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Carta ao leitor
Conciliação sem pizza
Beto Barata/AE
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| Políticos tucanos: mobilização por Palocci
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Inúmeros autores apontam
a conciliação como parte integrante da genética
social e política do Brasil. No século XVII, índios,
negros e brancos uniram-se para expulsar o invasor holandês
das praias do Nordeste. No Império, os partidos Liberal e
Conservador alternaram-se no poder sem maiores confrontos. Esse
traço da alma política nacional pode ser encontrado
em episódios bem mais recentes. Em 1985, os partidos aceitaram
sepultar o regime militar por meio de um colégio eleitoral
que escolheu indiretamente o primeiro presidente civil em duas décadas.
Até no processo que culminou com o afastamento de Fernando
Collor da Presidência, em 1992, a transição
para a nova ordem foi conduzida em consonância com todas as
forças políticas relevantes.
Na semana passada, os genes da
acomodação puseram-se de novo em movimento em Brasília.
Uma reportagem da presente edição de VEJA mostra como
os caciques da oposição, liderados pelos tucanos,
se uniram para evitar um ataque conjunto e demolidor contra o governo
e, em especial, os dirigidos ao coração de Antonio
Palocci, ministro da Fazenda. Na avaliação dos tucanos,
o dano aos atuais donos do poder está feito, e elevar a temperatura
da crise ao ponto da fundição das estruturas do petismo
não vai ajudá-los em nada nas eleições
gerais do próximo ano. Pode até atrapalhar. Por isso
a ordem de amenizar os ataques. É verdade que a oposição
agiu mais por cálculo do que por civilidade ou obediência
a ritos históricos assimilados, mas o resultado foi o mesmo.
Muitos autores também
enxergam nas sucessivas operações conciliatórias
da história brasileira não apenas a co-responsabilidade
de adversários para evitar o caos. Enxergam a conciliação
como a tentativa de minimizar as punições dos culpados,
a conivência e a neutralização das mudanças
capazes de aumentar a transparência dos costumes políticos.
Toda a vigilância é pouca para que a conciliação
que se prenuncia em Brasília seja feita sem pizza. A crise
pela qual o mundo político se arrasta há mais de seis
meses não pode terminar sem punições exemplares
nem reformas profundas. Não pode simplesmente se esvaziar
em proveito comum de políticos no governo e na oposição,
em prejuízo dos interesses coletivos dos brasileiros. Seria
apenas mais um vergonhoso acordão.
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