Edição 1933 . 30 de novembro de 2005

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Carta ao leitor
Conciliação sem pizza


Beto Barata/AE
Políticos tucanos: mobilização por Palocci

Inúmeros autores apontam a conciliação como parte integrante da genética social e política do Brasil. No século XVII, índios, negros e brancos uniram-se para expulsar o invasor holandês das praias do Nordeste. No Império, os partidos Liberal e Conservador alternaram-se no poder sem maiores confrontos. Esse traço da alma política nacional pode ser encontrado em episódios bem mais recentes. Em 1985, os partidos aceitaram sepultar o regime militar por meio de um colégio eleitoral que escolheu indiretamente o primeiro presidente civil em duas décadas. Até no processo que culminou com o afastamento de Fernando Collor da Presidência, em 1992, a transição para a nova ordem foi conduzida em consonância com todas as forças políticas relevantes.

Na semana passada, os genes da acomodação puseram-se de novo em movimento em Brasília. Uma reportagem da presente edição de VEJA mostra como os caciques da oposição, liderados pelos tucanos, se uniram para evitar um ataque conjunto e demolidor contra o governo e, em especial, os dirigidos ao coração de Antonio Palocci, ministro da Fazenda. Na avaliação dos tucanos, o dano aos atuais donos do poder está feito, e elevar a temperatura da crise ao ponto da fundição das estruturas do petismo não vai ajudá-los em nada nas eleições gerais do próximo ano. Pode até atrapalhar. Por isso a ordem de amenizar os ataques. É verdade que a oposição agiu mais por cálculo do que por civilidade ou obediência a ritos históricos assimilados, mas o resultado foi o mesmo.

Muitos autores também enxergam nas sucessivas operações conciliatórias da história brasileira não apenas a co-responsabilidade de adversários para evitar o caos. Enxergam a conciliação como a tentativa de minimizar as punições dos culpados, a conivência e a neutralização das mudanças capazes de aumentar a transparência dos costumes políticos. Toda a vigilância é pouca para que a conciliação que se prenuncia em Brasília seja feita sem pizza. A crise pela qual o mundo político se arrasta há mais de seis meses não pode terminar sem punições exemplares nem reformas profundas. Não pode simplesmente se esvaziar em proveito comum de políticos no governo e na oposição, em prejuízo dos interesses coletivos dos brasileiros. Seria apenas mais um vergonhoso acordão.

 
 
 
 
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