vulnerável da Esplanada
dos Ministérios. Desde que seu nome escorregou para o centro
das denúncias de irregularidades, Palocci passou a ter de
gastar parte de seu tempo desanuviando suspeitas todas geradas
por revelações de antigos colaboradores, sombras de
seu tempo de prefeito em Ribeirão Preto, no interior de São
Paulo. Nas últimas semanas, tem sido fustigado com a acusação
de que montou um caixa dois para o PT quando passou pela prefeitura
de Ribeirão Preto, uma acusação que, aos poucos,
vem obtendo, a cada passo que avança, contornos cada vez
mais nítidos. O ministro também já foi acusado
de participar da arrecadação clandestina de recursos
eleitorais para a campanha presidencial de 2002. Ele ainda convive
com as evidências de que seus ex-assessores de Ribeirão
Preto enxergaram a ascensão do chefe ao Ministério
da Fazenda como uma oportunidade para fazer negócios obscuros.
Uma reportagem (na pág. 50) de
VEJA mostra que ex-assessores de Palocci envolveram-se até
com a compra de um banco no Rio de Janeiro. É impossível
prever onde essa bola de neve de suspeitas vai parar.
Celso Junior/AE
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SIMPATIA PRESIDENCIAL
A ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil,
que detonou a crise: ela não faz sombra a Lula |
O que significa para o governo
e o país ter um ministro que é, ao mesmo tempo, imprescindível
e vulnerável? Na semana passada, depois de passar por dias
de duríssima luta interna para ficar no cargo, Palocci arrancou
uma ampla vitória. Ficou, e ficou mais forte. Provou que
não pode ser demitido, ainda que o presidente Lula tenha
desejado demiti-lo em algum momento. Ou melhor: provou que o custo
de sua demissão é muito mais alto do que Lula talvez
tenha imaginado. Na semana anterior, o presidente ficou especialmente
irritado quando Palocci, ao depor por dez horas no Senado, disse
que estava no governo para cumprir a atual política econômica
e não outra. Lula encarou a declaração
como uma intimidação e entendeu que Palocci estava
se credenciando para ser o único e maior fiador da estabilidade
econômica, acima do próprio presidente. Em resposta,
dias depois, Lula disse, numa solenidade, que não existia
uma política econômica do ministro Palocci. "Tem política
econômica do governo." Palocci percebeu que sua fritura podia
estar em curso, pois fustigara a autoridade do presidente
e foi à luta armado até os dentes para não
ser despejado do cargo.
Na batalha para ficar, a equipe
de Palocci atuou em várias frentes. Contando com o apoio
da parcela mais robusta do PIB nacional e com a simpatia aberta
da própria oposição, Palocci acirrou a briga
com a ministra Dilma Rousseff, batendo pé em um superávit
primário mais elevado que a meta de 4,25% do PIB. Seus assessores
se empenharam em espalhar boatos de pedidos de demissão do
ministro que nunca aconteceram. O mais longe que Palocci chegou
foi indagar ao presidente se deveria deixar o cargo, mas nunca colocou
uma carta de demissão sobre a mesa. Numa dessas ocasiões,
na segunda-feira pela manhã, Lula mostrou-se incomodado.
"Deixa de frescura, Palocci, já disse que quero que você
fique", reagiu o presidente. Para completar o quadro, usou-se a
arma de possíveis substitutos. O nome mais freqüente
é o do senador Aloizio Mercadante, do PT paulista. Na dúvida,
Mercadante chegou a listar nomes de uma equipe ministerial. Alguns
foram consultados. Até o ministro Ciro Gomes apareceu no
jogo. Sabendo que Ciro causa urticária no mercado, a intenção,
ao vazar seu nome, era mesmo essa: assustar. Ciro se queixou com
o presidente. Com isso tudo, o cacife de Palocci foi subindo. Os
recados recebidos do mercado apontaram na mesma direção:
"O.k., presidente, o senhor tem compromisso com a estabilidade,
mas Palocci é seu único executor confiável
no governo". A cada cambaleada de Palocci, a bolsa caía e
o dólar subia. Lula acabou emparedado e rendeu-se, mais uma
vez, ao óbvio: sem Palocci seu governo volta a ser uma incógnita.
O capítulo mais quente
da novela aconteceu na noite de segunda-feira, quando Lula e Palocci
conversaram das 20 horas até quase meia-noite, no Palácio
do Planalto, com a presença do presidente do Banco Central,
Henrique Meirelles. A conversa, de acordo com relatos obtidos por
VEJA, teve momentos de rispidez, mas chegou-se a um acordo altamente
favorável a Palocci. Lula aceitou as condições
do ministro para permanecer. Concordou em elevar o superávit
primário para algo entre 4,5% e 4,75% do PIB, dando a Palocci
a vitória que pleiteava sobre Dilma Rousseff. Em contrapartida,
Lula exigiu que os investimentos e a queda dos juros fossem acelerados.
Na conversa, o presidente mostrou sua preocupação
com o resultado raquítico da economia no terceiro trimestre
do ano e pediu uma recuperação mais forte neste trimestre
final. Palocci reclamou: "Virei o centro das atenções.
