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Auto-retrato Emanuela
Lima
Alcir
N. da Silva
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A
comunidade brasileira de Danbury, uma pequena cidade a uma hora de Nova York,
revoltou-se contra a empresária Emanuela Lima depois que ela disse na TV
que alguns de seus compatriotas vendiam documentos falsos. Aos 22 anos, Emanuela
tem um jornal dirigido aos 15 000 brasileiros de Danbury. Ela falou sobre o caso
à repórter Camila Antunes.
A SENHORA
DELATOU OS IMIGRANTES ILEGAIS BRASILEIROS PARA UMA REDE DE TV AMERICANA. POR QUÊ?
Quero deixar claro que não estou em campanha contra os imigrantes ilegais.
A razão da polêmica foi uma entrevista que concedi à rede
de televisão ABC. O repórter me perguntou se os ilegais estão
envolvidos no comércio de documentos falsos. Disse que sim e que, em Danbury,
esse comércio está nas mãos de brasileiros. A entrevista
foi ao ar numa reportagem na qual flagraram brasileiros vendendo carteiras de
motorista falsas. Desde então, passei a ser odiada por parte da comunidade.
POR QUE A SENHORA NÃO FEZ ESSA
DENÚNCIA NO SEU JORNAL? Falamos do problema várias vezes.
Não obtivemos repercussão porque o jornal é pequeno. Acabamos
chamando a atenção da rede ABC porque o jornal é bilíngüe.
Aliás, o objetivo é esse: mostrar aos americanos que também
fazemos parte da sociedade deles. O problema é que muitos brasileiros preferem
viver em guetos aqui nos Estados Unidos, num ambiente de subcultura.
MAS OS ILEGAIS NÃO SÃO OBRIGADOS A VIVER
ESCONDIDOS E USAR DOCUMENTOS FALSOS? Não. Os filhos de imigrantes,
mesmo ilegais, têm direito a escola e atendimento médico. O visto
de permanência demora, mas sai. É melhor tentar a via legal do que
viver escondido. Quem usa documento falso corre o risco de ser preso, principalmente
depois dos atentados de 11 de setembro. Perdi a conta das vezes que fui à
delegacia para ajudar gente presa por causa disso. O jeitinho brasileiro só
complica as coisas. QUAL A DIFERENÇA
ENTRE OS BRASILEIROS QUE IMIGRAVAM HÁ DEZ ANOS E OS DE AGORA? Hoje,
há uma onda de imigração de brasileiros cada vez mais pobres.
Querem fazer fortuna e voltar para o Brasil correndo. É gente que foi seduzida
pela história da personagem Sol (vivida pela atriz Deborah Secco)
na novela América. Em geral, eles entram nos Estados Unidos pela
fronteira com o México. Quem apela para esse caminho não está
disposto a respeitar leis. São pessoas ignorantes e acham que não
têm nada a perder. A SENHORA É
ACUSADA DE ENTREGAR BRASILEIROS À IMIGRAÇÃO PARA QUE SEJAM
DEPORTADOS. Essa é uma mentira publicada por outros dois jornais
de brasileiros editados em Danbury. Dizem que sou o judas da comunidade, mas quem
está sendo traída sou eu. Sempre trabalhei pela comunidade. Minha
família iniciou um projeto de aulas gratuitas de inglês. Conquistamos
boas relações com a prefeitura de Danbury. Minha mãe, Célia
Bacelar, até ganhou a chave da cidade. HÁ
BRASILEIROS QUE DIZEM QUE ELA NÃO É NADA POPULAR E QUE ESTÁ
SENDO AMEAÇADA DE MORTE. Outra mentira. Ela é popular, sim.
O que aconteceu foi que, em março, ela foi atropelada por uma van sem placa.
Desde então, temos escolta policial dia e noite. MAS
ISSO ACONTECEU ANTES DE SEU DEPOIMENTO À ABC. QUAL O REAL MOTIVO DO ODIO
CONTRA SUA FAMÍLIA? Como sempre, questões comerciais. Concorremos
com outros dois jornais pelos mesmos anunciantes. Quando eu falei sobre os documentos
falsos, atingi as pessoas que vivem desse comércio. SUA
FAMÍLIA IMIGROU LEGALMENTE? Não. Minha mãe sofre
de um tipo grave de hipertensão e achava que podia ser salva numa clínica
de Nova York. O dinheiro terminou antes do tratamento. Ficamos aqui para que ela
pudesse ser atendida em hospitais públicos. A
SENHORA SE ADAPTOU AO ESTILO DE VIDA AMERICANO? Só não sou
mais americana porque gosto mesmo é de namorar brasileiros. Não
quero repetir essa história de que eles são frios, mas a relação
com americanos demora a esquentar. |