Edição 1933 . 30 de novembro de 2005

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Auto-retrato
Emanuela Lima

Alcir N. da Silva


A comunidade brasileira de Danbury, uma pequena cidade a uma hora de Nova York, revoltou-se contra a empresária Emanuela Lima depois que ela disse na TV que alguns de seus compatriotas vendiam documentos falsos. Aos 22 anos, Emanuela tem um jornal dirigido aos 15 000 brasileiros de Danbury. Ela falou sobre o caso à repórter Camila Antunes.

A SENHORA DELATOU OS IMIGRANTES ILEGAIS BRASILEIROS PARA UMA REDE DE TV AMERICANA. POR QUÊ?
Quero deixar claro que não estou em campanha contra os imigrantes ilegais. A razão da polêmica foi uma entrevista que concedi à rede de televisão ABC. O repórter me perguntou se os ilegais estão envolvidos no comércio de documentos falsos. Disse que sim e que, em Danbury, esse comércio está nas mãos de brasileiros. A entrevista foi ao ar numa reportagem na qual flagraram brasileiros vendendo carteiras de motorista falsas. Desde então, passei a ser odiada por parte da comunidade.  

POR QUE A SENHORA NÃO FEZ ESSA DENÚNCIA NO SEU JORNAL?
Falamos do problema várias vezes. Não obtivemos repercussão porque o jornal é pequeno. Acabamos chamando a atenção da rede ABC porque o jornal é bilíngüe. Aliás, o objetivo é esse: mostrar aos americanos que também fazemos parte da sociedade deles. O problema é que muitos brasileiros preferem viver em guetos aqui nos Estados Unidos, num ambiente de subcultura.  

MAS OS ILEGAIS NÃO SÃO OBRIGADOS A VIVER ESCONDIDOS E USAR DOCUMENTOS FALSOS?
Não. Os filhos de imigrantes, mesmo ilegais, têm direito a escola e atendimento médico. O visto de permanência demora, mas sai. É melhor tentar a via legal do que viver escondido. Quem usa documento falso corre o risco de ser preso, principalmente depois dos atentados de 11 de setembro. Perdi a conta das vezes que fui à delegacia para ajudar gente presa por causa disso. O jeitinho brasileiro só complica as coisas.

QUAL A DIFERENÇA ENTRE OS BRASILEIROS QUE IMIGRAVAM HÁ DEZ ANOS E OS DE AGORA?
Hoje, há uma onda de imigração de brasileiros cada vez mais pobres. Querem fazer fortuna e voltar para o Brasil correndo. É gente que foi seduzida pela história da personagem Sol (vivida pela atriz Deborah Secco) na novela América. Em geral, eles entram nos Estados Unidos pela fronteira com o México. Quem apela para esse caminho não está disposto a respeitar leis. São pessoas ignorantes e acham que não têm nada a perder.  

A SENHORA É ACUSADA DE ENTREGAR BRASILEIROS À IMIGRAÇÃO PARA QUE SEJAM DEPORTADOS.
Essa é uma mentira publicada por outros dois jornais de brasileiros editados em Danbury. Dizem que sou o judas da comunidade, mas quem está sendo traída sou eu. Sempre trabalhei pela comunidade. Minha família iniciou um projeto de aulas gratuitas de inglês. Conquistamos boas relações com a prefeitura de Danbury. Minha mãe, Célia Bacelar, até ganhou a chave da cidade.  

HÁ BRASILEIROS QUE DIZEM QUE ELA NÃO É NADA POPULAR E QUE ESTÁ SENDO AMEAÇADA DE MORTE.
Outra mentira. Ela é popular, sim. O que aconteceu foi que, em março, ela foi atropelada por uma van sem placa. Desde então, temos escolta policial dia e noite.

MAS ISSO ACONTECEU ANTES DE SEU DEPOIMENTO À ABC. QUAL O REAL MOTIVO DO ODIO CONTRA SUA FAMÍLIA?
Como sempre, questões comerciais. Concorremos com outros dois jornais pelos mesmos anunciantes. Quando eu falei sobre os documentos falsos, atingi as pessoas que vivem desse comércio.

SUA FAMÍLIA IMIGROU LEGALMENTE?
Não. Minha mãe sofre de um tipo grave de hipertensão e achava que podia ser salva numa clínica de Nova York. O dinheiro terminou antes do tratamento. Ficamos aqui para que ela pudesse ser atendida em hospitais públicos.  

A SENHORA SE ADAPTOU AO ESTILO DE VIDA AMERICANO?
Só não sou mais americana porque gosto mesmo é de namorar brasileiros. Não quero repetir essa história de que eles são frios, mas a relação com americanos demora a esquentar.

 
 
 
 
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