Administro crise de partido, de governo, de economia, de Ribeirão
Preto, tudo publicamente. É demais. Não posso ser
fritado. Se for para virar José Dirceu, eu saio". Com uma
dose de desprezo, Lula reagiu: "Pára de falar em sair. O
ministro é você mesmo. Mas baixe a bola e erre menos".
Ao tornar-se, a um só
tempo, imprescindível e vulnerável, Palocci virou
um caso raro na história dos ministros da Fazenda. Nos dois
mandatos de Fernando Henrique, o ministro Pedro Malan exerceu um
papel essencial na economia. Foi torpedeado internamente muitas
vezes, mas jamais esteve exposto a instabilidade gerada por denúncias
de irregularidades. Nesse quesito, Malan foi um inigualável
mar de serenidade. Talvez a situação de Palocci só
tenha paralelo na passagem do político mineiro José
Maria Alkmin pela Fazenda, entre fevereiro de 1956 e junho de 1958.
Como Palocci para Lula, Alkmin também era fundamental para
Juscelino Kubitschek. O ministro era o cérebro da industrialização
acelerada, era festejado pelo empresariado, tinha trânsito
fácil no Congresso e arregimentara até a simpatia
de setores da oposição. Mas, apesar de seu amplo cardápio
de vantagens, Alkmin era uma fonte de incômodo ético,
já que nunca deixou de ser fustigado por deslizes envolvendo
negócios fraudulentos com uísque importado
então uma mercadoria de alto luxo acessível apenas
aos muito ricos. Aos olhos de hoje, o dado positivo é que
a saída de Alkmin do governo, quando sua substituição
se tornou inevitável, não produziu guinada significativa
na política econômica. Se o desfecho da ambigüidade
atual de Lula for semelhante, menos mau. Mas, por enquanto, essa
é uma aposta arriscada. A economia vive um período
de ouro, tanto na administração das finanças
públicas quanto no Brasil real, onde o emprego está
em alta.
A força com que Palocci
impôs-se no governo explica muito sobre a centralidade de
sua função e a vitalidade de sua musculatura política
mas, como tudo agora em Palocci parece encerrar-se num grande
paradoxo, é também uma fonte permanente de risco.
Na luta para ficar no governo, o ministro acabou contrastando a
autoridade do presidente, e qualquer um que tenha convivido com
Lula, dentro ou fora do governo, sabe que o ex-líder metalúrgico
sempre foi cioso de seu próprio mando. Diante disso, não
é difícil supor que o presidente deve ter experimentado
um profundo mal-estar ao ter sido levado a render-se diante de Palocci.
Nos últimos tempos, Lula tem se mostrado desconfiado e exasperado
com seus auxiliares, a ponto de provocar constrangimentos. Um ministro
conta que recentemente teve audiência com Lula e pediu a liberação
de recursos para celebrar um convênio com um governo de estado.
Lula, em vez de atender ou não ao pedido, mandou ligar para
o governador e, na frente do ministro, certificou-se se havia
mesmo convênio a ser selado e verba a ser repassada. O ministro
sentiu-se como um colegial.
A permanência de Palocci
no governo, porém, deve ser encarada mais como uma vitória
do ministro do que como derrota do presidente. Palocci fica no cargo
porque, de fato, virou um ministro imprescindível. O PIB
nacional tem dado sinais de que se sente mais seguro nas mãos
de Palocci do que nas mãos de Lula. Ao mercado, com sua frieza
aritmética, basta que o ministro mantenha o rumo, as regras
e a estabilidade não importando muito se carrega deslizes
éticos em seu passado político. Palocci também
se alçou à condição de quase indemissível
por artes da oposição tucana e pefelista. Para a oposição,
Palocci é uma pérola a ser cultivada. Por três
razões básicas. Quanto mais Palocci se fortalece no
governo, mais isso diminui a autoridade do próprio presidente,
desgastando o candidato reeleitoral em 2006 (veja
a reportagem). Em segundo lugar, Palocci é mais bem-quisto
entre as fileiras da oposição do que dentro de setores
expressivos do PT, que gostariam de ver a política econômica
"mais criativa" (leia-se: menos fiel aos parâmetros universalmente
aceitos de controle fiscal). Por fim, a oposição está
certa de que pode vencer a eleição presidencial de
2006 e, com Palocci no cargo até a hora da transição
de poder, a economia estaria a salvo das mágicas, das invencionices
e dos rasgos populistas.
Celso Junior/AE
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Dida Sampaio/AE
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NOS BASTIDORES
O senador Mercadante e o ministro Ciro
Gomes, nomes que chegaram a aparecer na cotação para substituir
Palocci: Ciro até reclamou da queimação com Lula |
Cercado por tamanha armadura,
Palocci fica até o fim do governo? Nem Lula é capaz
de responder a essa indagação, sobretudo porque Palocci
anda às voltas com fantasmas de seu passado e, pelo
que se observou até agora, Ribeirão Preto tem mais
ectoplasmas para exorcizar do que seria recomendável. Em
seus depoimentos ao Congresso nos últimos dias, Palocci somou
dezoito horas de falatório, mas não explicou praticamente
nada. Na semana passada, ao contrário da semana anterior,
em que foi poupado com disciplina pela oposição, Palocci
até foi questionado sobre algumas questões. O pefelista
Rodrigo Maia, do Rio de Janeiro, quis saber da relação
entre o irmão do ministro, Adhemar Palocci, e a seguradora
Interbrazil, suspeita de ter alimentado o caixa dois do PT na prefeitura
de Goiânia em 2004. O ministro não disse uma palavra
sobre o caso nem foi instado a fazê-lo. Outro deputado,
Pauderney Avelino, do PFL do Amazonas, perguntou ao ministro sobre
a política de benefícios fiscais para a Zona Franca
de Manaus e, também, sobre o casarão em Brasília
que seus ex-assessores transformaram numa central de negócios.
Palocci respondeu sobre a Zona Franca e nada mais. Avelino
não cobrou a segunda parte da resposta.
As dúvidas de natureza
ética que Palocci ajudou a jogar sobre o governo são
outro motivo de irritação de Lula. Até onde
a vista alcança, no entanto, Lula não parece inteiramente
satisfeito com a política econômica, mas não
dá sinais de que pretenda efetivamente modificá-la.
Está convencido de que não há outro caminho.
Sua relação com Dilma Rousseff encontra-se num bom
momento, mas isso não se deve puramente às opiniões
econômicas da ministra. O presidente gosta do estilo de trabalho
de Dilma e já disse a interlocutores que, depois que ela
assumiu o comando da Casa Civil, percebeu o erro que cometera ao
transformar Dirceu numa espécie de primeiro-ministro. Lula
acha que Dilma manda bastante, mas delega, e com isso as coisas
funcionam de forma mais adequada do que na gestão de seu
antecessor. Além disso, e esse é um dado relevante
para quem conhece a personalidade política do presidente,
Dilma Rousseff não oferece sombra ao presidente nem ameaça
lhe empanar o brilho. Nesse jogo de vaidades públicas, Palocci
é uma ameaça bem maior.
O desfecho da crise que abalou
Palocci tem um forte ingrediente de transitoriedade. Nesse ambiente,
a queda na taxa de popularidade de Lula ajuda apenas a jogar mais
instabilidade ao quadro geral. Na semana passada, uma nova pesquisa
mostrou que, pela primeira vez, mais da metade do eleitorado faz
uma avaliação negativa do desempenho de Lula no Palácio
do Planalto: 46,7% dizem aprovar seu governo. Ao saber dos maus
números da pesquisa, Lula, num primeiro momento, interpretou
o cenário até com certo otimismo. Entendeu que, diante
do tsunami da crise, sua popularidade até que anda resistindo
bem. Seus auxiliares, no entanto, examinando a pesquisa mais a fundo,
informaram o presidente da crescente deserção dos
eleitores de classe média um péssimo sinal.
Foi a adesão da classe média ao projeto petista que
abriu caminho para a eleição de Lula em 2002.
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As juras de Lula
Wilton Junior/AE
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Desde o começo
do governo, por cinco ou seis vezes, o ministro Palocci
correu risco de perder o cargo. Cedo ou tarde (em alguns
casos, tarde como na crise atual), Lula sempre foi em
seu socorro.
"Nós decidimos
por este caminho e estamos
juntos nele até o fim."
Maio de 2003
"O governo não
fará nenhuma aventura descabida na economia."
Fevereiro de 2004
"Não é justo
que nós inventemos o 'Plano Palocci' ou o 'Plano Lula'
ou um plano qualquer para ter sucesso de meio dia ou
meia hora. Estamos apostando na credibilidade e na seriedade
para não fazer nenhuma coisa apressada."
Março de 2004
"Deixem o Palocci
em paz. E, por favor, me deixem trabalhar."
Março de 2004. Quando
o PT lançou nota criticando a política
econômica
"Já disse
publicamente com todas as letras que o governo não
fará nenhuma aventura econômica. A política
de austeridade não é do Palocci, nem do
Meirelles nem minha. Ela é do governo."
Março de 2004
"Não queremos
reinventar a roda nem criar um plano daqueles com crescimento
de 7% ao ano e depois uma queda de 7%."
Junho de 2004. A empresários
no Brazil Meets Markets, em Nova York
"A política
econômica está certa e não vai mudar.
É a única coisa com a qual estou 100%
satisfeito no meu governo. Não mexam com o Palocci.
Mexer com ele é mexer comigo."
Novembro de 2004. Falando
aos ministros (Dirceu dizia que Palocci era "conservador
dentro do conservadorismo")
"Eu e o Palocci
somos unha e carne."
Maio de 2005. Quando os
primeiros impactos das denúncias de corrupção
ameaçavam acabar com a blindagem do ministro
"As turbulências
políticas não vão tirar o governo
de seu rumo."
Setembro de 2005
"O Palocci é
uma figura imprescindível ao Brasil. Todos sabem
o que o Palocci significa para a economia brasileira."
Na semana passada. (Palocci
fora atacado pela ministra Dilma Rousseff, que acusou
a política econômica de ser tão
ineficaz quanto "enxugar gelo"
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